Duas notas domingueiras, de leve

 

babelia

Do Bananão tomado pelo marrom e
do magnífico artigo de Alberto Manguel sobre Shakespeare e Cervantes

Não, não é nenhuma tragédia, apenas a democracia a operar, desgraçadamente, aos trancos e barrancos.

Mas o que esperar de quem malbaratou a escolha popular e confundiu o poder democrático com um tipo peculiar de mandato revolucionário, com uma carta branca para açambarcar o Estado?

Não, o trono não está manchado de sangue. Em nossa tragicomédia, versos como “the multitudinous seas incarnadine / Making the green one red” teriam outra paráfrase no português, algo como “Esta merda multitudinosa / O Bananão tomado pelo marrom”.

O trono foi destroçado pela ruína, pela lassidão moral e pela pura e simples incapacidade de governar.

Prefiro reler o Macbeth neste dia radioso. Haja protetor solar!

— — —

Encantado com a concisão, profundidade, contundência do artigo de Alberto Manguel do Babelia de ontem sobre os 400 anos das mortes de Shakespeare e Cervantes.

Já disse por aí que nosso jornalismo cultural regrediu décadas, a despeito da internet e por causa da internet.

Não adianta. Não há quem faça o papel de um grande jornal (ou seu sucedâneo em outros meios) de trabalhar a síntese, de atuar como polo magnético capaz de alinhar forças da cultura, de buscar e encontrar quem saiba pensar e escrever com erudição, clareza e se possível, estilo, para um público não acadêmico, e, óbvio,  poder pagar por isso.

Traduzo um pequeno trecho  do texto de Manguel, sobre Shakespeare, com licença poética na citação do “Macbeth”.

“A língua de Shakespeare chegara a seu ponto mais alto. Confluência de línguas germânicas e latinas, o riquíssimo vocabulário do inglês do século XVI permitiu a Shakespeare uma extensão sonora e uma profundidade epistemológica assombrosas. Quando Macbeth declara que sua mão ensanguentada “tingiria de carmim o mar multitudinário, convertendo o verde em vermelho (“the multitudinous seas incarnadine / Making the green one red”), os epítetos lentos e multissilábicos do latim são contrapostos aos saxônicos, bruscos e contundentes, ressaltando a brutalidade do ato.”

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