O fim do mundo desde Bilbao

Ao doutor P.J., compadre e amigo viageiro, e a J.F.,
dileto guia de Espanhas, este relato de viagem

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Jornal, café, chapéu com óculos (natureza morta). Foto: Antônio Siúves

Parei este relato sentado em um bar da Alameda de Mazarredo, em Bilbao, diante de uma xícara de café com leite e um exemplar do El País. Nesta manhã de sexta-feira a temperatura não passa dos 7 ºC e estou imerso em meu ambiente.

Jornal impresso, café e o prazer da leitura. Há algo de dolorosamente nostálgico nesse consórcio, que não posso evitar. Sei que represento um hábito, uma cultura e um mundo nos estertores. O Dicionário Houaiss define estertor como “respiração ruidosa dos moribundos”.

Mas não é incomum a presença de leitores dos diários regionais, como El Correo de Bilbao, ou La Gaceta de Salamanca, nos bares e cafés onde estive nesta viagem.

Não faltam notícias nestes dias. A vitória de Donald Trump me despertou em Madri como o estrondo dum míssil na forma do WhatsUpp disparado por um amigo de BH. Respondi como um autômato, às 8h42: “Vou encher a cara!”. A introdução do conceito de “pós-verdade” no Dicionário Oxford ajuda alguém a interpretar o patético fenômeno Trump. Menos comentada, a consecução do experimento de edição genômica pela técnica CRISPR por cientistas chineses, aplicado a um cidadão com câncer pulmonar, me provoca calafrios ao imaginar a técnica, se bem-sucedida, nas mãos de futuros possíveis Trumps do planeta. Leio o noticiário como quem ouve um coro grego pressagiar o lúgrube realinhamento da História.

Seja como for, como disse, dou testemunho de um mundo terminal, enquanto tento me adaptar ao advento do mundo novo malnascido. Oxalá tudo se endireite e o futuro dê boas-vindas aos ainda jovens e aos que vão nascer. Tempo ao tempo.

Por ora, posso apenas esperar minha mulher neste bar de Bilbao, com a ilusória consciência da história a formigar no bestunto. Ora leio uma página do meu periódico, ora olho o tantalizante Guggenheim. Tantalizante é o que encanta, o que atrai fortemente nossa atenção —  informa novamente o Houaiss.

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Entrada do museu Guggenheim de Bilbao. Foto: Antônio Siúves


Quadros na parede da memória

Entrei ontem neste museu pela terceira vez, na terceira oportunidade de passar uns dias nesta cidade, que me é sempre excitante, como são excitantes ao intelecto os diários de Iñaki Uriarte que leio sem parar desde que comprei seus três volumes (Pepitas de Calabaza Ed.) em uma livraria daqui.

Agora pude rever “meu Rothko” — assim, intimamente, penso na tela que contrapõe fundos e faixas horizontais — vermelho, amarelo, ameixa — e pertence à coleção do museu; na vez anterior, “meu Rothko” não estava na exibição do acervo. Senti muito não ter podido deixar boiar a visão nas ondulações das cores essenciais de sua pintura essencial, como procuro fazer. A fruição dessa experiência pode ser ainda mais intensa à luz precisa que incide sobre os quadros monumentais do artista entesourados na Tate Modern, em Londres.

Também visitei a principal atração da temporada, a exposição Francis Bacon – De Picasso a Velázquez. O Guggenheim estava quase vazio, em contraste admirável com as multidões do Prado.

No Prado, na terceira visita, tive que me contorcer para disputar espaços com turistas aos magotes numa sexta-feira cedo. Tentava retomar meu namoro com Las Meninas, uma piscadela que fosse, e me envolver com as pinturas fantasiosas de El Bosco, que este ano ganhou uma sala exclusiva no museu, tal o sucesso da exposição dedicada ao quinto centenário do pintor flamenco, encerrada em setembro.

francis-baconAs figuras tirantes ao róseo-azul de Bacon, retorcidas, amputadas, sempre agônicas e acerbas, inclusive no sexo, se alinham no Guggenheim num esplêndido panorama da obra. Vi cada quadro isolado e seus trípticos com a reverência que pedem, pois, se obviamente são sacrílegas, o que já não diz a ninguém coisa alguma, essas pinturas também têm, como as vejo, algo de sacro, de piedoso aos olhos de quem viveu o auge da reorientação da alma pela ciência e a psicanálise. A proposta da mostra é assentar a influência de Velázquez e Picasso na arte do pintor irlandês, morto em Madri em 1992, o que me soa correto e admirável.

Mas, volúveis como costumam ser as sensações, ao deixar o museu trazia apenas um quadro dependurado nalguma parede da mente, certa marinha (Sem título – Sea, 1953) perdida no catálogo do Bacon. Na tela vê-se um plano de areia definido pelos cortes retos do azul da rebentação, azul que enegrece e mistura-se ao torvelinho noturno para reparecer azul, acima — rima pictória ou possível aurora?, me indago hesitante.

A propósito, trago desta passagem pelo Reina Sofia, ainda em Madrid, apenas duas obras. Carrego os faiscantes laranjas, amarelos, róseos, verdes e lilases que grudam nas íris de quem se ponha diante de Os Galos (Les Coqs rouges), um André Masson pintado em 1987. E carrego a sombra do Coyote, a escultura de Louise Bourgeois feita com duas simples seções de bronze sobrepostas verticalmente.

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Pérgola do Parque Doña Casilda, Bilbao. Foto: Antônio Siúves

Nova Bilbao: o que todo mundo sabe 

Daqui a pouco, assim que R. me encontre, vamos subir até o estúdio de nosso amigo arquiteto, no sétimo piso de um edifício vizinho, de cujas janelas amplas também se pode apreciar a obra de Frank Gehry.

O Guggenheim divide com a Torre Iberdrola o panorama de fundo da nova Bilbao. Esta cidade, como todo mundo sabe, renasceu nas últimas décadas como polo mundial do turismo cultural, depois de morrer como campeã da indústria siderúrgica e naval.

Ao museu, com sua cobertura de titânio em placas retorcidas sempre a luzir, creio que ninguém ainda vá tachar de “obra futurista”, tal a diligência com que a água régia do tempo rói nossas crenças nesta era — era que também se define, não obstante, pela mais larga expectativa de vida alcançada pela humanidade, quando inclusive se enseja a superação morte. Tal é o ruído de fundo que perpassa nossos sonhos.

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Vista de Bilbao com Torre Iberdrola. Foto: Antônio Siúves

Mas, penso, o Guggenheim daqui ainda é uma visão inigualável do espírito do tempo afeito à arte e à tecnologia construtiva. Como o mais caro dos vinhos, sorvo a visão de seus recantos, de seus recortes, como enormes refolhos pulsantes, que avisto ao descer a pé uma das vias do Centro que me levam até lá. Essas angulações são ainda mais bonitas ao cair da tarde.

Vejo o museu como um marco cultural em permanente tensão, a refletir o orgulho de uma civilização por seu trabalho, sua riqueza e humanidade.

O Guggenheim atrai milhares de turistas a Bilbao, que tomam o centro histórico do outro lado rio Nervión (casco antiguo) nos fins de semana e perturbam muita gente aqui.

Mas sua existência, creio, já está apaziguada e, quem sabe, plenamente incorporada à vida local em quase duas décadas de existência, a se completar em outubro de 2017.

Já esta onivisível Torre Iberdrola, do argentino César Pelli, é isto, outro arranha-céu moderno, inaugurado em 2012. Da altura de seus 165 metros e mesmo em sua fixidez, a obra me lembra um modelo esguio a desfilar initerruptamente na passarela da arrojada e bilionária nova arquitetura.

Um trago de Txakoli e um brinde às gaivotas

Hoje volta a chover em Bilbao, depois de milagrosos três dias de sol. Ontem, à luz plena, desfrutamos o ar puro e fresco da manhã no Parque Doña Casilda, ao lado do Museu de Belas Artes, mais conhecido pela gente local simplesmente como parque dos patos. Não revisitei o rico museu que exibe obras de referência e de criadores de País Basco, como os modernistas Jorge Oteiza e Eduardo Chillida  — este, autor do Peine de Viento, escultura ancorada em uma rocha marinha na vizinha San Sebastián.  Mas foi delicioso reencontrar redivivas as árvores do parque, ainda que no dúbio esplendor do outono — em contrate com a hibernação nua e o aguaceiro invernal que me receberam em 2015.

Dentro de hora e meia, tomaremos a estrada toda em curvas na direção da costa ocidental de Bizkaia, onde mais se fala a língua nacional de raiz desconhecida, o euskera.

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San Juan de Gaztelugatxe. Foto: Antônio Siúves

Nossa primeira parada, então, é o museu Txakolingunea, em Bakio, onde aprendo algo sobre o Txakoli, este vinho que tanto estimo e cuja existência ainda é pouco sabida além do País Basco e de terras da Cantábria e região de Burgos, ontem também é feito. Na Espanha, fica longe no ranking dos brancos secos mais consumidos.

A guia me surpreende quando diz que existe uma rara produção de Txakoli tinto. Mesmo o branco é produzido em pequena escala, com uma exportação diminuta para os Estados Unidos, depois da bênção conferida pelo papa Robert Parker. Pergunto-lhe se é certo escançar ou escancear este vinho, como se faz com a sidra nas Astúrias, e como me foi servido em um bar de Madri, para minha surpresa. Não, não se deve absolutamente dar tal serviço apenas por que há bobulhas no vinho, pela mesma razão, ela diz, que não se recomenda encancear champanha.

A baixa insolação nestas montanhas, o rigor do frio e as chuvas fazem do Txakoli um vinho da persistência de quem labuta com uvas autóctones e logra transmitir o sabor da terra a uma bebida tão singular.

Depois de uma prova (cata) de Txakoli, percorremos um pouco mais de estrada até o miradouro onde se avista o promontório de San Juan de Gaztelugatxe, ligado ao continente por uma ponte construída sobre rochas marinhas.

A chuva não nos permite descer e galgar os 241 degraus que levam à ermida dedicada ao santo, sítio de peregrinação de turistas e homens do mar, onde também se celebram muitos casórios por aqui, diz minha cunhada. Dias depois, no voo de volta, poderei rever o lugar em uma sequência do longa-metragem Gernika.

Prosa com homens do mar em Bermeo

De Bakio tocamos para Bermeo, distante uns cinco quilômetros. Ao descer do carro me dão boas vindas adoráveis gaivotas, a fazer a ronda do porto. Tenho vontade de propor um brinde de Txakoli a essas aves tão ousadas e marcantes. Penso que um dia frio e chuvoso de outono como este lhes é tão alegre e agradável quanto benéfico ao autor deste mal-batucado relato de viagem.

J.F., o amigo arquiteto, puxa papo com dois pescadores aposentados que caminham pelo molhe em nossa direção.  Invejo o vigor do aperto de mão de um deles, baixo e compacto. Há tempos, li não sei onde que o cumprimento do tipo quebra-mão é excelente sinal de longevidade. O homem nos conta saudoso que atracou em portos do Nordeste brasileiro, que ele enumera, e pescou lagostas na costa de Niterói. Também reclama, sem poupar impropérios, que hoje é obrigado a manter filha e netos em sua casa nesta vila. Seus planos de se mudar para Zamora ou Zaragoza, não entendo bem, e gozar uma aposentadoria mais folgada foram por água abaixo.

Sob uma garoinha, damos uma volta pelo Puerto Viejo e subimos à Torre Ercilla, construção do final do século XV que abriga o Museu do Pescador. No pequeno pátio em frente à torre nos detêm três estátuas de bronze em tamanho natural. Um homem da mais pura estirpe basca tem o braço direito e o indicador erguidos, a apontar o mar. Logo atrás dele postam-se para a eternidade uma mulher com bebê no colo e uma criança, desconsoladas.

Tiro algumas fotografias quando já anoitece. Hora de puxar o carro, o amigo bilbaíno tem aulas de violão daqui a pouco.

Amanhã, sábado, desceremos pela manhã as serras da cordilheira cantábrica antes de encontrar a planura deslizante e os céus anchos da meseta, rumo a Salamanca.

(Fim de relato.)

As outras partes deste relato de viagem são, em ordem cronológica:

 

 

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Museu do Txakoli, Bakio, Bizkaia. Foto: Antônio Siúves

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Um comentário sobre “O fim do mundo desde Bilbao

  1. Compadre. Somos do século em que fomos jovens. É fato. Tem lá suas vantagens. Uma delas é deixar o texto cibernético do amigo guardado em uma posta-restante virtual sem me ver obrigado a “curti-lo” de pronto. Até porque comecei a lê-lo na semana passada e, diante de outras obrigações que me assoberbaram nos últimos dias,me senti aflito para terminá-lo.
    Como se pudesse degustar um single malt 30years ou um Rioja gran reserva em uma talagada só!
    Que nada! Hoje comecei a sorvê-lo em pequenos goles, com
    direito a perscrutar todos os hyperlinks.
    Que prazer!

    Curtido por 1 pessoa

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