Espinosa, detetive brasileiro: o que diria o filósofo Bento Carneiro?

Com ares de Lolita, a dona do bar de Copacabana ergue-se detrás balcão para dizer no ouvido do delegado: “Happy birthday, mister presidente!”. Assim começa nada bem a série do GNT “Romance Policial – Espinosa”. Luana (Bianca Comparato), nossa beldade, logo se sabe, namora o aniversariante Espinosa (Domingos Montagner), que aparenta ter o dobro de sua idade e é seu mentor literário. A citação do parabéns a você meio pornô de Marilyn Monroe a JFK na boca de uma jovem da zona sul carioca em 2015 é tão verossímil quanto os filmes “Los Angeles – Cidade Proibida” e “O Homem que Sabia Demais” e a série “True Detective” terem servido de modelo da produção nacional, conforme Vicente Amorim, seu diretor, ao lado de José Rubens Fonseca, este também responsável pelo texto final extraído do livro “Uma Janela em Copacabana” , de Luiz Alfredo Garcia-Roza.

A frágil expectativa deixada na estreia de que a história ainda pudesse encaixar, no segundo episódio se desfaz como gelo na praia. Embora a série sinalize certa evolução técnica do cinema brasileiro e traga uma direção de arte bem realizada, o texto muitas vezes bordeja o ridículo, a montagem é gaguejante, a direção vacila e o elenco, ah, é de doer. Nem o tema de abertura da trilha sonora creditada a Dado Villalobos escapa à colagem de velhos seriados de suspense.

A Copacabana ambientada em “Romance Policial – Espinosa” se aproxima de fato, se isso quis dizer Amorim, bem mais do clima de uma Los Angeles hollywoodiana pasteurizada que dos bafios infernais do buñueliano bairro carioca.

O esboço de um delegado Espinosa culto, filosofante e esportista que a narrativa em off tenta desenhar destoa  da atuação insegura de Montagner na delegacia. Seus investigadores se dedicam ao papel de bons figurantes e abusam dos cacoetes de delegacias globais. Nesse incrível festival de desempenhos mancos, a detetive Camila (Nanda Costa) ainda se supera negativamente.

O criminoso que se encobre no capuz da blusa, indiferente à canícula típica de Copacabana, lembra um pot-pourri de assassinos seriais de filmes americanos. No segundo capítulo ele já enfileirou seis cadáveres de policiais corruptos e suas amantes. Os interrogatórios levados pela equipe de Espinosa se aproximam de ensaios de teatro amador. Como uma espécie de vinheta, as cenas íntimas de Espinosa e Luana só de calcinha intercalam praticamente cada sequência policial do segundo episódio. A carga extra de erotismo é mais um dado da debilidade do conjunto.

Em Espinosa, o assinante de TV a cabo é torturado por um fluxo de lugar-comum que parece ter saído dos algoritmos de algum aplicativo utilizado pelos roteiristas. Não faltam na trama a banda podre da delegacia liderada por um detetive com sobrepeso, a policial deselegante no meio de homens e o investigador abobalhado dublê de hacker convertido à legalidade. Exatamente como na precedente “Magnífica 70”, da HBO Brasil, a tentativa de embrulhar uma trama déjà-vu em tecnologia cinematográfica de primeira linha a um tempo irrita e decepciona quem ainda espera ver algo que preste na produção nacional para TV a cabo estimulada por lei federal.

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