Réquiem para um mundo moribundo

[Texto originalmente publicado na revista cultural Inclusive.com nº1.]


Ninguém assistiu ao formidável enterro da minha última quimera. Minha última quimera foi tentar honrar um mundo que se partiu — e dá os suspiros finais. Com tal mundo morrem os livros e a literatura, o cinema e a música de certa extração. Morrem a arte como razão de viver e a ideia transcendente da beleza, herdeira da religião. Morre a imprensa e com a imprensa morre o papel de certo jornalismo na Democracia. Nasce a pós-verdade.

Nasce o mundo dos dispositivos digitais e das redes sociais. Eis o mundo da razão tecnológica, da hiper-higienização da vida e da expectativa de vida eterna por meio da inteligência artificial, como prega o profeta Raymond Kurzweil, engenheiro da Google. Se a um mundo correspondem uma cultura e uma moral — certas formas de viver —, entramos no milênio da satisfação individual e da cultura do narcisismo.

Imagino uma festa de finados à mexicana. Há música, bebida e foguetório. Desfilam na multidão as caveiras de Machado, de Thomas Mann, de Marcel Proust e todo um cânone ocidental. Ao lado delas dançam caveiras de Fellini, de Bergman, de Hitchcock e companhia. Esqueletos levam estandartes com reproduções de Bosch, Rafael, Velázques, a sumir de vista. Na tela celestial passam ao mesmo tempo Dançando na Chuva, La Dolce Vita e Terra em Transe. A trilha sonora tem Schubert, jazz e MPB defunta. Toda uma fantasmagoria pululante. Ainda que mortos, todos esses criadores viviam em suas obras, que ora também revertem todas ao pó.

Existe a sensação de que o romance do século 19 é hoje domínio da TV, diz Mario Vargas Llosa.  A nova literatura explora a própria literatura ou busca o modelo kafkiano e a autoficção, como o grande W. G. Sebald. O romance como gênero balzaquiano definitivamente foi para o brejo. Seja como for, o livro deixou de ser parte decisiva na conformação do eu. Perdeu a centralidade na educação dos sentidos. O Facebook e o Instagram definem melhor nossos elos espirituais nesta alvorada do mundo novo.

O que chamávamos cinema de autor finou-se. As séries e minisséries de TV, algumas de excelência como The Wire, Boardwalk Empire ou Wallander, são sucedâneas do grande cinema hollywoodiano e europeu.

A arte extrapolou a matriz do urinol de Duchamp para franquear um jardim de infância perene em feiura, obscurantismo e demagogia. A caveira cravejada de diamantes e o tubarão no formol do bilionário Damien Hirst são ícones supremos dessa nova ordem.  No legado já dilatado no tempo do “contemporâneo”, a linguagem cifrada dos curadores impõe às plateias de cinco a 90 anos a construção de narrativas próprias sobre o espaço povoado por jogos pueris e sandices imaginativas.

A nova música é utilitária e funcional, como disposta nos cardápios do Spotify. O negócio não é mais ouvir com reverência e compartir com amigos um disco de Coltrane. É acumular terabytes de música nas nuvens. Nas pilhas digitais, pouco importa quem canta, toca ou compõe. O negócio é o benefício, a “entrega”, por assim dizer, dos aplicativos de streaming. Entre nós, a MPB e seus antecessores foram destronados pelo chorume das ideologias do politicamente correto, onde qualquer “punqui” ou “funqui” (a bênção, Ariano Suassuna) vale tanto quanto o legado de Pixinguinha, Caymmi ou Chico Buarque.

Enquanto puder, vou reler Machado, ouvir Jobim e rever as salas de Goya no Prado, ainda que a vida siga e voe. Pois mesmo a experiência de alguém sentar-se num café e ler um jornal impresso torna-se essencialmente nostálgica, uma espécie literal de natureza-morta na forma de happening solitário. Hoje se compartem memes e vídeos como se compartiam leituras e discos numa roda de bar.  Fazer o quê?

Não queria chorar o leite derramado, apenas honrar um mundo moribundo. O mundo que nasce faz e anda para o mundo decrépito. E o réquiem já era.

Que o mundo novo possa dar à luz uma nova arte verdadeira, forjada na aridez do silício e acima ou abaixo da cacofonia tribal das redes sociais, para tornar a vida mais suportável aos que vão nascer.

Futuros historiadores da cultura, com as lentes distorcidas e frias do tempo, vão se encarregar dos funerais do mundo arruinado. Nada dirão na academia sobre minha última quimera. Pois meu réquiem que se dane. Ainda me resta ouvir João Gilberto, a esperar baixar o pano — ou descer um índio duma estrela brilhante.

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3 comentários em “Réquiem para um mundo moribundo

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