Soneto anticlimático

Ainda há uma grande árvore à vista, 
Cuja solidão a Lua, não o sol, desvela,
Ao elevar-se plena e deitar à favela
O excesso adiposo que nos conquista.

Tímida, a estrela ao lado tremelicava, 
Vi desde minha janela, amargamente,
A fria pulsação ondular até o batente
Contra o vapor de sódio que a sugava.

Sob lençóis de linho me guardava
Da cidade torpe ao redor do asfalto,
Até tornar à vigília em sobressalto;
Num pesadelo na estufa do quarto, 
Beijara-me na boca selenita fatal,
Atroz criatura do aquecimento global.
[8/ "21 Poemas", de Antônio Siúves — 2015]

Mark Rothko nº 14, 1960
Um Mark Rothko (Nº 14, 1960)
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