Um corretivo em Bernardo Carvalho

Dificilmente alguém capaz de tais renúncias pode declarar, com sinceridade, “eu quero que [o leitor] se foda”. Papagaiadas literárias de encontros sem assuntos ou obras importantes a discutir. Ou uma bacanal do vício solitário.

Que o leitor se foda

João Pereira Coutinho, colunista da Folha de S.Paulo, dá um corretivo, um quinau, no escritor Bernardo Carvalho.

Na Flip (Festa Literária Internacional de Paraty), em Paraty, Carvalho mandou um “eu quero que se foda”, referindo-se ao eventual leitor de sua obra.

“Não me interessa se o leitor lê ou não lê; eu quero que se foda. O que eu quero é fazer minha literatura”, disse, com a frase fatal posta na caixa do contexto, conforme relato da Folha.

Carvalho, Berndardo

Coutinho bate de leve ao comentar que não esperava essa retribuição pelo “ato heroico” de ter sido um leitor de Carvalho, do romance Nove Noites, um livro “assaz estimável”, ele diz.

Em seguida, opina que um escritor para quem o leitor é acessório só pode ser respeitável se produzir com exclusividade para a própria gaveta, como praticante dum “vício solitário”.

Em outro contexto, cita Fernando Pessoa e Franz Kafka, que escreveram para a posteridade. Mas Carvalho não quis se comparar aos dois, decerto.

Shakespeare e Cervantes, mortos há 400 anos, se esfalfaram para se afeiçoar ao leitorado da época, lembra Coutinho, a quem aprecio e já me referi aqui carinhosamente como “o português da Folha”.

Shakespeare, pináculo miraginal da “alta cultura”, foi o escritor mais popular da era isabelina na Inglaterra, e o autor do Dom Quixote, feito escravo na África e prisioneiro na Espanha, sempre perseguiu o sucesso popular.

Aliás, George Steiner, na entrevista ao El Pais recomendada ontem pelo JS, aponta que o muro entre a alta e a baixa cultura caiu bem antes daquele que separava uma Berlim da outra, que Shakespeare, hoje, facilmente escreveria para a TV, e que Muhammad Ali se tornaria um grande personagem homérico.

Estive com Carvalho na Sala São Paulo em 2003, cobrindo para O Tempo as entregas do prêmio Portugal Telecom, que incluíam Nove Noites. Recorda-me um Carvalho algo ameno e contido, até modesto no tom, então, ao referir-se à aposta que fizera na literatura e na escritura do romance premiado.

Ele, que havia ralado como jornalista, contou a mim e a um pequeno grupo de repórteres que pedira demissão do jornal e fora obrigado a vender a casa e o carro, ou apenas o carro, não me lembro bem, para ter condições de concluir obra premiada.

Dificilmente alguém capaz de tais renúncias pode declarar, com sinceridade, “eu quero que [o leitor] se foda”. Papagaiadas literárias de encontros sem assuntos ou obras importantes a discutir. Ou uma bacanal do vício solitário.

 

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