“Folha” dá tijolada na testa do leitor

Dupla do UOL consegue engastar Noel Rosa
e Dorival Caymmi no funk e no sertanejo
e filiá-los à “cultura do estupro” na música brasileira

tijolada

 

A reportagem, digamos assim, da Folha de S.Paulo desta sexta-feira —“Há 80 anos, mulher já levava tijolo na testa na música brasileira” — está para o jornalismo cultural digno do nome como Valesca Popozuda —citada no texto com a referência, sem aspas, de “pensadora contemporânea”— está para Sarah Vaughan.

O título da matéria, provável fruto da verve dum editor cheio de acne, é, além de besta, apelativo.

Como Pilatos no credo, Dorival Caymmi e Noel Rosa são metidos no meio duma conversa mole sobre o machismo no funk e no sertanejo.

As repórteres do UOL Carol Prado e Maria Clara Moreira ouviram vários MCs, homens e mulheres, sobre o problema do machismo no funk no interior da “cultura do estupro”, e é disso que a pauta trata.

Não se propôs abordar o machismo na tradição lírica da canção popular, o que poderia, claro, ser feito, com o cuidados de não se cometer o pecado mortal do anacronismo. Bola pra frente.

Eva Blay, socióloga uspiana e feminista aposentada, diz que certo tipo de música “exprime e ratifica” a mulher-objeto em nossa “cultura do estupro”.

Uma deputada petista baiana, Moema Gramacho, somos informados, é autora de um projeto de lei que quer impedir que o funk apologético ao estupro e músicas que “pregam” (sic) homofobia e racismo sejam beneficiados por incentivos públicos à cultura.

O leitor também passa a saber que o deputado Marcelo Freixo (PSOL-RJ) é autor de uma lei que “reconhece o funk como movimento cultural” e que o deputado federal Chico Alencar, do mesmo partido, quer impor a lei a todo o país.

Um gênero que dependa de lei, pensei, e ainda por cima de uma lei de autoria de Freixo, para ser reconhecido por seu valor cultural, não deve valer lá grande coisa.

E Caymmi e Noel, onde se entram na narrativa?

Entram para justificar o magnífico achado (e o título) da reportagem: a mulher é maltratada na música popular desde os tempos de Kafunga e mesmo antes.

Se trabalhassem direito, as moças descobririam uma verdadeira linhagem de letras e músicas que associam de alguma maneira em seus versos os vocábulos “mulher” e “pancada” ou “mulher” e “porrada”, e talvez conseguissem escrever reportagem original.

Mas alguém deve ter lhes soprado aos ouvidos os nomes de Caymmi e Noel, se não se safaram só com “dad” Google.

“Longe dos bailes”, diz o texto, logo depois de citar um verso do MC João (sobre alguém que vai voltar “com a xoxota ardendo”), “o que ferve é a discussão sobre o papel da arte em disseminar o machismo, debate que explodiu nas redes sociais após o estupro de uma adolescente de 16 anos por mais de 30 homens”.

A referência sobre o “papel da arte”, arte sem aspas, serve como gancho para sentar seus MCs, Rosa e Caymmi no mesmo sofá furado e anacrônico.

Bordejam uma estrofe de Noel, do samba “Mulher Indigesta”, de 1932, e com uma pirueta mortal caem nos pés da arte de Fernando e Sorocaba.

Os versos de Noel são estes: “Mas que mulher indigesta/ Merece um tijolo na testa”; já os da dupla sertaneja dizem: “As mina pira, pira / Toma tequila / Sobe na mesa / (…) Entra no clima / Tá fácil de pegar / Pra cima!”.

Segue-se uma canção das mais desconhecidas de Caymmi, em parceria com Antônio de Almeida, que elas desenterram e que está longe de representar a obra mestra criador das “Canções Praieiras”.

À Djamila Ribeiro, feminista e subsecretária de Direitos Humanos da Prefeitura de São Paulo, coube iluminar a discussão: “O fato de o funk ser explícito choca as pessoas, mas há músicas machistas consideradas bonitas por terem letras poetizadas. Depende muito de quem canta”.

É verdade, refleti, as paradas de sucesso atuais de fato não distinguem Wesley Safadão e MC Carol das bonitezas das canções de Rosa e Noel.

Noel e Caymmi foram, portanto, encastoados em meio do funk e do sertanejo —estrelando Valesca Popozuda (com a obra, no sentido escatológico da palavra, citada no texto: Vê se para de gracinha / Eu dou para quem quiser / Que a porra da boceta é minha”)— e filiados à “cultura do estupro” na música popular brasileira.

A Ilustrada da Folha poucas vezes foi capaz de uma proeza narrativa dessa envergadura.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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