Canto amarelo

[Eis que um Ipê se arregala
Como um deus de aldeia
Ao descer do sol, na calçada.]

Saía cedo,
Novo dia em que me vendo
Suposto ser às cegas,
No rio da vida vicária,
À margem da sempiterna
Florada daninha, meu irmão,
Meu igual, eu remava.

Olímpica e nua vegetação
A ostentar seu ciclo, soberana,
Tal potestade, pé, condição,
No pátio do bistrô postada.

Parei face ao signo radicado
A me indagar, amarelecido:
Que serventia terá o colorido
Ainda há pouco rebuçado?

Levava-se uma peça trágica
De clamor vangoghiano,
Reflexo da escuma cósmica
Recriado no instantâneo.

Olhos vazados
Para vendar melhor,
Deixei-me só, como soía,
Ir no rol da correnteza.

[11/ "21 Poemas", antônio siúves — 2015]

Mark Rothko nº 8, 1952
Mark Rothko, Nº 8, 1952
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