A imprensa morre. Nasce o jornal online sem caráter e dispensável

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A nova versão online do jornalão que um dia mandou Euclides da Cunha cobrir a Guerra de Canudos lembra um beduíno transposto sem escalas à calota polar.

A versão é  como um clone mutante e degenerado criado com a livre manipulação do DNA extraído do jornal impresso, e tem muito a dizer sobre o estado em que se encontra a dolorosa transição tecnológica do jornalismo.

O Estadão exibe todas as contorções e guinchos típicos da imprensa que morre em lenta agonia enquanto mata-se para renascer virtual, online, em meio ao nevoeiro das mutações, durante a gestação da nova vida e das novas modalidades do ser humano.

O apelo universal dos periódicos em luta pela sobrevivência — pautada na concessão à banalidade e ao espetáculo permanente — soa um tanto tonto na adesão do quase sesquicentenário farol do conservadorismo bandeirante.

Entre o placar do futebol, o atentado terrorista e o impeachment da presidente, você se informar sobre as aulas de furadeira tomadas pela jovem atriz para atuar na novela das sete e tem lições de como melhorar seu desempenho no Pokémon Go.

O caos venceu, mas como chegamos à desagregação?

Um jornal deve, por óbvio, dar conta do que interessa ao leitor e se adaptar aos câmbios do tempo. Não há nada de novo na renovação.

Novas seções e editorias sempre foram criadas por imposição do público, da caça à raposa à sustentabilidade, da pesca aos games, das dicas de boas maneira para moças de fino trato à orientação sexual.

A novidade decisiva — além da criação de novos formatos multimídia — é a hierarquia, a organização e a ordenação dos acontecimentos no portal online.

A hierarquização e apresentação online dos “conteúdos” tornou-se um desafio que muito poucos editores, desenhistas de web e programadores estão conseguindo vencer.

Até onde percebo, tentou-se nos primórdios, sem sucesso, conceber páginas online à la carte para atender ao gosto individual, formatadas segundo o mapa ou rastro de cliques deixado pelo visitante num site. O leitor encontraria uma página afeita às suas preferências. Essa tentativa foi rebaixada a recursos mais modestos, como a confluência de temas afins. Segue-se a trôpega convergência do papel ao pixel.

Em geral, os jornais online não conseguiram redefinir suas velhas identidades e puseram a perder marcas e reputações. Renderam-se à lógica das redes sociais, aos escândalos, ao culto da celebridade e à fofoca.

O leitor em papel podia (uma minoria minguante ainda pode) facilmente separar o caderno ou a página a que se habituara e desprezar o resto. Conferia, desse modo, uma espécie de procuração aos editores dos jornais para selecionarem o que realmente importava, informava, divertia e ajudava a pensar e formar opinião.

Diferentemente, os jornais online precisam garantir, além de assinantes, o maior número possível de cliques. Não têm procuração alguma de leitorados específicos, mas a obrigação universal de não perder nada que possa despertar atenção, entreter e fisgar o internauta médio.

O internauta médio tem algum poder de compra, menos de 40 anos, vive em qualquer ponto da terra e se detém por apenas cinco segundos em cada site, que abandona nesse piscar de olhos se não acha emoções fortes, indignação barata, vídeos curtos, “zoadas”, memes e muito “kkk”.

Cliques resultam em número de páginas visitadas e essa audiência gera receita publicitária — que ainda é irrisória na internet perto do que os jornais faturavam para publicar anúncios impressos, sem falar que vigora na internet a cultura do almoço grátis. Isso explica ao mesmo tempo a falta de sintonia fina dos editores, o confuso alinhamento de conteúdos e a panaceia da ênfase na vulgaridade. Quando mais vulgar e banal, mais milhões de cliques por segundo são assegurados. Não tem erro.

A mesma contingência impede que os jornais em geral e os nacionais em particular utilizem um dos mais fascinantes recursos da internet, o hipertexto com links externos. O que poderia atestar informações e enriquecer uma notícia ou análise tem o efeito  colateral de afugentar o leitor.

Os jornais brasileiros estão se tornando amorfos, indistinguíveis e dispensável na internet. Uma informação vital para a cidadania ou a democracia dilui-se ao lado de faiscantes chamadas para a nova ordem de fait-divers, como chamávamos no jargão jornalístico toda sorte de “curiosidades” que não cabiam nas editorias tradicionais.

Painelfolhaotempo

Os “fatos diversos”, acontecimentos inusitados e pitorescos, se tornaram decisivos para a audiência digital, ampliados pelo alcance da internet, o culto à celebridade oca, a comunicação instantânea e pelos trilhões de fotos e vídeos captados diariamente no mundo inteiro e até no espaço, por meio de satélites, telescópios e sondas espaciais.

Antes do Estadão, outros veículos entraram na nova era com grande empenho, o portal UOL acima de todos. Mas não faltaram modelos na web para jornais que recorrem aos mesmos conteúdos e mesmas estratégias.

Em O Tempo, para dar uma olhada num site regional (sites regionais, aliás, não podem, pelos motivos financeiros apontados, serem realmente locais e regionais) enquanto escrevo este texto, vejo sobre a devastadora imagem de uma criança vítima da guerra em Aleppo, na Síria, a fofoca em torno de uma falsa denúncia de assédio sexual, e uma caixeta ao lado intitulada “No Instagram”, na qual se lê “Mariana Ruy Barbosa responde à altura seguidor que a chamou de palhaça”.

Na galeria de fotos na capa online da Folha de S. Paulo, a mesma imagem do menino sírio Omran Daqneesh, de cinco anos, estampada em O Tempo, alterna-se com o drama do Gorila Gincko, de 14 anos, fotografado num zoológico francês que alberga animais apreendidos pela Justiça.

Os jornais renunciam ou perderam a função de filtrar e destacar o que é essencial e decisivo e, nesta marcha, vão se tornando perfeitamente supérfluos e irrelevantes. Ainda que abasteçam as conversas nas redes sociais e sejam, contraditoriamente, a principal fonte de informação.

Há, claro, distinções. Há jornais que estão conseguindo se conformar ao meio virtual e conservar sua razão de ser, sua autoridade, por assim dizer. O The New York Times talvez seja o exemplo mais bem-sucedido dessa recolocação. No Brasil, O Globo na internet me parece fiel a O Globo impresso, com muitos altos e baixos.

Jornalões e jornaizinhos, provavelmente, não têm saída. O lento e implacável desparecimento do impresso¹ impõe uma corrida maluca pela acomodação nas galáxias da internet.

Salvar-se-á, ao menos por algum tempo, quem mais despudoradamente puder representar um mundo hostil à política, às ideias, à  literatura e à verdadeira arte.

É ceder à era do Pokémon Go ou perecer.

A saída para o leitor sem lugar no fantástico mundo novo — para ficar apenas no campo que mais interessa ao JS — é isolar-se nalguma alta torre e buscar publicações que ainda se dedicam, para usar o eufemismo do El País, sobre a parceria do jornal espanhol com a revista Jot Down, “à divulgación de la cultura y las ideas desde parámetros clássicos”. O preço é o isolamento, a falta de assunto numa roda de bar, e a solidão.


(¹) Reproduzido do perfil público no Facebook do jornalista Charles Magno Medeiros

 

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2 comentários em “A imprensa morre. Nasce o jornal online sem caráter e dispensável

  1. Caro Siuves. Há que não se confundir os grandes portais com os jornais que lhes deram origem e ali se abrigam. Abro o Uol e imediatamente entro na Folha Online, que ainda é bastante razoável.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Não confundo, caro Paulo. Analiso justamente os grandes. A “Folha” recorre aos mesmos apelos do UOL, a que me refiro no texto e ilustro com o print screen da capa online. Assim se torna perfeitamente dispensável, insisto, como jornal online. O diário parece não ter saída, indicam os números do IVC. Já o maior de todos os jornalões dá a volta por cima e multiplica assinantes por meio do paywall. Já o El País na web, desgraçadamente, me parece sem rumo.

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