Em louvor a Fernando Fiúza de Filgueiras

[Atualizado em 03/03/2015, com nota no pé sobre a mostra de Fernando Fiúza no Centro Cultural Banco do Brasil de Belo Horizonte e link para o documentário O homem roxo, de Carlos Canela e Duke. O poema a seguir integra o livro Moral das horas, publicado pelo autor do blog no final de 2013, pela Manduruvá Edições Especiais.]

 http://www.chillida-eduardo.com/
Eduardo Chillida, Dibujo tinta (1983)

“O papel das artes é explorar o espaço interior do homem; descobrir quanto e com qual intensidade ele pode vibrar por meio do que ouve!” — Karlheinz Stockhausen, citado por João Marcos Coelho, no Estadão, em 22/2/2009.

— Minas não tem mar. Em BH falta ar! — exclamou Franquilim da Silva.

1

Para Malluh Praxedes

1

Neste luar amarelo de ipês
revoa um pássaro púrpura
sobre a Paisagem abstrata,
como recriada pelo artista
Fernando Fiúza de Filgueiras.

2

O artista navega em seu barco avernal
pela cascata da colina lânguida coberta
de negros, prateados e o ciano matinal.

O quadro no alto então se desvanece
e toda a trama tropical encontra corada
o céu azul, a cingir o mundo que renasce.

3

A urbe expõe estrias onde não se semeou,
onde se abriram sulcos há terra crestada,
bulbo morto, varicose. O artista se mudou
da vizinhança, que ainda fulge, esbatida.

Cadê seu feitiço contra profetas agnósticos
que enchem nossos dias com esta didática
da tal pregação pela vida longa e higiênica
concebida pelos tecnopoetas matemáticos?

 4

A casa de esquina no 153 da Pouso Alto,
hoje espantada, cerrou seu teatro trágico.
Desceram os cenários refeitos a cada ato,
na ronda da arte, teu fundamento litúrgico

De amor ao desenho, filmes, livros de museu
comprados por ti, que não podias tomar avião
mas que à roda de teu quarto, rente ao chão,
sabias do mundo mais do que sonha o filisteu.

5

— Na sessão aberta, o público saudado por Tarsila e Van Gogh encontra os fantasmas Pablo Pablo Picasso, Federico Felini e Otto Dix, deitados no chão.

Tua casa transpirava o suor da casa vívida,
suor próprio da secreção de mesa, xícaras,
espátula, pincel, tubos de tinta, aquarela, lápis,
folhas, jornais, paletas, mancha no chão, goteira,
forno, cartolina, chá, cimento, cavalete, chinelo,
ampola de oxigênio, meia elástica, fotografia,
criaturas de cerâmica de Luciana, tudo debaixo
do verniz chiaroscuro da passagem das horas.

6

O Homem roxo a proclamar azul|
seu Nunca Mais em meio à festa
como este rapaz magro magenta
com braços quase linhas violeta
a biclicletar pela Pedro Leopoldo
redescoberta do Meu Boi Morreu,

Ou as mil e uma colagens de eus
e desenho a bico de pena ou lápis
que ilustravam na Babita a galeria,
e um que lhe fez pendant, o Francis
dos Diários, como o que tenho meu
ali nesta parede verde, à luz do dia.

7

O gosto largo pela vigília alegre,
tua nobreza, tua mão comprida
saliente (Rodin se encantaria)
sempre estendida à amizade
(Vinícius a Antônio), Nando,
lhe deram a provar mel e fel
na cidade rendida onde reina
a paz dos estios, onde impera,
entre sombra e vazio, a legião
habitual dos camaradas órficos,
poetas, filósofos, toda a gente
natural e singelamente infiel.

8

— Quem foste? O viajante de tantas eras, o embrião rebelde, o menino rebelde, o moço eterno rebelde de coração?

Que tu, Nando,
tenhas lutado
para ganhar a vida
até sobrevir o estertor,
ora fotógrafo, ora pintor,
enquanto driblava
a Indesejada
qual louva-a-deus, oblíquo,
tal valentia não doura
a cidade de alma ácida
que o esquece,
a que há séculos
assa covardia
no fervor de ser sincera.

9

Poucos levaram melhor
o tal mote existencialista
de viver até o último sopro,
até o último logro, artista,
até o vergão derradeiro
tua condenação à liberdade,
tua dedicação ao ofício
de tocar a corda do tempo
e encher a tela com teu ser.

10

Não há vez que depare a Pouso Alto,
indo ao Mart Plus, em nossa adjacência,
que não cruze com tua imensa ausência,
que não retenha tua felicidade e tua dor,

Que não capte tua doçura de olhar, o riso,
e que não reouça o piano de Nelson Freire
bater a frase inicial dos Préludes – Livre I,
do Debussy, que ouvimos ambos, só a sós.

 

Sobre a mostra em cartaz no CCBB de BH

(Adaptado do Guia UOL de Belo Horizonte ) As galerias do andar térreo do CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil) de BH recebem 60 obras do artista plástico Fernando Fiúza. A exposição Mulheres – o traço poético de Fernando Fiúza pode ser visitada das 9h às 21h, com exceção de terça-feira, até 13 de abril de 2015, no espaço cultural da Praça da Liberdade. A curadoria de Luciana Radicchi, viúva do artista, buscou sobretudo desenhos de mulheres, inspiração recorrente na produção do mineiro. Os trabalhos se dividem em pinturas e desenhos em aquarela, carvão, guache, grafite e pastel seco.

No dia 11 de março, às 19h, a sala de cinema (Teatro 2) do CCBB  exibe o documentário O homem roxo, de Carlos Canela e Duke. A partir de entrevistas e trilha original, o filme investiga, com humor e admiração, a trajetória de Fiúza. O vídeo pode ser visto por aqui.

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7 comentários em “Em louvor a Fernando Fiúza de Filgueiras

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