Beleza e trevas à luz de Pokémon

Luz e trevas

 

Chora o Arthur Rimbaud querubim na conhecida Canção da Mais Alta Torre: “Inútil beleza/ A tudo rendida,/ Por delicadeza/ Perdi minha vida./ Ah! Que venha o instante/ Que as almas encante¹.”

No mundo do Pokémon Go, dos Pokémons todos deste mundo de ligas de cyberatletas de videogame e, como Ariano Suassuna, sem jamais saber se era punqui ou se era funqui, perdi a beleza.

Aí chorei como só se pode chorar nessas ocasiões, como o Galeão Cumbica de Roni Cócegas.

Pois quero dizer quando crescer o mesmo que o Álvaro de Campos de Fernando Pessoa: “Nada de estéticas com coração: Sou lúcido./ Merda! Sou lúcido”.

Choro como Galeão Cumbica por um país no qual 44% da população não lê livros, e quem costuma ler, lê a Bíblia, gibis e quejandos.

Choro como Galeão Cumbica por um país cuja rica tradição musical será representada, perante o mundo, na abertura da Olimpíada do Rio, por certa Anitta.

Choro como Galeão Cumbica por nosso mal-estar sem civilização, como diz o filósofo Eduardo Giannetti, ou na variante do antropólogo Claude Lévi-Strauss, por termos passado da barbárie à decadência sem conhecer a civilização.

Choro como Galeão Cumbica por Caetano Veloso, para quem os sertanejos são os novos tropicalistas, ainda que sejam incapazes de pensar; para quem, presume-se, é divino e maravilhoso o luxo de ter Anitta ao seu lado na inauguração da Rio 2016.

Onde Caetano enxerga a realização da utopia tropical, que inspirou o novo livro de Giannetti, o devir da nova Roma prevista por Darcy Ribeiro, eu vejo apenas o fim da picada.

Luz e trevas
A decadência da democracia liberal e a ascensão dos Trumps e das Le Pens também reflete a decadência cultural — a impotência da invenção, da resistência, um nó cego na história.

E o horror do terrorismo (cuja principal vítima não somos nós ocidentais, mas iraquianos, sírios, paquistaneses, palestinos…) e da indiferença para com os emigrantes da África, a despeito das orações do papa Francisco?

Luz e trevas
Se tudo são trevas, a luz está vencendo, diz Rust (Matthew McConaughey), o detetive filósofo da excelente primeira temporada de True Detective, ao refletir sobre o significado do céu noturno.

Na última sequência do episódio final, que acabo de rever, Rust é amparado pelo amigo Marty (Woody Harrelson), ao fugir do hospital com a barriga ainda cheia de pontos.

Ao despertar do coma e regressar a este mundo, Rust, chocado, se debulha em lágrimas, amparado por Marty. Não esperava voltar.

Em nome da verdade e da decência, Marty e Rust, afinal amigos do peito, derrotaram o mal absoluto, o homem-diabo, sacerdote do templo de Corcosa.

Rust tivera uma experiência religiosa, ou mística, à beira do abismo, apenas um instante antes de receber uma facada no abdômen.

Sentira-se seduzido pela terra desconhecida, de onde ninguém jamais regressou, pela escuridão fria e redentora de um aglomerado estrelar, pelo reencontro com o amor da filha, que desaparecera tragicamente ainda menina — um amor também absoluto. Seduzido, ele diz sim.

Os roteiristas da série poderiam ter posto na boca de Rust, antes de descerem o pano, em mais um toque de elegância, outra passagem do Rimbaud querubim, de A Eternidade: “De novo me invade. / Quem? – A Eternidade. / É o mar que se vai/ Como o sol que cai” (…).


(¹) Os poemas de Rimbaud citados no post são traduções de Augusto de Campos. Estão no livro Rimbaud Livre, Editora Perspectiva, 1993, 2ª edição. 

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