Notas para garrafa de náufrago

Queimão

— Hoje botei para reciclar centenas de números da The New Yorker, The Economist, El Paseante, Piauí, Revista de História e trastaria afim. Que tudo se converta em papel higiênico cult ou em papel higiênico kitsch.


 

Tempos desinteressantes

— Em seguida vão os livros. O ideal era ir queimando estante inteira, com método, como um detetive Pepe Carvalho de Belô. Em cada volume atirado às chamas, uma sentença contra o autor por seus pecados, pelo mal que fez, o mal de instilar na leitura uma abrangência, seja um sentimento de mundo, uma tentativa de compreensão inútil ou fajuta, seja um ideal assassino, seja uma interrogação à beleza. Há algo em mim e por aí a dizer que os livros se tornaram tóxicos, criadores de zumbis num mundo ultraveloz, império da vida pululante que tagarela, que produz o PIB, que se relaciona em clubes, bares, academias, que deseja e se expressa por enlaces virtuais.


 

Semeadura de tráfego

— Os antigos leitores de jornal hoje são curtidores, em essência, semeadores de tráfego na internet. Eis o critério moderno da informação, a teia sem escape.


 

Vida eterna

— A ciência e a informática sonham em superar a morte (criogenia, biotecnologia, cyberconsciência, o escambau). A revolução tecnológica remolda o ser. O que chamávamos espírito já era, é outra coisa em um mundo avesso ao pensamento crítico, à filosofia, à arte, em um mundo radical na higiene e na preservação do corpo. A própria ideia de vida e ser vai se convertendo, digitalizando-se, por assim dizer. Nossos pedaços deixados para trás não estão a boiar no passado, mas fixados nas nuvens, igualzinho ao que sou agora e agora e agora.


 

Tudo que é líquido… uma trampa

— Na modernidade líquida, tudo que é sólido se liquefaz; a realidade líquida então se reamolda sem parar. Acontece nas redes sociais uma trampa, uma armadilha, nos disse outro dia o sociólogo Zygmunt Bauman nesta entrevista ao El País (vai em espanhol mesmo, a versão em português do jornal foi resumida).

P – Las redes sociales han cambiado la forma en que la gente protesta, o la exigencia de transparencia. Usted es escéptico sobre ese “activismo de sofá” y subraya que Internet también nos adormece con entretenimiento barato. En vez de un instrumento revolucionario como las ven algunos, ¿las redes son el nuevo opio del pueblo?

R – La cuestión de la identidad ha sido transformada de algo que viene dado a una tarea: tú tienes que crear tu propia comunidad. Pero no se crea una comunidad, la tienes o no; lo que las redes sociales pueden crear es un sustituto. La diferencia entre la comunidad y la red es que tú perteneces a la comunidad pero la red te pertenece a ti. Puedes añadir amigos y puedes borrarlos, controlas a la gente con la que te relacionadas. La gente se siente un poco mejor porque la soledad es la gran amenaza en estos tiempos de individualización. Pero en las redes es tan fácil añadir amigos o borrarlos que no necesitas habilidades sociales. Estas las desarrollas cuando estás en la calle, o vas a tu centro de trabajo, y te encuentras con gente con la que tienes que tener una interacción razonable. Ahí tienes que enfrentarte a las dificultades, involucrarte en un diálogo. El papa Francisco, que es un gran hombre, al ser elegido dio su primera entrevista a Eugenio Scalfari, un periodista italiano que es un autoproclamado ateísta. Fue una señal: el diálogo real no es hablar con gente que piensa lo mismo que tú. Las redes sociales no enseñan a dialogar porque es tan fácil evitar la controversia… Mucha gente usa las redes sociales no para unir, no para ampliar sus horizontes, sino al contrario, para encerrarse en lo que llamo zonas de confort, donde el único sonido que oyen es el eco de su voz, donde lo único que ven son los reflejos de su propia cara. Las redes son muy útiles, dan servicios muy placenteros, pero son una trampa.


Bach

— Bach é quase um antídoto contra o veneno da solidão.


 

1 – *Outras notas de náufrago em garrafa de vinho branco.*

2 – *Uma versão destas notas foi publicada ontem e atualizada neste post.”

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