Antônio Siúves e o sentimento irônico do mundo

Publicado originalmente em O Tempo, em 02/05/2010

Antônio Siúves e o sentimento irônico do mundo

SEBASTIÃO NUNES

Como é que alguém chega a se tornar um bom poeta? T. S. Eliot, um dos maiores escritores de língua inglesa do século XX, também crítico e editor (dominando assim um espectro bastante amplo da literatura), escreveu o seguinte: “A evolução do poeta se processa ao longo de duas linhas de um gráfico imaginário. Uma das linhas é o esforço constante e consciente em busca da excelência técnica, isto é, do desenvolvimento de seu meio de expressão para quando tiver realmente alguma coisa a dizer. A outra linha é apenas o curso normal de seu desenvolvimento existencial, o acúmulo de experiência, que deve ser a soma de leituras, reflexões, interesses de todos os tipos, contatos e conhecimentos, tanto quanto paixão e aventura. É quando as duas linhas convergem que nascem as obras de arte”. (Introdução do livro “Ezra Pound, Selected Poems“, 1928.) Acrescento que, além da tradução fajuta que fiz, também cortei e selecionei apenas os trechos que me interessavam.

DE CIMA E DE BAIXO
O que diferencia a poesia de Antônio Siúves de boa parte dos poetas atuais é que ele parece seguir à risca (talvez sem conhecer) o recado de Eliot: ler, experimentar e viver. Como não conheço o autor pessoalmente, não sei como são sua vida e leituras. Mas basta folhear ao acaso “Quem Escreve Nunca Alcança” para saber que se está junto de um poeta que chegou lá pelo caminho do aprendizado, evoluindo ao longo das duas linhas mestras do gráfico imaginário. Por exemplo, em “Retrato”:


“Homem-carro acelera contra o dia/ e o sorvedouro da luz engolfa/ outra esperança tardia./ A cidade oca expulsa os mortos -/ os vivos – seres tortos -/ padecem dessa ausência.// A luz suave – carícia não havida -/ em cada ponto é defletida/ no fundo da esfera onde a cidade repousa -/ e para na fotografia”.

Que é o retrato da cidade moderna, qualquer cidade, com seus homens-carro, seus vivos tortos e seus mortos, parados em fotografia.

Ou, quem sabe em “Na Ala Branca”, em que flagra uma cena do cotidiano, trabalho a que se entrega muitas vezes, com sarcasmo e – imagino – prazer?

“quinta-feira -/ na ala branca da avenida -/ perto do jornal-anátema – revejo o/ambulante que não sabe o salmo de cor/ e treina o sonho de ser pastor com plantel,/ ao ler ao sol sua pequena bíblia de hotel -// agora// o homem negro clama contra a sede do mundo,/ rente às sombras dos ônibus que vão e vêm -/ o pastor suposto – que nome tem?”.

No primeiro poema, a cidade é vista em conjunto. Neste, é um detalhe, recorte visto e revisto, quando seleciona e transforma em estátua o candidato a pastor, por enquanto sem rebanho.

VENDO E REVENDO
Esse foi o retratista, agora é o memorialista. Aqui a vida dói mais, a ironia se refina, a melancolia está adensada, pastosa, o labirinto se formou e prendeu em seus meandros aquele que foi e é, ou não é, como em “Melancólicas – 4)”:

“Ao pegar a velha estrada de terra da fazendinha, 29 anos depois, percebeu que não devia ter partido. E não devia ter ficado”.

Poema em prosa? Talvez. Mas o impressionante é como o tempo está congelado e o problema insolúvel. Nada, absolutamente nada a fazer, na vida que não se resolveu na busca do caminho. Quase o mesmo neste outro poema, quase drummondiano, que lembra o patético do próprio Carlos, pedindo a si próprio que não se matasse, em “Loucura e lucidez ou a balada da autocomiseração possível”:

“A loucura não, Franquilim da Silva./ A loucura é suja.// Foge.// Sabes o alienígena que pensaste ter visto esta manhã, no café/ da Savassi, a observar o carro avançar o sinal sobre o velho?// Foi nada aquilo não.// A loucura ainda não.// A loucura é úmida e adstringente.// Cai fora.// Está certo que tu sintas um desejo doido de descer montanha/ de neve. E faz calor à beça, como sempre.// Não cedas à loucura.// A loucura é solidão pantanosa.// A lucidez, higiênica solidão.// Ainda que tenhas te mostrado estúpido no almoço em família/ no domingo, e os jovens o viram – estavas certo disso – como/ traste de casa velha,// Ou, sob a influência do quinto copo de vinho, não tenhas te/ contido e tentaste remedar o presidente, e ninguém achou/ graça em ti (e te enrubesceste).// Não cedas à loucura, ainda não”.

Franquilim é o outro Carlos, e como o outro, o muito mais velho, num longo e denso poema, de que só reproduzo um trecho, aconselha seu alter ego a não mergulhar na loucura, e que tudo aquilo é delírio.

A RAMPA QUE DESCE
Mas Siúves vai mais fundo, descendo aos abismos fundadores da melhor poesia, como neste trecho de “Um Manifesto Antigo à Moda de Rimbaud”, que fecha o livro:

“1 – Não serei escravo do presente. O que é o homem quando se alinha à tecnociência e caminha seguro para o abate asséptico? Qual é seu pecúlio? Ter aprendido a se desviar da tragédia e do lirismo. Ó miséria. Sem o nexo da música e da poesia, somos o quê mais que carne de vaca, mercadoria sexual, presa na vitrine do condomínio?”.

Lirismo e tragédia que constituem a essência mesma do humano. Essência que é negada pelo “devoto interesseiro”, personagem deste irônico “Amor a Baco”):

“A Baco não interessa o devoto interesseiro -/ um olho firme no copo, outro preso no dinheiro./ Igualmente condena o libador que prima pela/ moderação e perde no futuro a doce satisfação./ O amante do vinho se apega ao calor da hora,/ pois sabe que a flor de ontem já morreu e ao amanhã, que se ignora, só o tolo prometeu”.

Siúves é um poeta interessado no mundo e na vida, e seu olhar é multifacetado. Ainda inédito, olha com desconfiança a própria obra, assim como encara com desconfiança a vida que nos foi dada, e que torna a todos nós escravos do presente, fugitivos da tragédia. Não existe saída, nem ao menos porta.

Presos no curral, baixamos a cabeça esperando a porretada final.

Leia no original: Antônio Siúves e o sentimento irônico do mundo

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