Máximas (mínimas, sintomáticas) sobre o jornalismo cultural ou: Ai que preguiça!

Tardígrado
Um tardígrado: única espécie sobrevivente ao jornalismo cultural contemporâneo
[1] Acossado pela velha internet, vergado pela ignorância, esbofeteado pelo infantilismo, patrulhado pela correção política, o jornalismo cultural perdeu o norte no país de Macunaíma. A geleia geral sem osso nem tutano um dia combatida por Décio Pignatari atomizou-se em farofa cibernética — e vende-se como Baconzitos.

[1.1] Literatura, música, cinema, pintura, teatro, qualquer gênero, doravante, só pode ser encarado verdadeiramente como cultural pelo telescópio da solidão mais dura, mesmo assim e só assim por seu brilho de estrela morta.

[2] Os donos dos jornais na era de ouro do e-Tudo não se deram conta, ainda, que cortarão outras despesas com a sinergia do pessoal que cuida do noticiário da cidade com o da bancada cultural, denominada assim em 2015 apenas por conveniência. Haverá perda zero de conteúdo e ganho de leitores.

[3] Um velho herói do jornalismo cultural brasileiro, antes de ser desmascarado por plágio, tascava o “juveniilismo” que, à época, uma faixa entre os anos 1980 e 1990, predominava nas redações de cultura. E pensar que yuppies de academia, pipoqueiros de TV, famintos leitores de livros de colorir, sedentos cozinheiros e críticos de vinhos supercults tomariam todas as posições.

[4] O jornalismo cultural pode funcionar perfeitamente como aplicativo. O usuário terá o serviço completo de entretenimento e um menu de críticas cheio de viés em cada, como dizem em São Paulo, atração: gostei (sic), não gostei (sic), “ri”, “rachei os bicos”, “mijei”, “caguei” etc. O mais decisivo é que o usuário poderá assistir a vídeos, interagir com o editor, responder enquetes, dar opiniões, definir as melhores pautas e avaliar os jornalistas. Afinal, toda a pluralidade e toda a diversidade cultural do nosso tempo serão contempladas.

[4.1] A memória da água na diluição homeopática do espírito pelo jornalismo cultural desenvolveu seu próprio mal de Alzheimer. E ainda persiste o “vamos todos ligar o foda-se”, em massa, como blague, dos que ainda imaginam a possibilidade de ser livres!

[5] Não tarda para o jornalismo cultural incorporar também a jardinagem e outro tipo de petismo, a editoria de pets. Uma centena de colunistas afiados e brilhantes despontará para o anonimato (Francis), afinal.

[6] Embora não sejam lidos, os poetas vivos sobrevivem no Brasil como entertainers. Suas chances crescem à proporção de sua adesão ao e-Tudo, da docilidade de seus poemas e da própria simpatia, correção política e do talento para fazer rir. Há quem literalmente se vista de palhaço. O mais constrangedor são os adolescentes semicalvos à beira das sete décadas a declamar seu batatinha-quando-nasce para audiências que não param um instante de fotografá-los com smartphones. Quanto aos poetas mortos, morrem para sempre. Nem a iniciativa de alguma editora multinacional ao reeditar esta ou aquela obra nas efemérides é capaz de renovar o interesse por seu legado.

[7] Como não existe mais passado, apenas um presente fixo a deslizar para o futuro certo, a despeito do fim do mundo que os climatologistas categoricamente anteveem, no Brasil o jornalismo cultural espelha o espírito da época espetacularmente. Tudo que não seja leve, indolor, engraçado e previsível é fadado a não ser, à obscuridade, ao fedor.

[8] O provincianismo de metrópole só tem feito expor-se ainda mais no jornalismo cultural carioca e paulista, o que seria impensável até outro dia.

[9] O leitor médio do jornalismo impresso só lia títulos e bigodes. No jornalismo para telefone inteligente enxerga apenas as listas da maior quantidade de cliques inúteis registrados por robôs algorítmicos.

[10] O tipo de texto que antes podia se chamar jornalismo cultural, estabelecido em editoria de cultura, mal aparece nos portais da velha imprensa. É preciso um bocado de boa vontade para encontrar uma crítica decente sobre livro decente ou filme adulto não pornográfico. Ainda é menos trabalhoso buscar certos assuntos pesados indo a um sebo do que cavar nos desvãos do ciberespaço nativo.

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