Um pouco sobre minha mãe


Volto

A escrever à mão e alegra-me
Saber a caligrafia da mãe, do lance
manso de deitar o Tempo em folhas,
Cadernos, papéis de pão, à margem,
Orações e contas do seu pouco

A letra
Que hesita neste bordado fotografa
Novenas, receitas, haveres e curtas
Dívidas que não sabia dever
(E ensinava a nunca se aprender)

No Viés
Da frase desejosa, mamãe legou,
Linha a linha, pausa a pausa, tais
Autorretratos donde agora ressai
Menos o viço à prova da jovem casada
Em carta à mãe distante, que a talha
Dos anos, somatório, mercê da
Definitiva promissória irresgatável

Mas que poderá?
Tal ideia contrapor,
Me permita, o retrato de mamãe
Debruçada ao final da tarde outonal
Por sobre a página branca espiralada
E no caderninho, serenamente (ou
Doída), lavrar letra e ser num bilhete
Longevo cuja força tento alentar

Doce
De leite de Nossa Senhora Visitadora
(Para pagar o ônibus de T.).

Reviro
Folhas com o dedo umedecido na saliva
E encontro este récipe: 80 gramas de
Margarina, meio quilo de fubá, seis
Gemas de ovos; à frente deparo
Um memorando: guardar 15 cruzeiros
Para chamar Seu Joaquim

Agora o
Tempo de remoçar o jardim, carpir os
Canteirinhos dos fundos, adubar as
Malvas da varanda, podar a goiabeira

Cuidados
Para receber sua gente
Na ânsia juvenil das horas brancas,
No curso adensado do Tempo;
Era Natal

E já
O reencontro de quem se revia na
Cozinha à volta de gamelas, broas
Empadões, copos de cerveja, ou
Na sala renovada da brisa que
Transpunha os janelões e se esbatia
No verde ardósia do piso lustrado

Coma,
Formiguinha Doceira da
Vovó; já tomou café, minha filha? E
Aquela outra, chega quando? Agora
Deu de ficar até tarde no Belo, ela se
Queixava, operando a existência em
Torno de si, a tocar a vida em tom
Maior para recolher de cada um
Uma aflição e nos tratar a alma com
O remédio ao alcance da função que
Cumpria à vera, pugnaz, a reger os
Dias no dever que os significavam

Janela azul
Enquadra azul do céu
Contra rosa e roseira
Em pedestal

Perto dali
O mamoeiro Quixote,
Infenso aos espinhos do limoeiro,
criança sempiterna, a guardar
O fruto que hortelã, capim cidreira,
Alface, tomate, couve, cenoura e o
Florido amarelo dos quiabos faziam
Brotar da tela escura da terra

Era
Onde ouviria crepitar o sal na
Chama de papéis avulsos e trastes;
Calmo, olhava tudo estalar ao sol que
Esmaecia franjas alaranjadas e
Cristas de éter sobre ocasos

O que
Criei não dava conta do que tive;
Eram linhas em desnorteio, pobres
Da fibra que conduz o aroma do
Café e colore o dia acabado se ao
Papel desce um ai, ai meu Deus,
Não há de ser nada.

roses

(Publicado originalmente em 2 de novembro de 2010 e escrito anos  antes; houve duas ou três palavras trocadas.)

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6 comentários sobre “Um pouco sobre minha mãe

  1. Toninhoooooo,me lembro , e ainda hoje ouço aquela voz,firme porém muito mansa a te chamar…..Dona Ilda,que saudade gostosa de sentir,sabendo que fomos vizinhas que se ajudavam……

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  2. belas palavras!
    E como ela dizia: feliz de quem consegue chorar, agora sei o que ela sentia, o corpo doi,mas, as lagrimas não caem. saudades e orgulho de ser filha dela e irmã de um poeta.

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