Santa María de Naranco (Oviedo, Espanha)

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Santa María de Naranco, Oviedo, Espanha. Foto: José Fontán

Era uma manhã ensolarada e fresca de domingo, a primavera nos contagiava com a bacanal da polinização, a semear, além de beleza, excruciantes rinites em organismos combalidos como o do escriba. Galgávamos a pé os outeiros de Oviedo, pelo norte das Astúrias, Espanha, alegres por achegar-nos à igreja de Santa María de Naranco, uma construção assentada naqueles altos há mil anos e pico.

Releio El Desvío a Santiago, de Cees Nooteboom, pouco mais de um ano depois de terminar a primeira leitura. Mais uma vez, me preparo para voltar ao país que mais me seduz, provoca e estimula nesses últimos anos.

Em 2015 não tomei notas de viagem, o que nunca havia feito, por uma infausta circunstância. Repasso agora aqueles dias que, como tiveram que ser, me levaram a escrever dois dos 21 Poemas publicados exclusivamente neste jornal, e o leitor que se interesse por essas linha haverá quem sabe de entender o que tento dizer neste Fisterra (a menina dos olhos cega).

A leitura de Nooteboom, escritor holandês, autor de romances e relatos de viagem — viagem interior e geográfica, na justa definição de Luisgé Martín —, muito lembrado para o Nobel, com um caso de amor pela Espanha, onde tem uma pequena casa de verão na ilha de Menorca, é um aprofundamento em meus preparativos, que além dos guias de toda espécie incluem um interesse cultural permanente pelo idioma e pela história, literatura e política, mas disso creio já tenha tratado aqui.

El Desvío a Santiago se compõe de relatos muito bem amarrados das andanças de Nooteboom pela Espanha desde 1979, interessado na diversidade, na historia complexa e fascinante, na arquitetura das igrejas e mosteiros medievais, na pintura e na expressão das gentes de tantas origens, idiomas e fervores. Ele parte de carro desde Barcelona, onde chega de barco, em direção a cidades, vilas e rincões despovoados da “meseta!” espanhola, visita e revisita paradores, conventos, livros e quadros, com os de Francisco de Zurbarán, um pintor que tanto o encanta, em uma viagem que durará alguns anos, antes que ele regresse a Santiago de Compostela.

Em março e abril de 2015, de volta a Bilbao desde Madri, depois de uma viagem a Barcelona de trem, quando revi debaixo de neve e chuva a deliciosa Rioja basca (Alavesa), a partir da estação de Haro, e depois de visitarmos Pamplona, fomos guiados por amigos através do norte espanhol, quase sempre entre as montanhas e a costa cantábrica e das Astúrias, antes de nos determos uns dias na Galícia.

Ao final daquelas semanas, pude entender mais propriamente o que Nooteboom escreve sobre sua viagem pela mesma região e pelas “Espanhas” (traduzo livremente do espanhol, do meu livrinho de bolso da – Editora Siruela):

“Que desatino que a maioria dos viajantes não vá mais além do formo da costa leste espanhola! Faz trinta anos que viajo por aqui e nunca se acaba. Há todo um continente por detrás dos Pirineus. É preciso de anos para alguém desenterrar, descobrir e refletir sobre o conjunto de países misterioso, oculto, desconhecido, com sua própria história, suas próprias línguas e tradições.”

Desde nosso hotel na cidade portuária de Gijon, conhecemos a pequena e oculta Ribasella e a não menos pequena e intrigante, mas reafeiçoada ao turismo, Cudilello. Ao reler as páginas de Nooteboom, como disse, retomo aqueles dias desfrutados nas Astúrias e minha leve ansiedade por chegar a Santa María de Naranco. Deixo-me guiar nessa revivência pelo autor do relato.

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Santa María de Naranco, Oviedo, Espanha. Foto: José Fontán

Nooteboom se hospeda em Oviedo, bebe sidra, come fabada, gosta dos lugares “agradavelmente escuros”, visita a catedral e celebra os tesouros que vê e que a maioria dos turistas que passeia pela Espanha desconhece, mas registra que o melhor o esperava nas colinas da cidade, quando encontra

“… uma das mais antigas igrejas cristãs que ainda existem, Santa María de Naranco, construída sob o reinado de Ramiro I (842-850) como aula regia, ainda durante sua vida habilitada como igreja. Em estas colinas há duas igrejas muito perto uma da outra, da mesma época, ambas do pré-românico, o estilo asturiano.

“Ainda é cedo quando o guia me deixa passar a Santa María. Há véus de nuvens sobre o vale e Oviedo jazz na lonjura. A construção é alta e dá impressão de uma elegância ligeira e extrema, apesar dos grandes blocos de arenito com que foi construída, toscos e desiguais. Que classe de reis eram esses? De onde tiravam os modelos para suas construções? A decoração faz pensar que é de Roma, a graça ligeira das duas fachadas abertas ri-se da obscuridade da Idade Média, e de fato não conheço nenhuma construção igual a esta. Abaixo estão os quartos de banho “para a guarda”, onde as dependências são mais bem fundadas e sólidas, mas acima, aonde só se pode chegar por uma escada exterior, no lado norte, tudo é, como o guia tão belamente diz, diáfano. E ele tem razão. O edifício é de pedra, mas de pedra diáfana, a luz e o ar podem atravessá-la e nele também se transformam, se veem afetados, e esta troca comove o visitante, que se encontra durante um tempo em outro tipo de luz, em outro ar e se torna meditativo, mas a um tempo eufórico, alegre e jubiloso pelas coisas que seguem existindo para contar algo (…).”

Essa passagem me fez recordar o prazer de sentir na palma da mão as paredes, alisar as colunas delgadas e os muros da construção. À maneira de Nooteboom, tento restituir o uso do edifício antes (conforme o guia nos disse, possivelmente como galpão de caça) e depois de ter sido convertido na linda igreja, e reter algo do abismo do tempo, da fé e dos anseios de quem entrou e saiu daquelas dependências há mil e tantos anos. Uma experiência como essa é o verdadeiro alimento da viagem, da viagem que me interessa.


Leia também, caso tenha apreciado este post: O que os guias de viagem não revelam — Ou um guia dos guias de viagens no turismo cultural.

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