A vida, esse mau gosto da matéria

Colagem Cioran

O título¹ da nota é de Emil Cioran. Pensei na frase, ou silogismo, ao ler sobre o entusiasmo global pela chegada da sonda Juno a Júpiter —feito verdadeiramente grandioso para a astrofísica, entre tantos, como terem estacionado um artefato do gênero no cometa 67P/Churyumov-Gerasimenko.

Por que Cioran? Pela busca que o filósofo romeno empreendeu em sua obra, até onde a conheço, de colocar o ser no seu devido lugar, isto é, de medir nossa natureza na escala cósmica, com o metro da reflexão metódica e insone, no caso dele.

O que são a dor, a melancolia, o que é a esperança, a crença em deus, a poesia? O que é a vida, afinal, e nossa pequenez, diante da morte e diante do universo?

As respostas, ou melhor, indagações, estão em livros como Breviário da Decomposição e Silogismos da Amargura.

Por que Júpiter? Fiquemos na marca ao sul do planeta gigante, chamada Grande Mancha Vermelha, do diâmetro equivalente ao da Terra, onde ocorre uma tempestade perene. Os ventos no seu interior chegam a 600 km/h.

Assim é o tônus do espaço, com distâncias entre uma estrela e outra que equivalem ao intervalo de centenas ou milhares de gerações humanas. Com buracos negros que sugam inclusive a luz, constelações que engolem umas às outras,  com a matéria escura (20% do universo conhecido) e a energia escura (70% do universo), cuja constituição ainda é desconhecida.

Diante de tudo que se viu e se sabe, a hipótese de que vida tenha surgido na terra por obra do acaso é mais que plausível.

Para alguns, é uma maravilhosa obra do acaso; para outros, um acaso terrível e cruel.

Seja como for, à exceção talvez de quem creia, nossa existência mamífera face às forças e escalas do Universo é um tanto risível ou, visto de outra forma, um prato cheio para a poesia.

“A Criação foi o primeiro ato de sabotagem”, também nos diz Cioran, referindo-se ao ordenamento cósmico e nossa inserção dentro dele, formulada pela religião.

A ciência pode ser o último ato de sabotagem, ou o ato final que vai nos redimir da morte e do desespero.

Trágica ou maravilhosa, a ciência se tornou absoluta e pode estar próxima de redesenhar a vida para nos livrar de todos os males.

Ao tomar o volante do mundo com uma eficiência que se estende no tempo e anunciar novas descobertas que ampliarão os horizontes da vida, a ciência assumiu no imaginário o papel que já coube a Shakespeare ou Cervantes, como sugere George Steiner.

Termino com mais um silogismo do romeno: “Uma poesia digna desse nome começa pela experiência da fatalidade. Só os maus poetas são livres”.

Nesta batida, alguém pode dizer que só os maus poetas são felizes.


(¹) Está, como nas outras citações, no livro Silogismos da Amargura, Editora Rocco, 1991.

 

Anúncios

Um comentário sobre “A vida, esse mau gosto da matéria

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s