Rir para viver

Acho graça de quem vive a conclamar seus semelhantes à vida “leve”, essa pregação Peri-Ceci de psicologia pueril, tão ao gosto dos anúncios de bancos e jipes. Seus cometedores, carentes de qualquer sentido de humor ou ironia, lembram crianças tentando ensinar adultos a usar o peniquinho.

A vida não precisa ser Mito de Sísifo ou tragédia grega, como a pintam certos filósofos. Em um de seus aforismos, Emil Cioran chega a dizer que a vida é “esse mau gosto da matéria”. Isso não, né? Mas viver não é abobrinha.

E rir, claro, é decisivo. Mas rir para valer, com espírito, conforme o conselho de Tomás de Aquino em “ludus est necessarius ad conversationem humanae vitae”, que traduzo pobre e livremente como o humor é imprescindível para se levar (e suportar) a vida.

Distingui-se, como todo mundo sabe, o humor da ironia mas, Senhor, livrai-nos do humor rasteiro que move a vida ordinária nas redes sociais, da mixórdia de futebol, sexismo, escatologia e tatibitate pseudoafetuoso. Amém.

A onda hilária que se espraia no WhatsApp parece refletir, por caminhos tortos, o sentido original do humor na medicina na Grécia antiga. A palavra era associada aos quatro fluidos corporais (humores) e à saúde física e mental: sangue, fleuma, bílis amarela e bílis negra. Isso não deixa de ser irônico.

A ironia demanda compreensão, depende da inteligência e da cultura. É um riso estético, como alguém disse. Talvez por isso nada que seja irônico faça sentido a tanta gente em nossa era de consumismo vulgar e filistinismo arrogante.

O crítico literário Harold Bloom, grande estudioso do assunto, põe Machado de Assis na turma dos “ironistas trágicos”, entre Flaubert, Borges e Calvino. O Brás Cubas machadiano, por sinal, é uma das mais altas e belas lições de ironia que conheço.

Já o humor pode ser um guia existencial. Invejo amigos que possuem o dom do humor, a ponto de pautar suas vidas pelo riso. São, como os vejo, capazes de imitar o “Olimpo no coração”, como na ode de Ricardo Reis, de olhar obliquamente para a desdita, e de saber aproveitar cada momento livre perto de quem amam. Deixam “a dor nas aras como ex-votos aos deuses”; “veem de longe a vida” e “nunca a interrogam”, como nos versos de “Segue o Teu Destino”.

Acontece que essa inclinação, para o bem e para o mal, tem o efeito adverso de passar longe do siso do sublime. O Dicionário Oxford de Literatura Clássica diz que a sublimidade representa a elevação das ideias: “é o eco da grandeza do espírito”. Mas haverá lugar para o sublime neste mundo careta?

Trouxe de minha viagem mais recente à Espanha os três volumes dos Diários de Iñaki Uriarte. O cara é um tipo bon vivant, que se orgulha de jamais ter trabalhado na vida e de se manter com a renda de uma herança imobiliária. Li e releio seus livros sem parar. Em um apontamento reluzente, Uriarte registra a rejeição a um amigo que lhe diz incapaz de “admirar-se” com o que o quer que seja. Traduzo como ele conclui a nota:

(…) Tampouco suporto aquela outra quando me diz que tal romance, conto ou filme “é sublime”. Já não podemos empregar essa palavra, a não ser para dizermos “esta purrusalda [receita basca de bacalhau] está sublime”. É verdade que ela é uma pessoa com pouco sentido de humor e, como disse já não lembro quem, “o humor é o contrário do sublime”.

 Uma das coisas que mais me fizeram rir na vida foi ler o comentário muito solene de M. Prudhomme, o personagem de [Henry] Monnier, quando viu o mar pela primeira vez: “— Tal quantidade de água beira o ridículo”.

Então, ao reler o trecho uma dúzia de vezes, às gargalhadas, me ocorreu dizer no embalo, e diante de certos enunciados, digamos, da astrofísica, como seja o de que há mais estrelas no Universo que grãos de areia na Terra: — Tal quantidade de sóis beira o ridículo!

Mas, não, ainda não atingi tais píncaros da ironia (ou do cinismo). Ainda sou capaz de me deleitar com as “Canções Praieiras” de Caymmi e seu canto que parece se alinhar às altas esferas; “O mar/ quando quebra na praia/ é bonito/ é bonito…”. Aí está toda sublimidade de que preciso nesta quadra da vida.


Este texto foi publicado originalmente na revista cultural Inclusive.com.

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