Contra o Brexit, pela Europa

No BrexitA Europa precisa superar todos os limites do projeto de unificação e corresponder aos múltiplos anseios de seus críticos.

Limites e críticas, contudo, vindas da esquerda e da direita, estão aquém da grandeza do feito civilizatório herdado por seus contemporâneos, no qual podem se incluir viajantes e observadores do mundo inteiro.

Por isso, estarei de olho no resultado do referendum desta quinta-feira no Reino Unido, o chamado Brexit (Britain exit, saída britânica), torcendo contra a pretensão separatista.

“Apesar de seus graves e óbvios defeitos, continuo a acreditar que uma Europa mais forte é indispensável não só para os cidadãos do Velho Continente, mas para todos os habitantes do planeta. E para a Europa ser forte é necessário que esteja mais integrada e cada vez mais agir de comum acordo”, diz o colunista do Estadão Moisés Aím, ex-diretor do Banco Mundial e membro da Carnegie Endowment for International Peace.

“Meu europeísmo”, prossegue Aím, “tem como base a convicção de que o mundo seria melhor se os valores europeus fossem mais predominantes do que os que prevalecem na Rússia de Vladimir Putin, na China de Xi Jinping e em muitas outras partes do mundo onde a democracia e a liberdade não são valores fundamentais”.

Eis o ponto fundamental.

Creio que ainda por muito tempo, talvez para sempre, enquanto perdurar, a União Europeia vai traduzir as ideias de concerto e concertação, de obra em progresso, não à toa um estado de arte.

Assim, a Europa pode ser entendida como o enorme, complexo e grato processo de valorização de identidades e convergências e harmonização de diferença e discrepâncias entre povos que, antes do seu advento, não haviam desfrutado os benefícios da paz duradoura e da ajuda mútua institucionalizada.

EUROPA E ESPANHA

Uma pesquisa da Fundação alemã Bertelsmann mostrou que, entre os europeus, os espanhóis estão à frente no repúdio ao Brexit, com vistosos 64%.

É ótimo que assim seja, e torço para que esta opinião majoritária também reflita um rechaço aos próprios projetos separatistas que perduram dentro da Espanha, sendo o mais ardoroso neste momento o catalão.

O fervor nacionalista que o turista atento sente no ar em Barcelona tem algo de nauseabundo, por exemplo, na onipresença da bandeira catalã ou, nos restaurantes, na imposição de cardápios em catalão ou inglês e a frequente descortesia com o cliente que ainda prefira a carta no idioma espanhol.

Esta é uma questão difícil de tratar com amigos espanhóis, e não me vejo no direito de forçar a conversa.Vote stay

Simpatizo com o a ideia de nacionalismo defendida por um filósofo conservador como Roger Scruton, grande apologista do Brexit e célebre devoto da caça à raposa.

Scruton (o historiador Tony Judt, à esquerda, em seus ensaios criticou duramente os fundamentos da UE) enaltece a solidariedade comunitária, no caso britânico, cultivada em torno da “common law”, da ideia de pertença (“aquilo que faz parte de alguma coisa”), de um “nós” contra a razão individual econômica levada às últimas consequências, até o ponto de desfigurar a humanidade e os laços entre famílias e povos preservados virtuosamente no tempo.

O separatismo de Scruton, óbvio, não é da mesma natureza do separatismo de quem alimenta a nostalgia do retorno à tribo, dos movimentos ultranacionalistas que propagam o ódio ao imigrante. A consequência dessa regressão civilizatória está em toda parte, como um perigo perpétuo.

Quando estou na linda e deliciosa Bilbao, convivo com amigos que levam a sério seu distanciamento da Espanha, e opõem suas características, desde o idioma local, trabalho e riqueza à existência das províncias menos afortunadas, com quem se veem obrigados a compartir uma parte dos impostos que pagam.

Mas tomamos um carro e em pouco mais de meia hora cruzamos as fronteiras da França, sem qualquer espécie de barreira, e lá encontramos comunidades que, como qualquer pueblo do País Basco, não se tornaram menos genuínas, onde as pessoas ainda experimentam sua própria noção de pertença. A Europa não lhes impôs o sacrifício irrealizável de se tornarem menos ricos em sua autenticidade.

Mas, quem sabe, a Europa tenha lhes proporcionado segurança e facilidades, abertas à vontade de cada um, de descortinar um mundo avançado, cosmopolita e único na Terra, constituído amplamente sob os princípios da democracia e capaz de inspirar toda a humanidade.

 

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