“Wallander” (o grande final) e um poema de Tranströmer

Wallander BBC
Foto: Cortesia BBC One

 

Wallander é um melancólico, um isolado no mundo, um homem quase mudo, divorciado,
a viver longe da filha. Um policial que quase se mata ao tirar a vida de um criminoso.

Uma paisagem gelada e cinzenta, árvores velhas, um lago com ondulações de brisa; acordes de teclado em fundo incidental ressaltam a desolação ambiente.

Um velho de cenho fechado, perplexo, binóculos em punho, abandona sua casa de campo a passos firmes.

Ouvimos então a voz de sir Kenneth Branagh dizer um poema (ver abaixo) do Prêmio Nobel (2011) sueco Tomas Tranströmer, traduzido apenas ocasionalmente no Brasil, em publicações isoladas, até onde sei.

Começa “The Troubled Man”.

Vejo na Netflix o último episódio (assinantes encontram aqui) da quarta e última temporada de “Wallander”, a série britânica estrelada por Branagh baseada em histórias  de Kurt Wallander, policial criado por Henning Mankel (1948-2015) e desenvolvido numa série de livros noir.

Alguns dos títulos estão traduzidos no Brasil pela Companhia das Letras.

Wallander é um melancólico, um isolado no mundo, um ser quase mudo, um homem divorciado à beira do abismo, a viver longe da filha. Um policial que se mata ao tirar a vida de um criminoso.

Ele também é sensível e inteligente.

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Não conheço a série sueca correspondente, mas apenas um ator com os recursos de Branagh pode entrar na pele de personagem tão sutil, a um tempo plano e complexo.

Eis um caso no qual a adaptação televisiva transpõe a obra literária com grandeza.

A série é inesquecível, um dos melhores produtos televisivos que pude assistir.

Rodados na Suécia, principalmente na cidade portuária de Ystad, cenário original dos livros de Mankel, os filmes da série, com episódios de hora e meia de duração, causam sensações que oscilam da beleza reverberada à dor existencial, conforme a estação do ano e conforme o roteiro.

A alternância de tomadas é sempre refrescante. Respiramos o ar limpo e gelado, nos expandimos em estradas abertas, repousamos à beira-mar ou à volta de lagos que espelham bosques centenares.

Que o leitor do blog não perca a série.

Melhor nada dizer sobre o final e o destino de Wallander, a não ser, talvez, que a integridade artística da série e o desempenho de Branagh se expõem com a luz ávida do poema que segue.

Eis uma versão em inglês do magnífico poema de Tomas Tranströmer.

A tradução mais ou menos literal é mais ou menos igual à da legendagem feita pela Netflix.

 

The Half-Finished Heaven

Despondency breaks off its course.
Anguish breaks off its course.
The vulture breaks off its flight.

[O desespero rompe seu curso. A angústia rompe seu curso. O abutre interrompe seu voo.]

The eager light streams out,
even the ghosts take a draught.

[A luz ávida paira no ar, até mesmo os fantasma respiram.]

And our paintings see daylight,
our red beasts of the ice-age studios.

[E as nossas pinturas veem a luz do dia, nossas bestas escarlates dos estúdios da era do glacial.]

Everything begins to look around.
We walk in the sun in hundreds.

[Tudo começa a enxergar. Andamos ao sol às centenas.]

Each man is a half-open door
leading to a room for everyone.

[Cada homem é uma porta semiaberta que leva a um quarto comum.]

The endless ground under us.

[O chão infinito sobre nós.]

The water is shining among the trees.

[A água brilhando entre as árvores.]

The lake is a window into the earth.

[O lago é uma janela para a Terra.]

De Tomas Tranströmer, New Collected Poems,
 translated by Robin Fulton (Bloodaxe Books, 1997/2011)

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4 comentários em ““Wallander” (o grande final) e um poema de Tranströmer

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