O diário de sexta

Poesia portuguesa de concreto, Farnese e o orgasmo santo de Teresa de Ávila,
ainda o Brexit, Gonzaguinha e a roca deste jornal

diário da sextacolagem

POETA DAS PEDRAS
O português Eduardo Souto de Moura, vencedor do Prêmio Pritzker em 2011, igual para a arquitetura ao Nobel, chamado “poeta das pedras” pelo escritor seu conterrâneo Heberto Helder, diz ao Valor que a poesia de seu país é a maior referência em suas obras. Antes de tudo vem Fernando Pessoa, autor do Livro do Desassossego, título que ele acha ainda mais bonito em italiano, Il libro dell’inquietudine.  Também diz encontrar vida e pulsação no concreto e considera que a arquitetura, como a literatura e a filosofia, trata sempre das mesmas questões, mas, se existem três mil histórias sobre o tema da adúltera, das quais ninguém se lembra, há apenas um Madame Bovary, que segue a iluminar nossa cultura literária.

FARNESE EM MINAS
Farnese de Andrade
mete em sacrários, oratórios e gamelas de madeira suas confissões que seriam impublicáveis em outro meio. Há nos objetos e assemblages do artista lições do Dadaísmo, Surrealismo e de Marcel Duchamp, como registra o curador Marcus Lontra. Arqueologia Existencial, em cartaz no Palácio das Artes, revela antes a genealogia familiar e moral de uma alma profundamente impregnada pela educação e pelo rico imaginário do interior de Minas.

ORGASMO SANTO
Há entre as obras de Farnese referências explicitas e mediadas ao sexo —incluindo A Grande Boceta, uma portentosa cunha em madeira pintada de vermelho e, como dizer, invaginada no interior de um armário antigo—, ao prazer torturado, ao amor filial e ao coração santificado, lacerado e exposto, como, literalmente, o da santa espanhola Santa Teresa de Ávila em uma igreja da pequena Alba de Tormes, também citado pelo curador.  Lontra se refere ao “conflito entre o prazer carnal e espiritual de Santa Teresa em suas visões divinas” e, por óbvio, à escultura de Bernini instalada em Santa Maria della Vittoria, em Roma, um pilar do Barroco.

Em um dos episódios de O Poder da Arte (disponível no canal Philos e também em livro), dedicado a Bernini, o historiador da arte britânico Simon Schama nos convence de que o prazer retratado em O Êxtase de Santa Teresa é genuinamente carnal, um santo orgasmo que o artista perenizou. Quando apreciarmos a obra com afinco, é difícil discordar.

MERCADORIA XENÓFOBA, TÓXICA E PROVINCIANA
Ainda sobre o Brexit, de Ignacio Molina, do Elcano Royal Institute for International Studies, no El País: “Portanto, neste grave momento, a prioridade não pode ser carregar ainda mais contra os defeitos que sem dúvida tem este artifício milagroso e frágil que chamamos Bruxelas. Não, a prioridade é conjurarmos os que querem importar para os outros 26 [membros da UE], a mesma mercadoria tóxica, xenófoba e provinciana que acaba de se soltar sobre o Reino Unido e que ameaça agora desconstruir 60 anos de união cada vez mais estreita”. Sim, é isso. Mas haverá força para tal conjuro? De onde virá? Com a palavra, dona Angela Merkel.

GONZAGUINHA
Passaram-se, em 29 de abril, 25 anos da morte de Gonzaguinha, em um acidente de carro no Paraná. O artista foi homenageado esta semana no Prêmio da Música Brasileira.

O melhor de sua música não esteve esquecido por um instante, graças ao impacto que produziu em que pôde ouvi-lo e também vê-lo atuar desde os anos 1970. Com a Perna no Mundo tem o vigor de um samba clássico, com sua pujante conjunção de pureza, melancolia e redenção. É como mais gosto de revivê-lo.

A ROCA DO JORNAL
“Ademais, começo também a me sentir um pouco confuso, pois desde a partida de Veneza a roca deste minha viagem já não fia livre e desembaraçada como antes”, registra Goethe em Viagem à Itália — 1786-1788. Este jornal vai como a roca do escritor alemão, embora tenha partido de BH e de BH não tenha saído. Diante do que não sabe do amanhã, é provável que suas atualizações se escasseiem.

A experiência do jornal, de puro diletantismo, iniciada em meados de abril, tem muito de improviso, de um improviso vital e necessário, ainda que, ai de mim, não seja música, qualquer música, ainda menos um Impromptu que nos faz comerciar com o tempo, como um dos de Schubert que aí vão, por Maria João Pires.

 

 

 

 

 

 

 

 

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