5inco notas de náufrago em garrafa de vinho branco

[Ver também Notas para garrafa de náufrago]

1 — 1986. Surge a Companhia das Letras. Para mostrar a que veio, a editora publica “Rumo à Estação Finlândia”, ensaio referencial de Edmund Wilson sobre os pilares intelectuais que fundaram o socialismo e o marxismo. Na redação do Diário de Minas, praça Raul Soares, BH, ligo para o Van Damme e reservo meu exemplar, com a ansiedade de quem, alguns anos antes, esperava o próximo vinil de um compositor da MPB. De volta para o futuro. A Companhia das Letras celebra o sucesso de Kéfera Buchmann, uma “youtuber” que reúne zilhões de adolescentes em redes sociais e já desbanca Paulo Coelho com o best-seller “Muito Mais que 5inco Minutos”, uma coleção de apontamentos de uma jovem iletrada destinados a uma geração de videotas iletrados. Em um canto da mesma cidade, longe de uma redação e do jornalismo cultural, acho o fenômeno “youtuber” lindo de morrer.

2 — As estrelas youtubers, claro, são essencialmente alheias a qualquer objeto que escape ao campo visual do espelhinho de maquiagem. E daí? Engajados, jovens de gerações primitivas eram cheios de titica na cabeça. Tomavam drogas, aderiam a fanatismos de direita e esquerda e praticaram um monte de outras asneiras em nome de causas que não passavam e não passam de estereótipos, fantasmagorias. Alguns, renitentes, testarudos, como se diz em espanhol, carregam suas fantasias vida afora. Os “youtubers” talvez sejam seres mais afeitos à democracia, ai de nós.

Capricho de Goya: o mundo gira e o Youtube roda
Capricho de Goya: o mundo gira e o Youtube roda

3 — “A partir de certo momento, impera o movimento que vai do É o Tchan, da era FHC, ao funk e sertanejo universitário do lulismo”, disse Vladimir Saflate, na Folha, na coluna “O fim da música” . As noções de recusa, seleção, qualidade, arte, sempre foram ilusórias e agora um tanto líquidas, diria o sociólogo Bauman. Os idiotas culturais não precisam mais xingar de elitista todo crítico-quixote que lhes meta uma carapuça. Não há mais disfarce possível e tolerável. O leitor de ficção adulta, o ouvinte de música nem tão ligeira assim está condenado à mais áspera solidão. Outra: Adorno e Horkheimer não vão rir por último, continuam errados, por mais iluminados tenham sido seus textos. A decadência cultural será a mesma em qualquer modo de produção, mas as coisas obviamente sempre pioram em regimes totalitários.

4 — Às vezes tenho certeza de que a diversidade na vida intelectual brasileira é menor na era da internet e dos dispositivos eletrônicos. Vejam os colunistas que fazem sucesso em jornais e TVs. Um Xico Sá, digamos, contraria as leis da física com sua simpatia resignada, seu bom-mocismo ostentoso exibido em meia dúzia de canais e jornais simultaneamente. O mercado editorial e o mercado de premiações literárias dão conta de um único cronista brasileiro, hoje em dia, seu nome é Antonio Prata. Miseravelmente, nunca o haverei de ler.

5 — É o caso de dizer, terráqueos, mereceremos que um Bibi Netanyahu exista? Mil vezes não. Como não merecemos Angela Merkel, uma voz  fora da curva no nanismo moral vigente entre estadistas nomeados pelo noticiário. Bibi, homem-bomba, declarou que Hitler inspirou-se num obscuro líder islamita para conceber a Solução Final. Por qué no te callas?, refutou Merkel. Os alemães somos responsáveis pelo Holocausto, ela disse.

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