Volta, Dori. Alivia esta barra pesada

Depois de 23 anos nos EUA, Dori Caymmi pensa em voltar a viver no Brasil. Tem um disco novo com músicas para uma peça de Mario Lago que havia sido censurada. O tema é a Revolta dos Alfaiates e o enforcamento dos líderes do movimento, em Salvador, no ano de 1799.

A notícia é do “Estadão”.

Que brisa fresca sopra esta manhã quando leio a respeito de Dori na atmosfera rarefeita do debate sobre o MinC.

O país vive uma crise criativa que é mais severa e profunda que a da política. O mal-estar que provoca é ainda mais opressivo.

Mas a burocracia, o interesse vil da militância política e o grande interesse da pecúnia cultural convertem o país — sem a menor reação crítica na imprensa — em uma imensa e tediosa paróquia.

Dori Caymmi não tem nada a ver com isso. Sua causa é a verdadeira arte, a música elaborada com refinamento e autenticidade.

Tenho o CD “Contemporâneos”, de 2002, na conta da melhor suma, por suas mãos, da grandeza da música popular brasileira desde sempre.

Lá me esperam, ao menos uma vez por mês, doze faixas arranjadas para destacar o violão de Dori com timbres e harmonias que se reconhecem como uma fita de DNA da progênie de Dorival.

Caetano, Chico, Danilo e Nana Caymmi, Edu Lobo e Renato Braz cantam no disco com Dori.

Sua audição inspira uma hora de júbilo e sossego.

A faixa inicial, com melhor versão já feita de “Coisas do Mundo, Minha Nega”, de Paulinho da Viola, já impõe a ideia geral do artista, no nível do sublime.

Segue-se uma seleção de alta qualidade que inclui Chico (“Januária”), Caetano (“Sampa”), Milton e Brant (“Ponta de Areia”) e Chico e Edu Lobo (“Choro Bandito”).

Hoje o tenho à mão no Spotify, mas prefiro o CD.

Quando perdi minha primeira cópia, dos tempos do “Magazine”, há alguns anos, tive que escarafunchar a internet até encontrar uma última unidade disponível em uma loja de Seattle.

Eis um trecho de sua boa conversa no “Estadão”  com o jornalista Júlio Maria.

Pergunta – Nana diz que você foi a pessoas que a acolheu…”
Dori Caymmi — Ela sofreu. Papai tinha um lado muito machista, preferia que ninguém fosse artista em casa. Quando ela voltou da Venezuela e se separou, meus pais acharam um absurdo. Para ela, foi um sofrimento muito grande. Nelson Motta queria a Elis Regina cantando Saveiros (de Dori e Motta) e eu queria a Nana. E eu ganhei. Mas ela sofreu, eu coloquei o tom muito alto e ela teve de esganiçar muito. Nana é a minha cantora favorita. Minhas quatro favoritas são Nana, Bethânia, Elis e Clara Nunes. A Gal tem um estilo um pouco mais afetado, mas esse outro pessoal vem com o útero nas mãos. Sobretudo a Nana e a Bethânia.”

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