Inferno em Florença

Leia a nova versão do texto [publicada em 31/10/2016 e atualizada em 01/11/2016] que  integra o Livro de viagem — Estratégias, dicas e vivências de um turista literário e cultural, obra inédita do autor do blog, em busca de editora


Philip Roth
Foto (crédito): Antônio Siúves – 12/10/2005

“Assim desci do círculo primeiro/ para o segundo, que já menos cinge/ mas tem mais dor, que punge o ser inteiro.” A Divina ComédiaCanto V – Dante Alighieri, tradução de Augusto de Campos 

Vou te contar. Na tarde ensolarada de 12 de outubro de 2005, em Florença, depois de atravessar o rio Arno pela ponte Santa Trinità, desci ao averno, melhor dizer, ao inferno.

Eu e minha mulher estávamos na cidade italiana há quatro noites e em nosso último dia em Paris eu havia comprado perto do hotel, na pequena livraria The Red Wheelbarrow, na Rue de Saint-Paul, um exemplar de bolso do romance Plot Against America, de Philip Roth. A edição brasileira, com o título Complô contra a América, ainda não saíra (pouco tempo depois eu iria resenhá-la para o jornal O Tempo).

Há muito eu era um leitor fervoroso da obra do senhor Roth, a ponto de, à época, já contribuir modestamente com a onda de indignação que se forma e varre o mundo todo ano, lá pela segunda semana de outubro, quando seu nome não é proclamado Prêmio Nobel de Literatura. Abri o livro no voo entre Orly e Pisa e não parei a leitura no trem até a estação de Santa Maria Novella.

Creio que tinha o norte-americano também como uma espécie de guia literário daquela etapa da viagem, não sei bem por quê, talvez pelo fato de Roth ter vivido em Londres e escrito muito sobre a Europa. A história do “Complô”, que é o trauma histórico de um país, os Estados Unidos, governado não pelo presidente Roosevelt, mas pelo piloto Charles Lindbergh, aliado do Terceiro Reich, não me saía da cachola em nenhum momento. Até que fato e ficção iriam se amalgamar dentro dela.

Algumas horas antes da sessão no averno, naquela linda manhã outonal, logo ao cruzar o saguão da bilheteria e penetrar o pátio do museu Bargello, eu via, a menos de cinco passos de mim, e afirmo precisamente no passado imperfeito, ninguém menos que o próprio autor do Plot. Sim, era ele, e era eu um leitor predestinado.

Com discrição, segui o dedicado périplo do escritor canônico em cada sala e galeria, e o vi examinar com especial cuidado, entre armas, armaduras, cúpulas, colunas e capiteis, o busto de Constanza Bonarelli, amante do grande Gian Lorenzo Bernini, talhado na primeira metade do século XVII. Logo que pude, bastante excitado, quem sabe em que grau de lucidez, cochichei com minha mulher e, num breve aceno de cabeça, apontei a ela Mr. Roth, agora um pouco à frente e à minha direita. Rachel não ligou o nome ao homem e pouco fez do meu grande e inesperado achado cultural, ou ardil da sorte.

Depois da visita ao museu, passeamos pela cidade e fomos almoçar na Enoteca Bonatti. Entre um e outro vinho toscano que me ensinavam, recordo que notei a chegada ao restaurante de uma officer norte-americana, que adivinhei estivesse em Florença para participar de alguma convenção de segurança pública. Uniformizada como vemos em um milhão de filmes policiais, ela estava cortejada por colegas carabinieri, como também veríamos num suspense Hollywoodiano. Como iriam se sentar em uma mesa depois da nossa, tivemos que nos levantar para lhes dar passagem. Os italianos se mostraram amigáveis e se desculparam pelo incômodo, menos a officer que tinha um quê da tenista Serena Williams. Ela sequer esboçou um risinho, e, durante o almoço, se comportou exatamente como se atuasse no papel de tira na TV de seu país, como quem dá ordens a pobres coitados suspeitos de transgredir a ordem. Mas logo a esqueci.

Enquanto esperávamos o rango, aproveitei para atualizar meu caderno de notas, incluindo o apontamento Encontro inesperado com Philip Roth no Museo Bargello. “Ele é alto, emaciado, tem o rosto anguloso e a pele avermelhada de quem não está acostumado a tomar sol. Estava acompanhado por uma mulher de olhos verdes muito elegante, 15 ou 20 anos mais jovem”, anotei, encerrando um jubiloso registro de viagem.

De jeito maneira, pensava comigo, então, animado pelo espírito báquico, eu que havia perdido uma bela oportunidade, não deixaria escapar uma segunda janela do acaso que se abrisse para cumprimentar, quem sabe tomar o autógrafo do autor de Operação Shylock – Uma confissão, caso voltasse a topar com ele em Florença. Esse romance trata de um duplo do escritor, outro Philip Roth, que o persegue em Jerusalém em uma trama que envolve a conspiração em torno de um novo Shoah.

Ainda tínhamos alguns dias na cidade e, com sorte, eu poderia reencontrar meu romancista de cabeceira no centro histórico da cidade, que percorríamos sem parar, como o mesmo e renovado encanto. Mas não imaginava, apesar da improbabilidade do evento matinal, que meu desejo se tornaria realidade dali a pouco, naquela mesma tarde, uma ou duas horas depois da sesta, no chamado Oltrarno.

Logo ao atravessar a Piazza dei Frescobaldi e dobrar à esquerda no Borgo S. Jacopo, avistei Mr. Roth pela segunda vez na mais improvável das circunstâncias, no mesmo dia, num país estrangeiro, sem outros turistas por perto. Ele caminhava devagar ao lado da mulher, pelo lado do Arno.

É agora ou nunca, pensei, desafiando minha vergonha.

Tomado de suspeitosa valentia, deixei minha mulher caminhar à minha frente e, como o Quixote em combate, segui na direção do senhor Roth, a meio caminho da Ponte Vecchio, no pequeno balcão de uma galeria, onde ele se detivera com a companheira para mirar as águas amareladas do rio. Assim, logo depois de me aproximar, entabular uma saudação e emendar o pedido para bater uma foto, notei que algo estranho sucedia, a representação de um esquete jamais escrito por Woody Allen ou Chico Anysio.

Mr. Roth e sua companheira se punham aflitos, meio em pânico, ainda que amigáveis; ambos erguiam os braços em um gesto intermediário ao de quem sofre um assalto. Então, transcorrida breve eternidade, pude ouvir o que tentavam me dizer. Na verdade, tentavam desesperadamente me alertar, please, sir, it’s a big mistake

Foi como se o casal me prevenisse tardiamente da queda de um piano de cauda sobre minha cabeça. Sei que tudo desabou, então. Tonto, arruinado, eviscerado, vi meu sangue escorrer pelo piso verde e caddi come corpo morto cade¹.

Vermelho e branco a um só tempo, busquei absurdamente me safar, como um robô de carne e osso. Apresentei-me (perdão, pátria minha!), sou um turista brasileiro… Balbuciei em inglês mais manco que o habitual, oh, eu sinto muitíssimo, também leio o senhor, com os diabos!, que confusão, li todos os seus livros, publicados em meu país pela Companhia das Letras, por mister Schwarcz etc. e trololó, meu irmão, se o leitor que chegou aqui ainda me permitir esse trato retórico.

Com delicadeza, Martha Bernhard, que era este o nome da senhora John Updike, para se ver livre da criatura comprida e seca que os assediava, propôs que eu tirasse minha foto e, compreendi, déssemos fim ao pastelão trágico, gênero que, por minha culpa, minha máxima culpa, acabara de aparecer no mundo.

Passado o instante eterno, bati a foto acima. Um risonho e resignado Mr. Updike, entre canteiros de buxu-anão e espadas-de-são-jorge, com uma bolsa azul bem presa nos braços, congela-se contra a Ponte Vecchio e a corrente ocre do Arno.

Agradeci o casal, desculpei-me ainda umas tantas vezes, ajoelhei-me metaforicamente pela bola fora e pelejei, então, para me arrastar até onde minha mulher me esperava, à sombra dum salgueiro, na urgência de me suicidar. Nada disse a ela, ali, para poupá-la do duplo enxovalho, do ocorrido e de um dia ter me elegido seu marido. Temi perdê-la, caso considerasse o sinistro, que ainda agora, ao recordar, me arte as entranhas.

Até onde pude averiguar, este é o único registro daquela passagem por Florença, provavelmente a última do autor de Busca o Meu Rosto. Isso não me causa surpresa. Num tempo em que o livro agoniza em estantes mofadas e um candidato ao Nobel não é páreo para uma Lady Gaga, celebridades literárias não merecem mais atenção de paparazzi ou da imprensa local. Pelo menos era assim antes da eleição do menestrel Bob Dylan para o posto mais uma vez usurpado do senhor Roth.

Confesso, como um vira-lata, que ainda não havia lido qualquer obra de Mr. Updike, nem seu badalado Brazil, lançado em 1994, nem ao menos a gloriosa sequência Coelho Corre, Coelho em Crise, Coelho Cresce e Coelho Cai. Ainda por cima, havia mentido ao prolífico escritor.

No ano seguinte me chegou às mãos o conto My Father’s Tears, publicado pela revista The New Yorker de 27 de fevereiro de 2006 — a apenas cinco meses daquele bruto giorno. Ao começar a leitura, estremeci ao deparar com uma passagem sobre Florença, Our hotel in Florence was a small one with a peek at the Arno… The concierge looked up the next train to Rome, the other couple saw us to the Florence station… 

Philip Roth, digo, John Updike, morreu em 2009, aos 76 anos, vítima de câncer pulmonar. Quem viveu essa desdita, não obstante, sobrevive.


 

(¹) e caí como corpo morto cai – A Divina Comédia – Canto V, tradução de Augusto de Campos, O Anticrítico (Companhia das Letras, 1986).

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