Tentando entender o xeque de Rossi

 

Xeque-mate

Clóvis Rossi, astro do jornalismo brasileiro, por todos os méritos, a quem sempre respeitei e respeitarei, publica hoje na Folha o artigo Neoliberalismo em xeque.

A jogada decisiva a que o comentário se refere não fica muito clara.

Este jornal vai relê-la em público (o texto está em azul) e comentar brevemente certas passagens (em laranja), na tentativa de aclarar os movimentos que levaram ao referido xeque-mate.

“Acaba de sair uma crítica ao neoliberalismo, modelo hegemônico no planeta e em vias de ser reimplantado no Brasil [A condução da economia nos governos Dilma, caracterizada por forte intervenção nos mercados, deu no que deu, a pior recessão em 80 anos, 11,4 milhões de desempregados, um rombo astronômico nas contas públicas e, também por outros fatores, uma abissal crise política. Faz sentido, para o leitor comum, esperar que o texto vá ter isso em conta, bem como as alternativas colocadas para o governo interino, ao considerar seu tema. Não vai, não.]. A crítica não veio da esquerda, mas do Fundo Monetário Internacional —o guardião mais ou menos inflexível da ortodoxia.

O texto é assinado por três pesquisadores do Fundo, Jonathan D. Ostry, Prakash Loungani e Davide Furceri, que não devem ser confundidos com os funcionários da instituição que andam pelo mundo impondo o cumprimento das rígidas regras que o trio agora critica. [Entendemos a ressalva feita no final do parágrafo anterior —a crítica não é da sinistra, mas do FMI, farol da ortodoxia. Mas devemos entender, também, que os três pesquisadores não representam exatamente essa mesma ortodoxia. Zera a reza.]

O documento tem a grande vantagem de definir o que considera neoliberalismo, um termo que virou anátema porque seus críticos (em geral à esquerda) tratam-no como algo pior que o vírus da zika, mas seus defensores evitam definir-se como neoliberais, sei lá por quê [Eis uma boa questão. Mas não se deveria esquecer que a imprensa tem um papel importante neste, digamos, estado de indigência intelectual sobre o tema. Ou alguns jornalistas se acovardam —diante dos críticos da esquerda— e se omitem quando o liberalismo ou o “neoliberalismo” são confundidos com gafanhotos bíblicos, ou eles próprios comungam do messianismo estatal na regulação econômica, como, e não é de hoje, parece ser o caso, ainda que light, do colunista.]

Eis a definição: “A agenda neoliberal —rótulo usado mais por críticos do que pelos arquitetos de tais políticas [Talvez este seja um motivo razoável para os defensores dessa agenda evitarem se definir como “neoliberais”.] — assenta-se em duas bases. A primeira é mais concorrência —conseguida pela desregulamentação e a abertura dos mercados domésticos, incluindo os mercados financeiros, à concorrência externa.

A segunda é um papel menor para o Estado, obtido por meio de privatizações e limites na capacidade dos governos de incorrer em déficits fiscais e em acumular dívida.”

Aditya Chakrabortty, comentarista econômico sênior do “Guardian”, saudou o artigo como o prenúncio da morte do neoliberalismo [Este mísero jornal adoraria saber qual o advento brotará na ordem econômica mundial sobre solo onde o “neoliberalismo” for sepultado.]

Exagero. Os pesquisadores do FMI até ressaltam qualidades em seu objeto de pesquisa: “A expansão do comércio global tirou milhões da pobreza abjeta. Investimento estrangeiro direto foi, frequentemente, uma maneira de transferir tecnologia e know-how para economias em desenvolvimento. A privatização de empresas estatais levou, em muitos casos, a uma provisão mais eficiente de serviços e reduziu a carga fiscal dos governos” [O leitor que chegou até aqui pode considerar que essas conquistas ultrapassam tudo que, digamos, em 100 anos, foi alcançado por economias planificadas pela mão de ferro estatal.]

A crítica se centra em aspecto que interessa diretamente ao Brasil do presente: “Em vez de entregar crescimento, algumas políticas neoliberais aumentaram a desigualdade, ao mesmo tempo em que prejudicavam uma expansão duradoura” [Olha aqui seu Rossi: Concordamos que a diminuição da desigualdade no país nos últimos 13 anos não passa, na essência, de propaganda do lulopetismo, certo? Vamos reler duas de suas excelentes colunas publicadas nos últimos 30 dias e que este jornal não deixou de registrar? Aqui estão: O mito da queda da desigualdade e Legado do PT: 73.3237.179 pobres.]

Acrescenta Chakrabortty, do “Guardian”: “[A agenda neolibeal] causa ‘crashes’ épicos que deixam para trás destroços humanos e custam bilhões para limpar” [Em geral, identifica-se, com grande imprecisão, a “agenda neoliberal” à era FHC. Creio que o anátema do inglês dificilmente poderia se aplicar ao exemplo brasileiro.]

É uma óbvia alusão à crise de 2008/09, atribuída em grande medida à desregulamentação excessiva, pilar do neoliberalismo. O baixo crescimento é, aliás, tema principal do Panorama Econômico Global, divulgado nesta quarta-feira (1º) por um dos templos neoliberais, a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico):

“A economia global está presa em uma armadilha de baixo crescimento que requer o uso mais coordenado e abrangente de políticas fiscal, monetária e estrutural para passar a um patamar de crescimento mais alto.” [Sim, mas o alerta da OCDE está longe de significar, ainda que remotamente, um flerte com uma volta, ainda que recauchutada, da “nova matriz” praticada por Dilma e o ministro Guido Mantega. A situação brasileira nada tem a ver com os problemas enfrentados pelo Japão ou pela União Europeia, atualmente. É muito mais desesperadora.]

Se essa observação vale para um mundo que está crescendo, pouco, mas crescendo, vale muito mais para o Brasil, atado a uma armadilha muito mais daninha: a recessão [Não vale muito mais, não. Por quê? Entre as grandes economias mundiais, o Brasil é a mais encalacrada. Dificilmente, a conclusão da OCDE servirá para alguma coisa neste momento nas mãos, praticamente atadas, do ministro da Fazenda.]

Conclusão: o pacote Meirelles até agora anunciado pode ser necessário, mas é claramente insuficiente até na visão de templos neoliberais [A conclusão fica mal em relação ao enunciado, mesmo entrando nisso a boa vontade do leitor. O Brasil está afundado em dívida pública fora de controle, inflação muito alta e recessão. Os mais pobres sofreram horrores com a hiperinflação em décadas recentes, e isso não deveria nunca ser desprezado. A prodigalidade no gasto público, como se vê agora, torna-se o pesadelo das famílias assalariadas.]

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2 comentários sobre “Tentando entender o xeque de Rossi

  1. Siúves, da mesma forma que você, simpatizo com o Clóvis Rossi e da mesma forma reconheço que ele não consegue se livrar inteiramente de velhos sonhos adolescentes. Embora seja capaz de críticas severas ao PT e à esquerda, seu coração teima em salvaguardar certas tentações comuns aos militantes de “la sinistra”.

    Tomo a liberdade de deixar aqui um convite para a leitura de um artigo que aborda bem os problemas de governos que embarcam na sugestão que Rossi parece endossar, de abrir as torneiras dos gastos públicos para tirar a economia do atoleiro:
    SE O SEU GURU XINGA A RESPONSABILIDADE FISCAL, PEÇA UM EMPRÉSTIMO PARA ELE.
    http://wp.me/p4alqY-qm

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