O jornalismo no cinema e o cinema na profissão

Filmes sobre jornalismo na última safra de Hollywood,
Todos os Homens do Presidente e a vida real
de quem escolheu a profissão, lá e aqui

cinema e jornalismo

Há mulheres sortudas, que são ricas, lindas e talentosas. E há Cate Blanchett, que está muito bem, mais uma vez, como a produtora de TV americana Mary Mapes, em Conspiração e Poder, título tapuia para o filme Truth (Verdade), do diretor James Vanderbilt, que vi ontem à noite, afinal.

Robert Redford, excelente no papel, faz o lendário apresentador Dan Rather nesta história que, numa palavra, trata da responsabilidade envolvida em cada ato do fazer jornalístico.

Não é um filme tão bom quanto Spotlight – Segredos Revelados, de Tom McCarthy. Mas ambos ficam anos-luz de distância de Todos os Homens do Presidente, que pretendo assistir logo mais, pela, sei lá, 19ª vez, e tenho na conta de a mais elevada referência neste gênero ou subgênero.

Será um descanso atravessar uma narrativa de cinema sem o ritmo frenético do videoclipe, sem flashbacks a cada verbo colocado no pretérito, sem a concessão habitual instaurada pela ação, o videogame e outros gêneros infantis e imbecilizantes.

Aliás, a própria crítica se infantilizou. Dou apenas um exemplo. Em A Metafísica de Miami Vice, ensaio publicado em Serrote,  Antônio Xerxenesky tenta mostrar que o filme de Michael Mann é uma obra-prima em múltiplos sentidos e, inclusive, uma revolução estética na cinematografia.

Todos os Homens do Presidente, eu dizia, pode ser visto hoje, de certo modo e, quem diria, como o resgate de um cinema mais afeito ao tempo humano, aos nossos olhos e ao espírito.

Como todo mundo sabe, a imprensa e o jornalismo sempre fascinaram Hollywood. Não podia ser diferente numa democracia na qual a liberdade de expressão é pedra fundadora.

Logo, cada crítico, fã e jornalista que prepare sua lista pessoal. Abomino listas, mas creio que A Montanha de Sete Abutres (1951) de Billy Wilder, e Todos os Homens do Presidente (1976), de Alan J. Pakula, deveriam pintar em qualquer rol.

Robert Redford e Dustin Hoffman são Bob Woodward e Carl Bernstein, repórteres do Washington Post que constroem —com árduo esforço e exigidos pelos altos padrões do diretor do jornal, o mítico Ben Bradlee  (Jason Robards)— a apuração que estouraria no escândalo de Watergate e na deposição de Nixon.

Demonstram grande esforço mas também grande entusiasmo e evidente prazer.

O filme retrata muito bem o ofício exercido com ética e liberdade, cumprindo com louvor seu papel numa democracia. A reconstituição da rotina no métier de um grande jornal foi levada à perfeição. Basta dizer que até o papel amassado no lixo, onde iam parar tantas laudas batucadas em vão pelos jornalistas naquele tempo, foi trazido da redação do Post.

Desgraçadamente, um em mil jornalistas que escolheram essa profissão terá a chance de estar, na dita vida real, em uma posição que lembre de longe o trabalho de Woodward e Bernstein.

No Brasil, a história será ainda mais triste. Talvez um em dez mil jornalistas que jorram anualmente das universidades conseguirá, de fato, simplesmente ser jornalista em um jornal de verdade, ou ter um gosto verdadeiro da atividade.

Os outros viverão, quando muito, uma fantasia, e terão um gostinho de cinema.

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