#Figurinhas

Ned: a canção da mamãe

ned3

Mamãe era de brincadeiras.

Desde o café com o bolo de fubá em brasa para fundir a manteiga, mandava-nos à vida ao som da canção que compusera e, também, arranjara a execução.

Nada de fanfarra triunfal ou bordão de tambor para reger remador na galé, muito, muito menos, miados de violinos para justificar a gagueira, que haveríamos de ter, ao entoá-la no contratempo.

Era uma peça bem modulada, tal que o labor, em dó maior, era a clave.

Alguns compassos à frente e o tempo fechava, então vinha nuvem chumbo e, quando caía a chuva, tome lá menor com nona de dó, só para suceder o estio, a clareza,

ao ascender o naipe de metais que irrompia sobre a ladainha e rebentava no azul,

em sol sustenido maior, sim senhor.

Alexa: cintura sex

alexaaa

Por aquela época não era uma cintura talhada pela evolução, ele dizia; eu tinha uma cintura de seixo.

Ele solista eu jazz, muita vez em sets de lua sem sair à porta ou trocar lençóis.

Ele e minha cintura. Por trás, não sei como, via um ar, uma terra grácil.

E pelo ar me levava, erguia quase boneca de pé me trazia então de cima assim;

De frente, antes de se inclinar ele vinha depois se contorcia como quem sofre no fim e beijava, por aquela época.

Bel: Everything is clear in my heart 

bell

Não havia Insta nem Face. A carta que Bel aguardava veio numa tarde quente dos anos 1970, ela relembra agora até do grito do carteiro.

É que na playlist de 350 músicas tocou ao léu Oh my love, for the first time in my life / My eyes can see.

A melodia fez disparar uma trilha neuronal. O gatilho dos neurotransmissores reatou a música àquela tarde em que Bel recebia a carta e ouvia Lennon no som. O mecanismo é comum às criaturas, da lesma-do-mar a Darwin.

Uma placa amiloide, qual erva de passarinho, ainda não me cobriu essa minha trilha na telha, Bel pensou, e riu ao ouvir I see the wind/ Oh, I see the trees/ Everything is clear in my heart.

 

Angel no mínimo de si

Me lembro das pintas de sangue no dorso da joaninha sobre meus pés descalços, eu à sombra da pitangueira avermelhada de frutas pensas, ainda naquele semitom coral onde começam a se armar em doçura.

A cor vermelha me atraía para além daquele dia que amanhecera entre o azul e laranjal, e eu desejava corresponder à simplicidade da joaninha,

ser o bichinho que deveras deveria ser, sem, a cada dia, pagar ao tempo que escorre outra prestação inútil, e me desencadear de você, e me apartar do rebanho

que se pavoneia, me exilar da colmeia e do seu zunzum patético, e ser o mínimo de mim, e me deixar fluir no desvio vermelho do dorso da joaninha.

Lu sonhou adeus

Dream

Lu sonhou adeus.

Estava com um velho amigo e fala: — Posso dar adeus também a Tom?

O amigo liga e dá o celular à moça. Lu diz: — Tom?

Sem resposta.

Lu passa ao lado da veneziana da casa ou do apartamento de Tom e vê Maria Alcina diante da pia da cozinha coando café. Ele está em casa ou no apartamento, deduz.

Agora desce uma escadaria e chega à rua em Gênova. Está em frente à vitrine de vidro nua da galeria.

Logo aparece Elke Maravilha, a gargalhar. 

Elke tem um spray de grafite na mão e começa a pintar no vidro o retrato de Tom.

Sil, se lembra da Vó Irina

Irina1

Sil, se lembra da vó Irina, 96 anos de vida como uma semideusa cética?”

“Uma semana antes de bater as tamancas esbanjava energia intelectual e força para viajar o mundo, dar palestras, receber homenagens. Os jovens seus contemporâneo tinham amado seus romances que pregavam o amor livre, a cartilha pré-feminista e, durante um tempo, a anarquia.”

“Morreu de quê?”

“Dormiu, morreu.”

“Mas como era sua avó, no seu jeito, no trato com toda a gente?”

“Ela tinha um jeito muito próprio dela de expressar sua descrença, exceto uma espécie de fé irracional na beleza. Falava baixinho, serenamente, com uma voz a um tempo rouquenha e grave. E era muito desbocada.”

“Ela gostava de falar, né?”

“Gostava. Conversava com todo mundo e me dizia assim, ah, essa menina, esta vida é uma miséria, ouviu, não vale merda nenhuma, veja se vive, ouviu? Não perca seu tempo em salamaleques. Veja se vive. A burrice é hegemônica, tenha isso em conta. Não seja tola feito sua mãe. E estude o que for bonito, estude como se pudesse extirpar a burrice e tudo que é filisteu do mundo. É claro que não vai conseguir, mas deixe sua obra de amor ao que é belo, uma praga contra a feiura e a vulgaridade. A vida é uma merda, veja se vive.”

Tia Selma

Tia Meg

Aos ontens e os seus substratos e ao agorinha enleados na memória chamamos vida.

Se os choramos ou celebramos, se somos bem-sucedidos ou malsucedidos no afã de tentar acomodá-los, ou sepultá-los, apenas para depositar novos antes de ontem, outros ontens e agorinhas, se somos videntes caçadores de ontens entesourados no amanhã e nos depois deste amanhã, isso define quem somos e mais ou menos explica a humanidade de cada um de nós.

O amor é revivescente, disse Proust, e disso se lembrou tia Selma num momento de sossego que sucedeu dias de aflição e tortura pela agonia de Renato, ao recordar serenamente uma tarde em que saíra às compras com as amigas Iris e Val, na galeria beira-rio, e, cheias de embrulhos coloridos, sentaram-se na confeitaria Estrada para lanchar e planejar a festa que haveria, entre goles de chá e sorrisos.


 

[Aos leitores: este jornal roga ao visitante do blog que tenha considerado esta página interessante: se manifeste por meio dos botões de compartilhamento ou na área de comentário. Qualquer alô, crítica ou avaliação serão sempre muito bem-vindos. Obrigado! (0805/2017)]

Anúncios