O espírito da época tenta me possuir em uma exibição de crossfit na padaria. Pobre de mim: tão longe e tão perto da salvação

Quando descia a rampa para deficientes, manjei a conversa que um celebrado artista travava com a amiga com um livro para colorir nas mãos. Teciam loas ao crossfit e à água mineral com gás Cambuquira

VitruviomushupNa manhã do último sábado montaram aparelhos de crossfit em frente à padaria perto de casa. Dali a pouco levariam uma maratona de remo, lia-se num flyer.

Ao atravessar a Aimorés, percebi que a dedicação à saúde e ao desporto fervia à porta da Vianney. Mal notei os implementos instalados no passeio e me exauri, tal a energia potencial que faiscava o ar. O ruído, a alegria ritual e a ânsia pelo treino elevaram subitamente minha frequência cardíaca.

Vi que o coração, o bem-estar, a vida longa, mas também a paz universal e o congraçamento dos povos eram favorecidos no evento. Curti os corpos hiperinflados, as bundas duras delineadas por malhas sutis e caras. Encantou-me a profusão de tatuagem — essa segunda pele contemporânea sobre desmesurada massa muscular. Notei certa adesão a roupas, corte de cabelo e cuidados com barba, unhas e pés, tudo a identificar uma tribo múltipla por natureza.

A ciência médica e da nutrição gritava no recinto aberto. Por toda parte, reluziam aplicativos de ginástica e relógios de corrida. O pessoal surfava a crista do nosso tempo, me pareceu, sentindo-me desgraçadamente fora da festa. Foi então que interrompi as variações para piano de Webern que ouvia no Spotify e fui comprar minha baguete e uma barrinha de manteiga Aviação.

Aquela gente, era óbvio, exalava felicidade sexual e desfrutava, não sem razão, uma vida plena e divertida, pensaria ao regressar. Tentei manjar o patoá. — Tô pegando também o irmãozinho dele, o lumber… Lumbersexual, uai, esclarecia uma Lolita no iPhone para quem, como eu, quisesse ouvir.

O marketing da mais nova academia do bairro, pensei, ao alcançar o patamar interno da Vianney, incorporava-se naturalmente à rua e ao espírito da época ou do tempo, ao Zeitgeist, como dizem em alemão. Invisíveis flexões aos modos de ser e estar dobravam tempo e espaço com a gravidade das convicções, matutei sem pretensão.

Espraiava-se a maré planetária que não reflui há três ou quatro décadas a reivindicar o fim da História no terreno da higiene, viajei, idealizando, na guerra cultural, a vitória da contracultura por outros meios. Lá se viam adolescentes de 39 anos, ao lado de cinquentões que fazem o que podem para se sentir parte do universo.

Já na fila do caixa, vejo que uma pequena multidão se formara da calçada à sarjeta. Reconheço ali um casal de advogados. Ambos se tornaram chefs de cozinha amadores de tanto ler as páginas de cultura da imprensa de resistência, por assim dizer, e assistir aos concursos de gastronomia na TV. Há anos viajam para comer e beber vinhos finos. O par logrou converter suas vidas numa balada geral. Lembrei o que um deles gostava de pontificar, como quem inventou uma piada inteligente: —Li meu último romance chato quando a literatura agonizava no século passado.

À saída, bombava a música de ginástica (que é a música funcional de costume da nossa era: bate-estaca, funk, rock, pop, pagode romântico, sertanejo, ponha o gênero que lhe venha à telha). Duas meninas combinavam uma ida ao teatro (“Só vou se for para rir muito”, impunha uma delas). Quando descia a rampa para deficientes, manjei a conversa que um celebrado artista travava com a amiga com um livro para colorir nas mãos. Teciam loas ao crossfit e à água mineral com gás Cambuquira. O instalador, digo de passagem, teve a suprema glória de encontrar um curador rico capaz de traduzir sua arte para investidores milionários de São Paulo e Londres — uma de suas obras, por sinal, chegou a formigar por uns tempos nos galpões da Tate Modern.

Alguém às minhas costas comentava ter visto na TV uma matéria legal sobre um festival nacional de videogame e seu amigo recém-chegado, ali pelas 45 primaveras, perguntava se já tinham ido ver qualquer coisa Age of Ultron, pesquei o inglês pelo rabo.

Eu suava. Meu coração era uma zabumba alceuvalenciana. Pensei em mastigar um Rivotril e cadê? Ainda nas matinas, de bermuda e chinelo de dedo, trouxera no bolso só o dinheirinho da compra. Peguei um folheto do guapo mancebo que me convidava para a demonstração da maromba que se seguiria. Balbuciei alguma coisa sobre se havia um desfibrilador no local, mas não fui compreendido. Agradeci, então, e me arrastei ao apartamento com o pão e a manteiga, tão longe e tão perto daquela redentora manifestação desportivo-filosófico-inclusiva.

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