Dylan, Nobel de Literatura, e um mundo que acabou

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Nunca perdi o interesse por Bob Dylan. Quando minha geração, desde a quarta década de vida, começou a sepultar precocemente seus velhos ídolos entrados no outono, não os perdi, não os perco de vista.

Chico Buarque, Milton Nascimento, Caetano Veloso, Leonard Cohen, muita gente. Poucos mantiveram a vitalidade criativa como Dylan. Para sentir isso basta ouvir seus álbuns mais recentes, a exemplo de Modern Times (2006) ou Time out of Mind (1997), que trouxeram canções da riqueza de Not Dark Yet e Workin’ Man Blues II.

Luis Antonio Giron tascou a escolha do cantautor, como dizem em espanhol, como Prêmio Nobel de Literatura. “Depois de a Academia Sueca premiar uma jornalista no ano passado, chegou a hora de um músico. Eu sempre digo que o Nobel é o Oscar sueco. Agora o Nobel parece o Grammy da Suécia. Salvo se, de acordo com os boatos, Bob Dylan é Thomas Pynchon. E que tal um Grammy para Philip Roth?”,comentou no Facebook.

Tipicamente, a Folha de S.Paulo, que encomendou a Giron uma análise, publicada mais tarde, apontou em outro texto mais uma razão estaparfúdia para a glória de Dylan como Nobel de Literatura: “Artista é agora o único com Nobel, Oscar, Grammy e Globo de Ouro”. Qual o sentido disso, dizer que um criador acumula prêmios como um tenista conquista o Grand Slam? Informação pop, entretenimento oco, cultura gasosa, tudo que se identifica com o laurel anunciado nesta quinta-feira.

Ano após ano, aguardamos feito bobos o prêmio para Philip Roth. Não veio e não virá.

A literatura e a própria arte perderam a centralidade na vida humana, agora pautada pelo ordenamento dos dispositivos tecnológicos, do consumo e das redes sociais. Por certo ainda há no mundo uma miríade de bons autores e uma indústria editorial próspera. Mas, pense, qual foi a última vez que você conversou com alguém sobre a obra de um grande romancista?, ou misturou cinema, música e literatura num papo enebriante através da noite.

Não creio que a academia de doutores suecos tenha se rendido a isso. Bobagem. Mas, há décadas seu galardão literário deixou de fazer sentido. O que importa é a novidade, o episódico, a conversa frouxa e irrelevante que será esquecida ainda esta tarde.

Um mundo acabou, pode crer, amizade. A lembrança de Roth é exemplar. A literatura de Roth, como toda grande literatura, é capaz de transformar nossa compreensão de nós mesmos e do nosso semelhante. Dificilmente alguém poderá dizer o mesmo da lírica de Dylan. Mas quem sabe nos próximos anos não dão o Nobel a Chico Buarque? Estaríamos onde chegamos.

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