A Belchior o que é dele nos 40 anos de “Alucinação”

Belchior tem pelo menos 20 canções em sua obra cuja força poética
e vitalidade superam muito do que seus contemporâneos fizeram no mesmo período

alucinação 1

Só há pouco tempo Belchior deixou de ser tratado como figura pitoresca e decadente.

O caso do seu desaparecimento, ainda mal explicado, é outra história, que deixo para os “Fantásticos” da vida.

Mas os 40 anos do LP “Alucinação” — lançado a 10 de maio de 1976 — ainda não receberam o memorial e a análise crítica que mereciam.

O “Estadão”, decadente como toda a imprensa cultural brasileira, deu ontem duas páginas sobre o disco e a vida do cantor.

Páginas de uma mediocridade lancinante, perto do que o jornal já fez e foi.

No texto principal, assinado por Renato Vieira, não se diz nada do valor artístico da obra.

“Alucinação” se tornou um “clássico instantâneo que atravessou gerações”, lemos na matéria, entre outras leguminosas.

Executivos da gravadora Phonogram recearam que “o público poderia não entender aquele som misturando Bob Dylan e elementos regionais” — o que não diz nada sobre o disco.

Belchior tem pelo menos 20 canções em sua obra cuja força poética e vitalidade superam muito do que seus contemporâneos fizeram no mesmo período.

alucinação 2Sinto mais frescor em “Alucinação” — apenas para situar o que digo no primeiro time da MPB — do que em “Meus Caros Amigos”, de Chico Buarque, ou no álbum duplo “Doces Bárbaros”, também lançados em 1976.

Poucos artistas tinham o preparo intelectual e o talento de Belchior — estudante de filosofia e humanidades e de quatro anos de medicina, em Fortaleza — para dar forma de canção popular ao fundo cultural da época e, ainda, emitir luz própria na era constelar da MPB.

Em “Velha Roupa Colorida” — para pegar apenas a segunda faixa de “Alucinação”, depois da linda obra-prima que é “Apenas um Rapaz Latino-Americano” —, Belchior tece com delicadeza citações dos Beatles, de Bob Dylan e do “Corvo” (“The Raven”) de Edgar Allan Poe na letra grave sobre o envelhecimento precoce da geração hippie.

Havia uma carga incomum de sinceridade e verdade em suas músicas que captavam os desejos do jovem classe média das metrópoles — da perspectiva de quem vivia no interior do país e na periferia de Rio e São Paulo — ou a desilusão com ideais da contracultura.

Renato Vieira diz que se Belchior estivesse hoje na praça poderia entrar na onda de Patti Smith e Titãs, nos exemplos dele, e regravar “Alucinação” 40 anos depois, com novos arranjos.

Seria excelente ideia. O LP de 1976 foi feito às pressas, sem empenho da gravadora. Alguns arranjos são indignos das canções.

A melhor maneira que conheço de voltar sempre à música Belchior é tocar um disco fabuloso, que até hoje me parece subestimado e desconhecido.

“Um Concerto a Palo Seco”, CD de Belchior acompanhado por Gilvan de Oliveira, de 1999, lançado pela Camerati — e relançado em 2006 como “Acústico”, com duas faixas extras — nem sequer consta da discografia do artista no “Dicionário Cravo Albin da Música Brasileira“.

Na capa, revejo com prazer o retrato do compositor a carvão feito por Fernando Fiúza.

Gilvan, violonista refinado, de toque clássico, imprimiu a mesma linhagem harmônica às 12 canções do CD, gravado no estúdio Bemol, em Belo Horizonte.

O resultado é um som cristalino e potente, ao mesmo tempo de uma cadência sensual e melancólica. Equiparo seu páthos a um lied de Schumann.

 

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2 comentários sobre “A Belchior o que é dele nos 40 anos de “Alucinação”

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