Sei que nada sei de “Espanhas”

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Volta de Ciudad Rodrigo (Salamanca, 2016). Foto: Antônio Siúves

Margeei Cabezón de Pisuerga e, sem querer, dei um voltinha no carro de um amigo pela minúscula Aldehuela de la Bóveda, onde vivem pouco mais de 300 almas. Pegávamos a estrada para Salamanca, desde Bilbao, no primeiro caso, e para Ciudad Rodrigo, no último. Nesta viagem, passei uma manhã em Covarrubias e horas dessa tarde em Santo Domingo de Silos, vilarejos nas imediações de Burgos igualmente pequenos e despovoados.

Agora, quem sabe — sou levado a pensar —, com estes nomes de povoados e novas paisagens na mesma zona da memória onde se depositam certos traços dos nossos sonhos, no saldo da viagem, talvez eu possa afirmar: “Conheço algo deste país”. Mas não, não quero ser imodesto nem me perder na presunção.

Às goladas, em cada viagem, vou, isto sim, me resignando à sensação de que jamais poderei dizer que conheça ou compreenda bem o diverso, fabuloso e inumerável tesouro espanhol. Cheguei muito tarde a um mundo milenário.

Sei que é ingênuo atribuir ou delimitar este tesouro cultural à extensão de um “Estado espanhol”. Sapo de fora e educado em velhos costumes, não ouso questionar as crenças de quem vive neste território, com argumentos obtidos na História. A política “espanhola” já não era para amadores antes de o Brasil existir. E hoje não está para brincadeiras. Admiro os amigos que preferem a denominação “Espanhas” e querem mais autonomia para as regiões e províncias onde vivem, e respeito quem defenda o independentismo, ainda que este me pareça, quase sempre, uma ilusão, filha dos piores vícios do populismo. Simbolicamente, ao menos, convenho perfeitamente com “Las Españas” e tento aprender com aquelas que visito.

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Covarrubias (Burgos, 2016). Foto: Antônio Siúves

Sei, não obstante, que existe mais em comum entre bascos, catalães, galegos, murcianos, navarros, asturianos, andaluzes, castelhanos-leoneses e castelhanos-manchegos, aragoneses, valencianos, baleares, canários, estremenhos, riojanos, cantábricos e ceutas do que cada indivíduo de algumas dessas regiões autônomas costuma conceder. Se é um espírito, uma maneira de ser e viver ou ver o mundo, não me arrisco a dizer.

Adiantei o relato desta viagem neste e neste outro texto recentes. Amanhã pretendo continuá-lo, a (re)começar por algumas linhas sobre a comida e bares de tapas e restaurantes das tais Espanhas.

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Covarrubias (Burgos, 2016). Foto: Antônio Siúves
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