Há verdade no “Vermelho Verdadeiro” de Tunga?

True ruge
“True Rouge”, obra de Tunga, Inhotim, MG. Foto: Divulgação.

 

Lendo o obituário de Tunga, na Folha de S.Paulo, me intrigou um comentário enviado pelo Twitter, exibido ao lado da página online, a se referir a certa crítica ideológica da obra True rouge (Vermelho verdadeiro), exposta permanentemente no Inhotim, em Minas Gerais. Segundo a leitora, a “instauração” teria sido tachada de “bolivariana”, “comunista” e tal.

Embatuquei. Só sei que nada sei do que em geral se classifica como arte contemporânea.

Estou com Ferreira Gullar, para quem, na ausência de uma linguagem consolidada pela tradição, como na pintura ou na escultura, tudo, em uma “instalação”, pode significar qualquer coisa, e não haveria como avaliar o fazer artístico, como referenciar o construtivo.

Tudo se torna poesia “trans” (Tunga era poeta assumido), inatingível pela crítica, a não ser pela típica linguagem inventada no meio que apenas no meio pode ser significada.

Acho, por falar nisso, certas instalações (ou “instaurações”, conforme Tunga) de Cildo Meireles, algumas no mesmo Inhotim, nada mais que brincadeiras de crianças endinheiradas e sofisticadas; despertam em mim apenas aquela espécie de tédio sorridente e reverente, que é a pior espécie de tédio.

Mas sempre tive respeito e admiração pelo trabalho de Tunga. Por várias vezes, me pus a rodar, enfeitiçado, em torno do seu True Rouge.

Jamais poderia ver proselitismos ideológicos naquela teia complexa de cordas, volumes, vidros, contrapesos e o sanguíneo da tinta vermelha a despertar sensações que vão do prazer ao corte, da intimidade devassada ao desespero, do nada à criatura e ao nada, novamente. Falo apenas de sensações, não esboço crítica alguma.

Silas Martí, na Folha de S.Paulo, tangencia (em azul) a obra , mas pouco diz.

“True Rouge”, de 1997, uma de suas obras mais famosas agora no Instituto Inhotim, nos arredores de Belo Horizonte, é uma dessas peças içadas, com frascos e ampolas de vidro cheias de um líquido vermelho, como se fosse sangue.

Nos últimos anos, depois de cicatrizadas as feridas e tendo sobrado só os ossos, talvez um indício do que ele chamava de um “reencontro com o arcaico”, Tunga foi abrindo mais o traço de seus desenhos e ampliando sua paleta de cores para incluir também tons mais solares, talvez, como dizia, lembrando sua vida à beira do mar.

Se era para ler ideologicamente o que a obra expressa, quanto a ideais coletivistas, com tanta literalidade no vermelho que se esvai das ampolas e mancha o chão, opinaria o oposto ao que alude o comentário do Twitter. Tunga teria, dessa forma, reduzido esses ideais, ou melhor, o que se produziu sob a inspiração desses ideais, ao signo do absurdo. Mas isso, sim, já é outra viagem, como cantaria nosso Belchior.

Quem quiser que aponte sua verdade sobre o Vermelho verdadeiro que Tunga nos deixou. A minha verdade vermelha é esta:

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