Um Camões para Raduan

O jornal brinda a mais este reconhecimento
à grande obra do autor de “Lavoura Arcaica”

chico e raduan no pa
Chico Buarque e Raduan Nassar, provavelmente no Palácio das Artes, em Belo Horizonte. Foto: Blog da Companhia das Letras

O trecho a seguir é do jornal português “Público” e traz a justificativa do júri ao conceder ao escritor brasileiro Raduan Nassar o Prêmio Camões 2016. O laurel traz a glória e um cheque de 100 mil euros.

“Através da ficção, o autor revela, no universo da sua obra, a complexidade das relações humanas em planos dificilmente acessíveis a outros modos do discurso”, justificou o júri, acrescentando que “muitas vezes essa revelação é agreste e incomoda, e não é raro que aborde temas considerados tabu”. O júri realçou ainda “o uso rigoroso de uma linguagem cuja plasticidade se imprime em diferentes registros discursivos verificáveis numa obra que privilegia a densidade acima da extensão”.

“A grandeza de Raduan Nassar é tal que não carece do autor ou de ninguém como relações públicas —algo difícil de conceber hoje”, diz Estevão Azevedo na “Folha”, um escritor e acadêmico especialista na obra do autor. Um pouco antes, Azevedo afirma que Raduan é o maior escritor brasileiro vivo e isso “tem pouca chance de controvérsia”.

Vi Raduan de perto uma única vez, acompanhado da irmã (Edna Marta, saudade), ele ao lado de Chico Buarque, num Palácio das Artes com 1700 pessoas, em Belo Horizonte. Era um evento “Sempre um Papo”, de Afonso Borges. Chico lia trechos de “Lavoura Arcaica”, Raduan do “Estorvo”.  Afonso lembra muito este encontro, que teve momentos de risadas coletivas, provocadas pelo autor de “Menina a Caminho”.

Raduan, 80 anos, é um tímido doentio, ou um homem muito simples, o que pode dar no mesmo. Li, não me lembro onde e cito isso num dos poemas do meu “Moral das Horas”, o escritor dizer que o cheiro do alho que se despega do azeite quente valia mais que qualquer romance. Ele também comparou a criação literária à criação de galinhas, lembra Estevão Azevedo.

O blog da Companhia das Letras reúne aqui textos sobre o autor.

Apenas para registrar no jornal que o Camões veio reconhecer uma grande obra, por certo entre as mais fortes da nossa literatura. “Lavoura Arcaica” — verdadeiramente seu grande livro, a que o original e profundo “Um Copo de Cólera” não faz sombra— é um fenômeno de concisão e contundência da linguagem.

Para ter o gosto, volto a um trechinho, que busco no site Vereda da Língua, pois desgraçadamente não encontro meu querido exemplar para fazer esta nota:

“O tempo é o maior tesouro de que um homem pode dispor; embora inconsumível, o tempo é o nosso melhor alimento; sem medida que o conheça, o tempo é, contudo, nosso bem de maior grandeza: não tem começo, não tem fim; é um pomo exótico que não pode ser repartido, podendo, entretanto, prover a todo mundo; onipresente, o tempo está em tudo (…) o equilíbrio da vida depende essencialmente deste bem supremo, e quem souber com acerto a quantidade de vagar, ou a de espera, que se deve pôr nas coisas, não corre nunca o risco, ao buscar por elas, de defrontar-se com o que não é; (… ) Porque só a justa medida do tempo dá a justa natureza das coisas.”

 

 

 

 

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