Festa madrilenha entre vivos e mortos

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Burgos. Foto: Antônio Siúves

O outono se mantém aberto em Burgos neste domingo. O resto parece cerrado. Quem não tem um carro alugado não pode ir a Santo Domingo de Silos ver o claustro do mosteiro beneditino do século XI, nem à pequena Covarrubias. Todas as locadoras estão cerradas. O único ônibus que me deixaria no distrito não sai da garagem aos domingos. Quando sai durante a semana, só vai numa perna. Quem quiser que pouse por lá e retorne bem cedo na manhã seguinte, ainda sem poder visitar a abadia milenária. Um táxi com bandeira dois nos custaria uma fortuna. Melhor esquecer por agora.

Sem ânimo de percorrer logo cedo a gigantesca catedral de Santa Maria, cujas torres gêmeas, como ogivas de dois foguetes, no dizer de Cees Nooteboom, aguardam eternamente sua decolagem bem em frente ao nosso hotel, decidimos ir a pé até o Real Monasterio de las Huelgas, que está cerrado inesperadamente, por um funeral. A planta do museu arqueológico da cidade, a dez minutos de táxi dali, que guarda as tumbas visigóticas que ansiava por ver, também cerrada, em reformas.

Mas o Outono, não. Caminhamos mais de uma hora pelo Paseo del Espolón, à beira do Arlanzón, cercado por plátanos e vegetação que durante nossa andança oscilava entre o verde e o amarelo, amarelo que se estende ao chão, ao passar do passeante. A urbanização em torno do rio cristalino é vital para quem vive aqui, presume-se, e ajuda o forasteiro a entender por que Burgos é chamada “cidade do futuro” na propaganda oficial. É uma ordem e beleza que na Espanha eu vira apenas em Sevilha, nos quilômetros do parque planejado à margem do Guadalquivir. A temperatura não passa de seis graus, quase não venta, o sol dá as caras. Penso se alguém pode desejar graça maior.

Cheguei ontem de Madrid pela manhã, em trem. Aproveito as duas horas e meia no conforto da poltrona do meu vagão, enquanto cortamos a meseta rumo ao Norte, para ruminar os quatro dias corridos que tivemos para rever a grande cidade, gozar a arquitetura do museu Reina Sofia e, no dia seguinte, revisitar Velázquez no Prado, com a possível familiaridade com  a obra do pintor que adquire o leitor do livrinho de Ortega y Gasset, lançado há pouco no Brasil, e ainda mais íntimo, as salas de Goya, com a carga do livrão Robert Hughes sobre o artista editado pela Companhia das Letras, que consegui terminar este ano. Mas a pintura, e mesmo a notícia da eleição de Donald Trump (que as gravuras de Goya da séries Caprichos e Desastres, anteveem aos meus olhos), registrada em uma edição do El País concluída às 6h30, foram apendiculares nesta passagem por uma Madrid gelada e seca.

Pela primeira vez, desfrutei a chance insonhada de festejar um encontro europeu com minha família. Bebemos muito vinho, inclusive jerez e manzanilla na escura e inacreditável taberna La Venencia, demos risadas, passeamos muito por Los Austrias e nas ruas em torno da Calle de las Huertas. No delicioso Café Central, para assistir ao quarteto de “jazz cigano” The Hot Norvege, brindamos à memória de nossa mãe, que teria feito 97 anos aquela noite. A trazíamos conosco, como a irmã, como irmão, como a sobrinha, como a cunhada que se foram há tão pouco. Vivos e mortos, inebriados, compartilhamos a música inspirada em Jean “Django” Reinhardt. Ele também, por certo, compareceu.

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Burgos (novembro de 2016). Foto: Antônio Siúves
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