O português da “Folha” sustenta o Brexit mais ou menos bem

Português da Folha

O JS recomenda a leitura do português da Folha de S.Paulo, João Pereira Coutinho, um homem cultivado cuja inteligência aberta e ousadia provocam urticária em esquerdofrênicos, para quem argumentos contrários a seus dogmas sempre serão, por óbvio, blasfemos.

Coutinho é pelo Brexit, e na coluna de hoje procura sustentar, contra a maré montante do que considera  catastrofismo da imprensa internacional, a coerência da saída britânica da União Europeia.

Suas alegações são excelentes e me pareceram insatisfatórias. Não por acreditar, como já disse um tanto dramaticamente, que o Brexit é um sintoma assombroso de um possível (toc-toc-toc) regresso ao extremismo ideológico na Europa e suas consequências, mas porque as justificativas alinhadas por Coutinho (devemos ter algo a aprender com a Inglaterra etc.) são frágeis para explicar que o Reino Unido e a Europa viverão melhor separados pela UE.

Ao final do texto, tive a impressão oposta, melhor seria, por tudo que está dito, que permanecessem unidos. Neste sentido, os mesmas razões ganhariam força, com um pequeno rearranjo nas ideias expostas.

Reproduzo alguns trechos apenas para chamar atenção do leitor para o artigo, que merece ser lido integralmente. Aí vão, em azul.

Reflexões sobre o ‘Brexit’

(…) Eu aprendo com os anglo-saxônicos. Existe uma diferença. “Aprender”, no contexto, é repetir a célebre observação da historiadora Gertrude Himmelfarb de que o Reino Unido passou por todas as revoluções da modernidade –industrial, econômica, social, cultural etc.– sem nunca ter recorrido à Revolução (com maiúscula).

Modestamente, eu creio que existe algo a aprender com uma cultura política que não tem a vergonhosa e sanguinária folha de serviço da Europa continental no século 20. O Gulag, Auschwitz e até o pequeno Salazar nunca foram a minha praia.

(…) Sou europeu até ao tutano. Considero a União Europeia uma das mais preciosas criações políticas do pós-guerra. Sempre fui crítico do excessivo (e, como se vê, autodestrutivo) centralismo de Bruxelas.

(…) E, para voltar à anglofilia, aqui vai: sempre me senti bem na “pérfida Albion”; mas só me sinto verdadeiramente em casa em Lisboa, Florença ou Budapeste.

Não troco os cafés de Paris por nenhum pub inglês. Rio alto com Evelyn Waugh, mas sei que Proust é outra história. Turner é um impressionista “avant la lettre”; mas o Impressionismo francês não tem termo de comparação. Benjamin Britten ou Vaughan Williams são compositores estimáveis; mas o que é isso quando comparado com Bach, Mozart ou Wagner?

E, filosoficamente falando, admito que a filosofia ocidental seja uma nota de pé de página de Platão. Como dizia um filósofo (britânico).

(…) A mídia reagiu ao “Brexit” com estupefacção, horror, desmaios. Isso mostra duas coisas. Em primeiro lugar, a impressionante preparação intelectual que reina em muitas redações.

Mas mostra, sobretudo, como a única ideologia dominante do século 21 é mesmo o “globalismo”.

Por “globalismo”, entenda-se: a crença de que, para problemas globais, é preciso um governo global. O que implica, naturalmente, que os anacrônicos Estados-nação, com as suas limitadas “democracias liberais”, não fazem mais sentido. (…)

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