A Boa Viagem está mais feia do que nunca

Mais uma vez, com ainda mais intensidade, experimentei
o mal-estar estético de olhar para a Igreja de Nossa Senhora da Boa Viagem,
ao subir Timbiras em direção à Rua da Bahia.

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A Igreja Matriz de Nossa Senhora da Boa Viagem em 1894. Fonte: APCBH Acervo CCNC – e a Boa Viagem atual

 
Contei da minha caminhada ao Centro de Belo Horizonte na última sexta-feira e da madalena que não possuí inteira. Mas faltou um registro.

Mais uma vez, com ainda mais intensidade, experimentei o mal-estar estético de olhar para a Igreja de Nossa Senhora da Boa Viagem, ao subir Timbiras em direção à Rua da Bahia.

Como é feia aquela arquitetura mal-ajambrada, malproporcionada, que jamais poderia se integrar ao recorte da cidade em que a enfiaram.

Não é que tenha mudado de opinião e gosto sobre a construção, não, já não lhe achava a menor graças, mas foi sem dúvida Pedro Nava quem me ensinou a detestá-la, incluindo um motivo pretérito, de um passado que não vivi.

No “Beira-Mar”, quarto volume das Memórias, Nava está a recuperar seu tempo perdido nas imediações do Largo da Igreja, e conta que, àquela época, existiam ali duas igrejas da Boa Viagem, “a velha, a do Curral, que era linda e a nova, gótica, que ia se mostrando cada dia mais horrenda e falsificada”.

O autor continua:

“Não sei de quem foi a ideia de substituir o monumento do século XVIII pelo monstrengo que lá está até hoje. (…) Vi com meus olhos, esses olhos que a terra há de comer, o velho templo já sem telhado e seus arquivos postos fora da sacristia (…).

Logo à frente, Nava tece impressões sobre “o verdadeiro gótico” que viu “em Saint Michel, Chartres, Amiens, a Notre-Dame, a Sainte-Chapelle em França (…), antes de deixar-se ferir pela saudade:

“(…) Onde estarão? os restos virados da minha antiga Boa Viagem… A Boa Viagem das festas de barraquinhas e do Maio de Maria… A Boa Viagem da valha gameleira da esquina de Sergipe e Aimorés onde dum côncavo do tronco nascera uma palmeira…”

Tempos depois de me embrenhar nas Memórias, vim a conhecer o poema de
Afonso Arinos de Melo Franco, seu grande amigo, reunido por Manuel Bandeira na coletânea “Bissextos Contemporâneos” (Nova Fronteira, 1996), que conta, em minúcias, a história dessa igreja desinfeliz.

NOSSA SENHORA DA BOA VIAGEM

A igreja de Nossa Senhora da Boa Viagem
(Que lindo nome para um barco a vela!)
Foi construída em 1765
Por ordem do capitão-mor das Minas
Para os povos de Curral del-Rei.
Nessa igrejinha de janelas verdes
Eu me batizei.

No mês de Maria enfeitava-se a nave com folhas verdes
E as meninas cantavam em coro:
“No céu, no céu, com a minha mãe estarei”.

No ano de 1925 o sr. diretor de obras
Deitou abaixo a Matriz da Boa Viagem
(Que lindo nome para um cemitério!)
E construiu no lugar dela
Uma catedral gótica, último modelo.

Eu achei que foi bobagem,
Mas o povo de Minas disse que era progresso

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