Sobre o futebol, aqui vai uma bola fora, caro Tostão

Futebol

[Texto atualizado em 28/07, com alterações e correções. Na versão anterior, a expressão “idiotia da subjetividade”, em referência a Nelson Rodrigues, estava, idiota e obviamente, invertida.]

Para estufar este filó/ Como eu sonhei/ Só/ Se eu fosse o Rei/ Para tirar efeito igual/ Ao jogador/ Qual/ Compositor (…) — Chico Buarque – O Futebol

Não entendo patavina, mas gosto muito de futebol.

Vejo jogos, copas e campeonatos, acompanho fatos e comentários. Até cair de porre.

Então me afasto para curar a ressaca. Preciso de longa abstinência para regressar aos gramados e aos fantasmas de ontem e hoje que me assediam.

A Seleção de 1970 e a de Telê; Kafunga e Fernando Sasso no Canal 4 estão, por exemplo, em minha fantasmagoria propriamente dita; na de hoje, bola para frente.

O mal vem do mesmo, da repetição em um campo, sociologicamente falando (ver Pierre Bourdieu), incapaz de sair do raso, do decorado, do contratado, do déjà-vu, de um campo (midiático) incapaz de se reinventar.

Há ilhas de refrigério, como o texto de Tostão, inspiração deste post do JS, e a quem volto já, já, antes de chutar esta bola fora do gol ou vê-la bater na trave, o que não dá no mesmo.

Os que botam banca nas bancadas de TV são quase sempre aqueles que também escrevem nos jornais.

Sei que há diversidade, dois milhões de blogs e tal. Mas ninguém é de ferro para ver tudo isso, só o fanático.

Em geral, nossos bambambãs, da ESPN, SporTV e por aí, são superespecialistas em seu domínio, com muita pós-graduação a balizar com recursos técnicos sua opinião e análise de desempenho, e nos oferecer montes de informação inútil.

Com toda a multiplicidade desse ecossistema, neste mundo ordenado por infantes, não há mais lugar para a visão trágica ou lírica do esporte, para um Nelson Rodrigues ou para um Armando Nogueira. Não há vagas para poetas.

Hoje, os dois são folclore. Mas o que Nelson diria do bom Paulo Vinícius Coelho, o PVC (tenho pejo em chamá-lo de epítome da idiotia da objetividade, mas não resisto à tentação; respeito seu esforço incomum como jornalista) ou Armando, da saga de Lionel Messi na Copa América ou daquela funesta tarde de uma terça-feira de 2014 no Mineirão?

Diante de fatos extraordinários, não ouço ou leio, entre nossos superprofissionais, quem revele talento, ousadia, inteligência ou coragem para driblar o lugar comum.

Os astros da crônica se tornaram primas-donas e donos de seus feudos. Acompanhava com agrado muitos deles, até dizer chega!

Além dos que não são meros repetidores ou vão se aposentar tomando coragem para alcançar alguma originalidade, chega dum José Trajano, cuja empatia deixa-se borrar pela esquerdofrenia do militante; dum Juca Kfouri, cuja simpatia se esboroa no bom-mocismo equilibrista sobre o bem e o mal; da crueldade dum Mauro Cezar Pereira, que deu de perseguir o grande sujeito, craque e trabalhador da bola que é Marcelo de Oliveira.

Antes ouvia muito a Itatiaia, desde os tempos de Osvaldo “coragem para dizer a verdade” Faria (1930-2000), até expulsar da minha audiência uma rádio que levou às últimas consequências sua condição de “emissora comercial”.

Digo chega! —na reserva duma nova ressaca— toda temporada, ao infernal moto-contínuo, à logorreia, às frases e gestos e entonação indignada reiterados sobre esquema tático, compra e vendas de craque, desempenho de time e jogador, arbitragem e cartolagem.

Quase que só vejo jogo transmitido por Milton Leite, que tem a graça de não levar o futebol a ferro e a fogo e de dispensar a demagogia. Com Milton, segue o jogo e a autenticidade.

Entre os comentaristas, sou assíduo apenas de Tostão, que, no novo ofício, depois dos gramados e da medicina, se manteve como o melhor ponta de lança entre seus pares da crônica.

Tostão me parece ser o único comentarista adulto, lido e capaz de dizer que o futebol é mais que o jogo. Lê-lo é um alívio para quem não se deixa resumir à condição de torcedor.

Tostão me soa como um  raro comentarista capaz de se expressar sem se parecer um condenado ao presente. É alguém com o dom da memória e que domina o fundamento da memória para qualquer reflexão.

Filho e irmão de grandes cruzeirenses (o clube era uma razão de viver para Alfredo, irmão mais velho), guardo Tostão como a mais rica das taças.

Ao cruzar por ele em um cinema ou rua de Belo Horizonte, sem nunca importuná-lo, algo se revela, algo como aquela “fração do tempo em estado puro” (ou algo assim, cito de memória), de que fala Marcel Proust já no final de sua obra. O homem adulto revive e se revê claramente no passado que, aparentemente, havia perdido, mas que se mantinha encoberto pela percepção, nalgum recesso da alma.

 

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