Emojis são mesmo uma “evolução da linguagem”?

Como o pensamento crítico, o exercício inteligente da autoironia, a percepção da linguagem poética e a aptidão para alguém entender e elaborar um raciocínio que desborde o trivial, como tudo isso pode ser compatível com a “evolução” que os emojis representariam?

emojis

Aprendo que “emojis” significam duas palavras articuladas em japonês: imagem e personagem.

Nossas vidas estão cercadas por essas figurinhas impostas pela tecnologia e incorporadas ao cotidiano como uma das maravilhas da era dos dispositivos eletrônicos.

Os emojis apareceram nos telefones celulares nos anos 1990 para facilitar a comunicação humana.

Suponho que, em um miniteclado, utilizar um menu de ícones é infinitamente mais simples que elaborar um frase inteira que faça sentido.

Se assim era no início, na pré-história de 25 anos atrás, os bichinhos ganharam vida e invadiram nossas mentes.

Numa bela amostra da celebração acrítica, acovardada e basbaque em que se converteu o jornalismo cultural no país, Sylvia Colombo, na “Folha”, tenta impor o assunto como um processo de “evolução da linguagem” — ainda que os emojis não sejam considerados “um idioma”, mas “um importante elemento de para-linguagem”.

O longo texto para os padrões atuais vai assim até os dois parágrafos finais,a encobrir o desserviço jornalístico de uma reportagem de cultura incapaz de contrapor ideias e estimular a inteligência e a vontade de saber do leitor:

“Entre intelectuais, porém, também há [e o leitor da “Ilustrada” não é apresentando a nenhum desses reaças] os que se recusam a discutir os emojis a sério, vendo nas mensagens de texto um empobrecimento da linguagem”.

“‘Só posso dizer a esses que têm preconceito com emojis que eles não estão entendendo bem como a comunicação está evoluindo’, resume Evans [o professor de linguística britânico da Universidade de Bangor, Vyvyan Evans].”

Antes disso, a matéria expõe longamente a importância das figurinhas para o mundo contemporâneo, a luta para incorporar a causa multicultural e feminista aos cardápios de bonequinhos — existem hoje mais de 800 mil tipos nas novas versões de smartphones — e algumas contendas judiciais travadas nos EUA, onde teria havido ameaças homicidas e terroristas por meio de emojis.

Sabemos, também, que “os emojis já são usados por adultos em e-mails para falar de negócios, em textos de ‘chats’ sexuais, nas artes visuais e até mesmo na literatura. Uma versão de ‘Moby Dick’, o clássico de Herman Melville, foi ‘traduzida’ para a linguagem emoji e pode ser comprada online.” (Grifo do jornal).

Que beleza! — ouço exclamar o filólogo contemporâneo Milton Leite.

Eu me pergunto o que a “evolução da linguagem” — para os idiotas de todos os tempos que creem que a história segue uma linha reta rumo ao paraíso — ou a “evolução da comunicação” com os emojis representam para as pessoas, de forma substantiva e essencial.

Em uma época de “youtubers”, em que os jovens parecem ter perdido de vez a noção de ironia, de crise da literatura adulta e do hábito de ler livros sérios, em que as personalidades se constroem sem estagiar pelas estepes, desfiladeiros e planuras do espírito que constituem os romances, será que é mesmo evolutivo um recurso com frequência limitado a si mesmo, ou seja, ao campo semântico de figurinhas móveis?

Como o pensamento crítico, o exercício inteligente da autoironia, a percepção da linguagem poética e a aptidão para alguém entender e elaborar um raciocínio que desborde o trivial, como tudo isso pode ser compatível com a “evolução” que os emojis representariam?

Uma comunicação universal fundada na para-linguagem dos emojis não estaria justamente na direção contrária, ou seja, não seria antes um embuste, uma limitação, um abastardamento da inteligência que a tecnologia impõe à cultura humana?

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3 comentários em “Emojis são mesmo uma “evolução da linguagem”?

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