A carta da doutora Suzana aos brasileiros

Millôr

Grite “meritocracia” numa assembleia de professores
é você será simbolicamente linchado

A nota de ontem deste jornal sobre a ida da neurocientista Suzana Herculano-Houzel para uma universidade americana [“Bié-bié, ciência brasileira”] pede um rabicho.

O artigo de despedida da doutora na “Piauí” desde mês [“Bye-Bye, Brasil”, link para assinantes] deve ser lido com uma carta aos brasileiros.

Uma carta endereçada especialmente a eleitores, pagadores de impostos e estudantes.

É um bye-bye elegante, sempre composto e atencioso com as instituições que a ajudaram a fazer ciência no Brasil.

Mas, ao falar dos motivos de sua decisão de ir embora, com suavidade e clareza Suzana explica porque estamos encalacrados.

O mote á nossa condenação ao atraso.

O sistema de isonomia que regula a remuneração e o funcionamento das universidades no Brasil trava qualquer possibilidade de entrarmos um dia para o primeiro mundo da ciência.

O atual sistema, não há quem não saiba disso, será defendido até a morte pela corporação de professores, com lastro ideológico no PT e outras agremiações de esquerda.

Grite “meritocracia” numa assembleia de professores é você será simbolicamente linchado.

“Não importa o quanto um cientista produza, o quanto se esforce, quanto financiamento ou reconhecimento público traga para a universidade – o salário será sempre o mesmo dos colegas que fazem o mínimo necessário para não chamar atenção”, diz Suzana.

É mesmo de se lembrar a frase de Millôr decalcada numa charge de Loredano que ilustra o texto da “Piauí”: “Brasil, país do futuro. Sempre”.

Nos EUA, o pesquisador que não se mexe, não publica e não consegue financiar seu trabalho, pode tirar o cavalo da chuva.

Estabilidade e aposentaria premiam quem alcança a excelência.

Literalmente sem espaço no ICB da UFRJ — obrigada a fazer caber em 3×8 m² bancadas, computadores, equipamentos e seu escritório pessoal —, depois de pagar doutorandos do próprio bolso e de aturar outros tantos desaforos, ela disse basta, estou fora.

“Harvard só se interessa por pessoas que estão mudando o mundo — como você”, lhe disseram em uma entrevista à qual foi levada à universidade, como convidada, “voando business, veja você”, ironiza.

Além da pesquisa sobre o número de neurônios que o cérebro humano comporta, que estabeleceu um novo marco na neurociência, Suzana e o colega Bruno Mota emplacaram na “Science”, a principal referência científica internacional, um artigo, como ela diz, 100% brasileiro.

Após dez anos de trabalho, os dois resolveram “uma questão antiga” da neurociência, o que faz “o córtex cerebral, a parte mais externa do cérebro, se dobrar” [“O Cru, o Cozido e o Cérebro”, link para assinantes.]

Eis o que acabamos de perder. Eis o que veremos no futuro. Sempre.

 

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