Viagem em torno de pintxos e ‘copas’

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Ciudad Rodrigo (Salamanca, 2016). Foto: Antônio Siúves

 

Peço um pincho de foie fresco a la plancha (€ 2) e um copo de Tempranillo (€ 2,30) duma garrafa de Avan, o melhor Ribera del Duero que provo então. Segundo avalia minha mulher, uma Robert Parker no tema, bebemos um tinto raro, inócuo para enxaquecosos, estes seres sem-teto no planeta Baco.

Estamos tapeando na Taberna La Favorita, em Burgos, pela segunda vez, e voltaremos amanhã para jantar. Está é a cidade do indesviável El Cid Campeador. A capa do herói mercenário esvoaça na estátua gigantesca que o representa, espada em riste sobre o ginete num imaginário campo de batalha flutuante. O monumento cobra a visão total de quem vai à praça que o homenageia, à beira do rio Arlazón. Os ossos do herói descansam na tumba da imensa La Santa Iglesia Catedral Basílica Metropolitana de Santa María, mas seu fantasma parece vigiar a cidade inteira, inclusive o denso silêncio do nosso hotel, por acaso o Mesón del Cid.

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Retomo meu copo de Avan e o pincho de foie. Sinto que estou em uma das casas mais simpáticas que pude conhecer neste país. É ampla, arejada e a um tempo jovial —denomina-se “taberna urbana”— e reverente à tradição castelhana, com indefectíveis embutidos e provisões de jamón a pender do teto. Os pernis daqui são da marca Joselito, se a informação diz algo a alguém. Um barman parece dedicar-se full time à arte de fatiar finamente os quartos de jamón fixados numa bancada própria ao ofício. Os cortes são oferecidos deliciosamente no quadro negro como NUESTRAS CHACINAS. A freguesia alvoroçada se compõe duma mistura da gente local e turistas, que se alternam no balcão (barra), à porta, nos fins de semana, e nas mesas do restaurante (salón comedor).

Na La Favorita, domingo à noite, vamos nos sentar ao lado de um casal octogenário, ainda a desfrutar a vida de uma maneira impensável para um idoso na grande maioria das cidades brasileiras. Nossos vizinhos de ceia subiram uma vez mais de Madri, onde vivem perto do abençoado parque do Retiro. Ao saber que tenho apreço por poesia, o irresistível Don, homem tipicamente ibérico, forte e compacto, depois de me censurar por ter preferido vinho branco (por sinal um Bornos, € 13 a garrafa, feito com a uva Verdejo na Rueda, em Valladolid), me dirá uns versos do grande poeta sevilhano Antonio Machado, que o alarido da conversação me impedirá de escutar. Pelas tantas e um copo a mais, nos apresentará a um cidadão britânico com ares de quem escapou dum filme dos anos 1960, a envergar um terno classudo cor de mostarda, e à sua companheira holandesa, na mesa ao lado; em seguida, também à guia japonesa, da qual, antes de chegarmos, havia igualmente se tornado amigo de infância, e quem faz as honras a um pequeno grupo de seus compatriotas a duas mesas da nossa.

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No tapeo e na restauração das Espanhas destacam-se — em uma vivência que está longe de menosprezar Barcelona e outras cidades — os bares e restaurante do Norte, como os de Bilbao ou San Sebastián. Nessa cidade basca e em seu entorno está, como se diz, e não é de hoje, a maior concentração mundial de estrelas Michelin por metro quadrado. Mas isso agora pouco me diz. Nunca fui fervoroso em matéria de comida, e me enjoei quando percebi que a gastronomia começava a ocupar o espaço dos velhos cadernos especializados em livros e filmes. Mas perdi o encanto pelo “menu degustação” formulado em laboratórios.

As tapas em Madri — penso nos bares mais manjados, como os da calle Cava Baja e da região central de Los Austrias — raramente seduzem meu paladar. Nesta viagem, aliás, andei comendo mais mal que bem nos quatro dias que lá estivemos. Bastante bem, por certo, em companhia familiar, na Taberna Los Huevos de Lucio, na mesma Cava Baja, numa noite em que nos serviram ótimas raciones e o garçom gentilmente nos apresentou a um vinho da Estremadura, que eu ignorava como região vinícola, de nome e sabor memoráveis: Habla del Silencio, a € 18 no restaurante.

Mas pude constatar que casas tradicionais como El Mollete, que só agora conheci, ou a Taberna Bola, onde voltei, vizinhas de calle em Los Austrias, já não fazem justiça ao prestígio que desfrutam em guias como Lonely Planet. É certo que restaurantes contemporâneos, bem avaliados e cotados em vários cifrões abrem-se a toda hora na capital espanhola. Agora, se você quer gastar algo em torno de € 10 em um menu, num almoço genuíno e honesto, fará muito bem se levar recomendações como as que são feitas pelo jornal El País, e se dispuser a se deslocar para alcançá-los. A cidade é muito bem servida por extensa rede de metrô, sem falar das inúmeras calles fechadas a pedestres, peatonales, um convite que me incentiva a caminhar até músculos e tendões começarem a chiar.

Pois sobram arapucas para turistas desprevenidos e, nesse passo, Madri vai se romanizando cada vez mais ou se degradando em um dos piores traços de Paris. Por preguiça e cansaço, depois de duas horas percorrendo o museu Reina Sofia, deixei-me capturar e à minha querida companhia em uma dessas trampas, na Calle de Santa Isabel, já bem perto do mercado de Antón Martín, onde comi, ou tentei comer, o pior bife com fritas com que deparei numa existência que transborda o meio século.

Trago as melhores impressões, isto sim, das tapas ou, neste caso, dos pintxos que pude provar em Bilbao, San Sebastián ou Pamplona. Meu bocado preferido atende pelo lindo nome de Gilda, originária do País Basco. Cabe num palito composto por azeitona de qualidade descaroçada, guindillas (pimentas verdes finas de um tipo local), anchova do Cantábrico e eventuais acréscimos autorais. O efeito das notas picante, oleosa e marinha combinado com um copo de Txakoli é uma celebração que me aprisionou a essa terra.

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Salamanca (quadro, 2016). Foto: Antônio Siúves

Em bares de Córdoba, Granada, Salamanca e outras tantas cidades espanholas ainda são oferecidas tapas por conta da casa a quem peça um copo de vinho. O preço da copa está entre € 1,30 e € 2,50. Conforme essa tradição, desfrutei nesta viagem de um pequeno festim dessas porções servidas no El Bambú, a uns cinquenta passos da estonteante Plaza Mayor de Salamanca. Fomos convidados ao bar e restaurante por um amigo comum, que vive em Zamora e nessa manhã de domingo estava na cidade, coincidentemente, acompanhando a mulher em uma prova de concurso público. Como bom mineiro, reverenciei em primeiro lugar as jetas, espécie de torresmo assado preparado com nacos das bochechas do animal, que são típicas desta cidade, na qual a carne de porco constitui um império.

As áreas rurais da província são tomadas por fazendas de criação do porco preto ibérico (além de touros para as corridas) e fábricas que processam seus prodigiosos pertences. Os animais se alimentam das castanhas (bellotas) que caem das encinas, árvores gorduchas que dominam a paisagem que divisamos nas estradas da região.

Depois do lindo amarelo que vibra das pedra com a qual Salamanca se ergue e distingue a província entre as Espanhas, carregam-se na memória do visitante também os vermelhos marmóreos e os alaranjados graxos dos lombos defumados, das peças inteiras e dos cortes de jamón de toda classe e da incalculável variedade de embutidos a rebrilhar nas charcutarias espalhadas pelos quatro cantos desta cidade universitária, onde o viajante passa muito bem, sim senhor.

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Verde & Amarelo (Ciudad Rodrigo, Salamanca, 2016). Foto: Antônio Siúves

Pouco antes de tomarmos um ônibus para o aeroporto de Barajas nos despedimos com um almoço de uma espécie que, creio, dificilmente ainda se possa desfrutar fora da Espanha. No menu do El Bardo, a € 12, havia meia dúzia de opções para a escolha de quatro pratos, inclusos sobremesa, água mineral, vinho mais que razoável (uma garrafa para dois), tudo preparado e servido com profissionalismo e esmero. Escolhi sopa de alho, costeleta de porco, perca do mar grelhada com verduras e torta de tiramisu. E assim garanti minha sesta numa poltrona de ônibus para despertar já nas proximidades de Segóvia, com a música ambiente letal de um pop norte-americano que faz muito sucesso na mídia popular espanhola.

Engrosso as estatísticas dos turistas estrangeiros que em 2015 despejaram 15 bilhões de euros em restaurantes e bares de tapas em todo o país. Mas não pertenço aos 14% desse contingente para quem a gastronomias é a principal motivação de uma viagem à Espanha. Os principais destinos dos estrangeiros são Catalunha, Valência e Andaluzia. Sinto-me mais afeito à onda turística interna, que se move rumo ao Norte, ao País Basco e às Astúrias, principalmente.

Retiro esses números do El País, numa sexta-feira muito fria deste novembro, enquanto tomo um café com leite fumegante num bar com vistas para o Museu Guggenheim de Bilbao, de onde retomo este relato, no próximo post.

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Plaza Mayor (Salamanca, 2016). Foto: Antônio Siúves
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