“Piauí” e os golpistas da sala de jantar

A Piauí mandou fazer um luminoso punhal
para matar os golpistas da sala de jantar, e o público de rir, mas fracassou

Piauí e tropicália

Assolado pela gripe, passei a quarta-feira entre cobertores e antitérmicos, e entre a transmissão do julgamento da presidente afastada, Dilma Bumba-Meu-Boi Rousseff, e a leitura da Piauí deste mês.

Salvam o 117º número da revista, como não é incomum, textos comprados de publicações estrangeiras. Pretendo comentá-los ainda hoje.

A reportagem principal, de Malu Gaspar, sobre a sorte e a desdita do ex-senador Delcídio de Amaral, ocupa dez páginas de texto cerrado com muito osso, de fatos e fofocas requentados, e pouco tutano, de informação ou análise nova.

Ao refletir sobre a capa, achei que a Piauí, mais uma vez e no frigir dos ovos, havia trocado a haute cuisine da The New Yorker, publicação americana na qual se inspira, pelo cocho de uma Carta Maior. Mas isso é de menos e, neste caso, talvez injusto. A revista obviamente quis chocar, no espírito de um Charlie Hebdo do Leblon, com as melhores intenções. Não se trata apenas de viés ideológico. A peça é arte ruim.

A capa foi encomendada —e certamente roteirizada com cuidado pela redação carioca— à artista russa radicada na Califórnia Nadia Khuzina, editora deste blog de charges políticas .

Não me surpreenderia que tenha sido o próprio João Moreira Salles, um herdeiro bilionário de banqueiros que nunca escondeu sua simpatia por Dilma Rousseff e, por assim dizer, seu sentimento de mundo esquerdista (com muita classe e educação, é claro) quem pariu a ideia de comissionar N. Khuzina nesta paródia da capa do álbum de 1968 que inaugurou o movimento tropicalista, Tropicalia ou Paris et Circencis, criada pelo artista plástico Rubens Gerchman.

A paródia não cola, me expressando singelamente, e tentarei explicar por quê.

O governo interino, afinal, não passa disso, governo provisório enquanto durar o impeachment. Nada foi inaugurado ou reinaugurado no Brasil até aqui. A Operação Lava-Jato segue seu curso e do seu desfecho dependerá o bem ou a desgraça nacional. O país está em crise e o governo, necessariamente, transige para aguentar os trancos.

A capa, portanto, é, pelo critério do alto jornalismo a que a revista aspira, prematura, e tendenciosa e cheia de lugares-comuns na sua tola construção ideológica. A ideia era plasmar a instauração de uma nova ordem conservadora. Daí não haver graça, talvez nem para a militância dilmista a esvoaçar como um bando de corvos neste anoitecer da república

Havia, por certo, manchas de bile no roteiro enviado a Nadia Khuzina, que se define como “capitalista convicta, tártara ateia e orgulhosa cidadã dos EUA”, segundo minha tradução livre.

Onde está Gal Costa na capa do álbum, aparece uma boneca inflável, alusão à falta de mulheres no gabinete Temer, “hahaha” (se se pode rir entre aspas); Moreira Franco segura o pato da Fiesp; Serra parece a ponto de beber o conteúdo do penico, na posição de Rogério Duprat no álbum (a alusão a Duchamp na obra original, ganha aqui, deslocada, evidente literalidade, assim como a própria moldura patriarcal da foto tropicalista se reduz à alusão do conservadorismo em si), e os ministros Geddel Vieira Lima e Eliseu Padilha portam estandartes —no lugar das guitarras dos Mutantes, na obra de Gerchman— com o slogan estúpido e infeliz lançado por Temer, Ordem e Progresso; o próprio Temer exibe o retrato de Eduardo Cunha — e este único detalhe me fez esboçar um sorrisinho.

O traço é duro e realista, dum clássico estilizado. Alguém poderia dizer que falta luz ao conjunto, mas me parece obvio que a atmosfera “algo” sombria, “tipo” interior dum templo medieval, foi ordenada a Khuzina.

Por não estar envolvida no calor da realidade e da política brasilienses, a artista fugiu à caricatura, mas também não obteve a indispensável verossimilhança que o humor e a graça lhe exigiriam.

Para dizer isso de outro jeito, seu traço pouco ou nada revela das personalidades e figuras públicas dos políticos —nem do país— que retrata.

O resultado, artística e ideologicamente, é pobre e frio.

A Piauí mandou fazer um luminoso punhal para matar os golpistas da sala de jantar, e não feriu ninguém.

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