1 Siúves, 3 Antonios e 1 Jobim

Há muito esperava rever a fita. Meu tape em VHS sumiu no porão.

Apareceu no tubo da Google.

O média-metragem 3 Antonios e 1 Jobim, de 1993, realiza a bela ideia de um encontro entre Antonio Callado, Antonio Houaiss, Antonio Candido e Tom Jobim, no Rio de Janeiro.

O diretor Rodolfo Brandão e o produtor executivo Augusto Casé não vão se importar com o gesto da boa alma que o fez subir ao tubo, há coisa de seis meses. Até segunda-feira, apenas uns 3,7 mil o tinham visitado, we few, we happy few.

Os 4 Antonios se reúnem no museu Chácara do Céu, em Santa Tereza, e almoçam um macarrão preparado pelo chef Houaiss; passeiam pela cidade e proseiam risonha e francamente. Em cenas alternadas, cada um fala de si do que acha belo e bom.

Callado cobriu a Segunda Guerra e ouviu as bombas alemãs silvarem sobre Londres; ao voltar, se interessou pelos índios e enveredou sua obra Brasil a dentro.

Houaiss decanta Portinari e tasca a ditadura manuseando o próprio prontuário do SNI.

O acadêmico deixará sua receita de gafanhotos fritos no “azeite de oliveira”: “quando começar a estalar, você leva à boca: é um camarão delicioso! São João Batista comeu com muito prazer, pode estar certo.” Nosso grande tradutor do “Ulisses” também recomenda a farofa com bundinhas de formigas ao ponto.

Candido enaltece as utopias do século 18, liberalismo, socialismo, comunismo, o anarquismo, a fraternidade universal, a igualdade… “A utopia cria o homem superior. Faz você subir acima de você mesmo”, nos diz. Utopias já eram, lamenta.

Callado lembra a empregada portuguesa da família em Paris. A boa senhora se virava bem no francês mas implicava “com a mania” de chamarem água de “l’eau”. Não, água é água.

Candido louva a imigração. Cita com ternura a memória dum libanês gritando “Nagibêêê, vosso pai está te chamando você!”. “Três formas de tratamento numa frase simples”, diz Callado.

Depois cantarola a “Balada de Pedro Nava”, de Vinicius de Moraes: “Meu amigo Pedro Nava/ Em que navio embarcou: / A bordo do Westphalia/ Ou a bordo do Lidador? // Em que antárticas espumas/ Navega o navegador?”

Como inteligência e elegância fazem diferença. O comunismo de Houaiss, Callado e Candido soa idílico perto do esquerdismo rude e, diria o próprio Houaiss, ágrafo dos nossos dias.

Hoje só temos o Candido entre nós, mestre de mestres com seu “Formação da Literatura Brasileira – Momentos Decisivos”.

Os outros xarás se foram.

Ao revê-los, me dei conta de que a arte da conversa de fato estrebuchou. Não há mais reunião que não seja mediada pelo tédio de telinhas abertas a cada instante para alguém nos exibir fotocas e filmocos engraçadinhos. Não se discutem mais ideias soltas sobre a vida e arte, livros e discos e tal.

Tom: “O Brasil precisa merecer a bossa nova, casar com mulher bonita, ter filhos, passear no barquinho do Menescal… o barquinho vai, a tardinha cai… o barquinho a deslizar no macio azul do mar…”, ele recita. Ainda não merece, não.

Retenho o rigor do Houaiss, a honrar sua obra, sua fala meio sibilante, a prosa melodiosa do Callado, semelhante à do sempre suave Candido, com seu delicioso acento interiorano de mineiro e paulistano.

Tom, o mais jovem ali, traz o mundo luminoso, o amor ao Rio, a beleza da música que ele mesmo irradia ao falar de dicionários ou do taquaraçu de espinho que amava tanto.

Saudade.

O filme, de apenas 21 anos atrás, é retrato de certo Brasil (um retrato é um instante mumificado pela luz, eu digo) e de um idioma que se degradou no patoá das tribos infantilizadas.

Houaiss: “Todo homem, para ser homem no futuro, vai ser um viajor”.

Viajor sou.

No final, Jobim cita meu esquecido Cassiano Ricardo: “Chove e eu penso: haverá coisa mais viúva/ que a saudade possuir olhos de chuva/ e eu coração de girassol?”

Tom ainda diz que seu amigo Callado gosta mesmo é de Eliot e manda “April is the cruellest month, breeding/ Lilacs out of the dead land, mixing/ Memory and desire, stirring” — e vão-lhe seguindo: “Dull roots with spring rain. / Winter kept us warm, covering…”

O contubérnio (grazie, Houaiss) termina com os quatro num bar cantando um samba de Noel.


 

(Correções e uma atualização em 24/05/2014; nova atualização em 30/05/2014)

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