A viagem até um editor

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Bilbao, indicações em basco. Foto: Antônio Siúves

 

O JS publica uma novo trecho do Livro de viagem — Estratégias, dicas e vivências de um turista literário e cultural.

Já caíram no jornal os Poemas de Viagem e O Averno no Arno ou meu inferno em Florença, textos que integram os Souvenirs, na terceira e última parte do volume.

Seguem-se o Plano de Voo, uma apresentação da obra, e alguns excertos dos Diários, com registros de passagens por Bilbao e País Basco, na Espanha.

PLANO DE VOO

“Turismo também é cultura, como se sabe. Mas mais divertido é quando a cultura se transforma em turismo.”

Terramarear – Peripécias de dois turistas culturais, de Ruy Castro e Heloisa Seixas

Um modo de viajar é coisa tão pessoal quanto o gosto por livros, filmes e quadros, bem como a motivação e o sentido que cercam a viagem. Em uma época de excursões curtas e facilitadas, o turismo de massa se confunde com experiência cultural. A forma de usufruir essa experiência é que distingue a viagem, como o conteúdo define o viajante.

A viagem como extensão da vida cultural e certa maneira de praticá-la são temas deste livro, e o prazer de viajar é a meada cujo fio se pretende puxar para orientar os rumos da conversa.

O objetivo é compartir o que talvez possa se nomear um estilo de viagem dentro do gênero de turismo chamado turismo cultural — com desapego ao conceito acadêmico ou institucional que se tenha da modalidade. Signos, arranjos, vivência e o proveito que se tem antes, durante e depois da viagem são paradas obrigatórias na exploração do assunto.

Espera-se que a leitura seja atrativa para o leitor empenhado em se aperfeiçoar no turismo cultural, mas também para o viajante inveterado. Este haverá de cotejar suas vivências às do autor, e também seus ideais aos dele. Que as rotas, os livros e as obras de arte apontadas, os exemplos e uma ou outra sugestão possam ser úteis a ambos.

O primeiro capítulo cuida de estabelecer um rumo para a jornada, isto é, de assentar o que a viagem pode significar em nossas vidas. O mérito dos preparativos, a importância relativa dos guias e do que se leva por bagagem na prevenção da “síndrome do viajante infeliz” é discutida nos capítulos 2 e 3.

Em seguida, procura-se tratar com brevidade cada marco que define a “arquitetura da viagem”: o tempo ideal para se viajar, o “melhor” meio de transporte, a escolha do hotel, a visitação a museus e a dimensão que a comida e o vinho representam nos dias atuais, se passados pelo filtro da crítica à cultura. O capítulo 11 dá atenção particular aos ritos e peregrinações de um viajante guiado pelo amor aos livros e às artes. Encerra a primeira parte uma reflexão acerca de viagem e memória.

O intuito dos Diários, com extratos de notas de viagem do autor, contidos na segunda parte, é ilustrar ideias e caminhos traçados no livro. Podem ser lidos como rotas, programas testados e highlights das cidades. Algum entusiasmo e algum registro mais íntimo marcam estas anotações.

Os Souvenirs — na terceira parte — reúnem uma reportagem sobre a Rioja, a principal rota do vinho no norte da Espanha, a crônica de um tortuoso episódio de viagem em Florença envolvendo celebridades da literatura mundial e cinco poemas de viagem que equivalem a um diário de bordo.

Referências a obras e sugestões a que se faz menção nos textos podem ser encontradas no final do volume.

Por simples afinidade do autor a remissão a viagens a cidades europeias predominam largamente no livro.

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Estética (Vista de Bilbao). Foto: José Fontán

 

EXCERTOS DOS DIÁRIOS

Bilbao e região, San Sebastián e La Rioja

— Voo agradável a Bilbao (Bizkaia), desde Barcelona, numa manhã de domingo. José e Inês nos esperam carinhosamente. Vamos segui-los de carro até a cidade fria e densa de vapor. Paramos em um mirante com vista para a ría, a cidade, o mar e o verde cerrado no horizonte estético. Ficamos no “opulento”, segundo um guia, Hotel Carlton, graças a uma pechincha de ocasião. Logo a uma ronda de pintxos (tapas) no casco antíguo, a cidade velha, com José, Inês e amigos que nos apresentam, entre eles o queniano Fecade, que é guia turístico aqui. Na feirinha da primeira parada, compro uma edição de bolso de Asesinato em el Comité Central, um das primeiras histórias de Pepe Carvalho, inédita no Brasil. A ronda é nossa via sacra dos anos de faculdade. Vinhos e tapas, tapas e vinhos. Todo o norte espanhol é uma farra para o amante dos brancos, com seus Albariños, Godellos e o indizivelmente genuíno Txakoli, de gosto misterioso como o euskera, a língua basca. —


— José convida o grupo a almoçar a cerca de um quilômetro de onde estávamos, no aprazível Porrue, Alameda de Rekalde, 4. Banqueteamos. Frutos do mar, carne assada e verduras. Depois seguimos para o Guggenheim, bem perto dali. Do lado da alameda,  o Café restaurante Bosta (cinco em euskera). —

 

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O café bilbaíno (cinco, em português). Foto: Antônio Siúves

— Álacre embriaguez. Álegres reflexos do sol da tarde aquosa sobre as chapas de titânio do Guggenheim. Minha tontura não é suficiente para tornar interessante o Puppy florido de Jeff Koons, postado como gigantesco pet de guarda do Guggenheim. Do outro lado uma aranha de Louise Bourgeois, velha conhecida de bienais de São Paulo. José, sempre gentil, havia nos conseguido as entradas. Joseph Beuys e sua cracas no primeiro piso, acolá paredões de aço recurvos de Richard Serra. Arte e entretenimento, arte-ostentação neta de Andy Warhol. Então resolvo entrar na brincadeira pós-pós. Emito alguns sons dignos de Neandertais para ouvir os ecos que ressoam entre das chapas de Serra. Uma monitora vem me chamar atenção. José, por perto, me socorre e diz a moça para ir cuidar de turistas sóbrios menos inofensivos. —

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Puppy, obra de Jeff Koons ao redor do Museu Guggenheim Bilbao. Foto: Paulo José Ribeiro Teixeira

— José me apresenta um artista digno do renome que desfurta, o escultor basco Eduardo Chillida. Seu Consejo al espacio V me lembra nosso Amilcar de Castro, seu contemporâneo e confrade na arte de interpretar recriar o espaço. A escultura em bloco de alabastro Lo profundo es el aire é eloquente e sensual.  —


Um Mark Rothko, do Guggenheim de Bilbao, País Basco, Espanha
Um Mark Rothko, do Guggenheim de Bilbao, País Basco, Espanha

— “As pessoas que choram diante dos meus quadros têm a mesma experiência religiosa que eu experimentei”, disse Mark Rothko. Assim se deu.  Na tela sem titulo pintada entre 1952-53, bordas alaranjadas entre fresta de vermelho esmaecido conformam barras amarelas em semitons sobre uma terceira barra, na base, menos larga, em vermelho sangue sobre o amarelo evidente. A liberdade airosa e seu limite horizontal. —


— Impressionado e deliciado com o metrô de da cidade, projetado por Norman Foster. Forma marcada por elegância e beleza e função combinados com ousadia para dar à cidade mais um dos atrativos que a colocam no circuito planetário do turismo cultural. Penso que por esse tempo Bilbao já tenha superado as dores do polo industrial que, em decadência, deu lugar ao nascimento da nova cidade forjada, como também superado o cisma cultural criado pelo Guggenheim, seu centro de gravidade miliardário. A Bilbao atual será a síntese desse movimento. —


— Na tarde seguinte, José nos leva a conhecer melhor a cidade. Vamos pela margem direita da Ría, com a vista do centro de indústria naval do outro lado — veem-se armadores, gruas, antigos fornos siderúrgicos de Vizcaya. Em Getxo, o amigo nos mostrou a ponte colgada. Caminho até o belo monumento ao engenheiro Evaristo de Churruca y Brunet, que projetou a transformação do porto de Bilbao. A escultura de Miguel García de Salazar representa a peleja entre o homem e Netuno pelo domínio do mar (nada sabem dos portugueses? ora pois). Ainda em Getxo, José nos faz ver as residências aristocráticas do bairro de Neguri, na direção da praia de Ereaga até o Puerto Viejo de Algorta. Paramos num pequeno bar cravado na encosta onde vivem pescadores, para um aperitivo. Comemos percebes e outros bichos marinhos de aspecto extraterreno. —

Etarras editado
Os dizeres, em euskera, ou basco, pedem que os prisioneiros condenados do ETA cumpram suas sentenças no território pátrio.

— Na manhã seguinte, saímos de carro de Bilbao rumo a San Sebastián pela autoestrada. Na parada e um posto de gasolina, José me aponta as montanhas do Duranguesado e o Amboto, refúgio da deusa Mari. “É o monte sagrado dos bascos presidindo a paisagem”, ele diz. —


— Nos desviamos em direção a Amorebieta-Gernika e passamos ao largo de Guernica. “Guernica foi bombardeada pelos alemães a serviço de Franco por ser símbolo da imemorial democracia e organização política das cidades (aldeias) bascas”, comenta José. —


— Depois de percorre a margem esquerda da Ría de Guernica, também chamada Ría de Mundaka, na reserva ecológica de Urdaibai. Paramos à frente, na estrada, ao alto para apreciar a linda praia de Laga, de areias acobreadas com a maré baia. Dali, avistamos o cabo Ogoño e o mar Cantábrico profundamente verde. —

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Praia de Laga, na na reserva ecológica de Urdaibai, País Basco. Foto: Antônio Siúves

 

— Depois de franquear o cabo Ogoño, paramos no povoado de Elantxobe; com o céu semiaberto, passeamos em meio aos espigões do porto. Estacionamos em seguida em Lekeitio, outro povoado onde se fala apenas o euskera. Em uma varanda do porto, pedimos uma roda de pintxos e o Taxkoli para reassentar o coração. —


— Com “el mareo de las chicas”, como José se refere às irmãs enjoadas no trajeto curvo da carretera, adiantamos o percurso até Getaria, perdendo a oportunidade de conhecer outras aldeias onde raramente vão turistas: Ondarroa, Motriko, Deba, Zumaia, lista o bom José, desolado que nem eu. —


— Em Getaria, perto do porto, comemos no espaçoso restaurante Mayflower. Sopa de peixe, bochechas de merluza e outros pratos simples e ricos da cozinha espanhola. Nada cai melhor em um dia frio como uma sopa de pescado de primeira linha. O prato é reconfortante e inspirador.  Com vinhos Txakoli e Albariño, a conta não deu mais que 40 € por casal. Pagaríamos quatro vezes isso no Brasil, por pura pretensão dos senhores chefs, além do mau hábito da clientela. Isso me lembra Mark Rothko, que gostava de comida chinesa, dizer, à época de sua malgrada comissão para o Four Seasons, que achava indecente alguém pagar mais de US$ 5 por uma refeição. —


— Ni neu = nem eu; norekin = com quem. —


— Herri mina equivale à nossa saudade. —

 

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