“Piauí” digital na “Folha”

Ou: por que não dá para passar sem a revista de João Moreira Salles

 
Desde ontem, o site da “Piauí” tem endereço novo; trocou o “Estadão” pela “Folha”.

Ganha vários pontos a “Folha” digital e o “Estadão” perde ainda mais.

Como crítico do jornalismo, tenho marcado a revista sob pressão, com a isenção de um espectador com cadeira cativa na primeira fila.

Acompanho desde o primeiro número a aventura de João Moreira Salles — que se aproxima de seu 10º aniversário — para emplacar no Brasil uma publicação inspirada na “The New Yorker” — filé intelectual da elite americana.

“Piauí” se mantém sem concorrência e, de certa forma, prega no deserto a que chegamos com a crise da imprensa e do jornalismo cultural, onde não há quem não tenha entregado a rapadura ao pop e ao gosto juvenil.

É coisa de um artista visionário e obra de um empresário disposto e capaz de remar com as contas no vermelho o tempo que for preciso. É do mesmo grupo a ótima revista de ensaios trimestral “Serrote” e a revista de fotografia “Zum”.

Como na publicação na qual se mira, na “Piauí” repórteres têm vários meses para se dedicar a uma pauta, paga-se bem (ou já não bem), valoriza-se a alta cultura, há espaço para poesia e a não ficção, para o cartoon e o humor e seus editores buscam se afinar com leitores bem informados e que não se sentem satisfeito com o que não é superior à média.

Como na “The New Yorker”, mais especificamente a seção “Esquina” (que já foi seu ponto alto) — inspirada no “The Talk of the Town” (algo como “o assunto do dia”) — mantém os textos curtos de alta qualidade abrindo cada edição.

A revista decai com frequência e se desequilibra na tentativa de mostrar-se equidistante — uma missão impossível, como se pode constatar ao ler sua divertida seção de cartas — na política radicalizada do país nos últimos tempos, com a catástrofe do lulopetismo. Em muitas edições, traz como peça de resistência um artigo licenciado e traduzido, claro, da “The New Yorker”.

Mas é o que temos de melhor.

Em seus 116 números saíram grandes, reveladoras e dedicadas reportagens que podem entrar para uma antologia da revista — e certamente haverá algum livro no prelo — como a “A Vitória das Moscas”, de Rafael Cariello, sobre a Operação Mãos Limas, na revista deste mês, comentada pelo jornal e aberta no novo site. Se você não tem o hábito de lê-la ou ainda não leu, aproveite.

Quem não cedeu à era da trivialidade da civilização do espetáculo, à infantilização das indústria cultural, à vulgaridade dos realities shows, ao lixo de celebridades, não trocou a literatura pelo aprendizado de comida e vinho, enfim, quem gosta de ler o que é sério e tem medula e osso e dá valor às nossas pobres cacholas, não pode passar sem ela.

Anúncios

2 comentários em ““Piauí” digital na “Folha”

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s