Uma pequena grande série

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Celeste (Nicole Kidman), Jane (Shailene Woodley) e Madeline (Reese Witherspoon) em Big Little Lies. Imagem da HBO
  • Os homens de Big Little Lies (HBO) oscilam entre a imbecilidade e a psicopatia. Já as crianças estão perfeitas. A minissérie é coisa de mulher. Mas o viés feminista não lhe tira a força, a graça e o frescor, ao contrário.
  • A adaptação para a TV do livro homônimo de Liane Moriarty, por David E. Kelley, tem sete episódios muito bem rodados e resolvidos.
  • Pequenas Grandes Mentiras foi lançado no Brasil pela Intrínseca.
  • A história sobre abuso sexual e neuras, que neuras!, de famílias ricas com seus casamentos e filhos é levada em luminosas locações de Monterey (Califórnia), com realismo comedido. A trilha musical faz bem seu papel.
  • Fim. O sucesso trouxe a conversa de uma segunda temporada. Seria um fracasso óbvio.
  • A mulherada dá um banho, tanto mais o núcleo formado por Madeline (Reese Witherspoon), Celeste (Nicole Kidman) e Jane (Shailene Woodley).
  • O último capítulo mostra a que vieram as senhoras, com andamento, montagem e tomadas do melhor cinema americano.
  • O aparato tecnológico de Hollywood, seus melhores roteiristas e elencos migraram para a TV, não custa redizer.
  • Big Little Lies é uma pequena grande série, ou minissérie, entre as melhores já feitas.
  • Como adaptação literária, é quase tão boa quanto Olive Kitteridge. Para dar uma nota, 7,5/10.

 

[Este jornal roga ao visitante do blog que tenha considerado esta página interessante, útil ou relevante: se manifeste por meio dos botões de compartilhamento ou na área de comentário. Qualquer alô, crítica ou avaliação serão sempre muito bem-vindos. Obrigado! (04/05/2017)]

Rir para viver

Acho graça de quem vive a conclamar seus semelhantes à vida “leve”, essa pregação Peri-Ceci de psicologia pueril, tão ao gosto dos anúncios de bancos e jipes. Seus cometedores, carentes de qualquer sentido de humor ou ironia, lembram crianças tentando ensinar adultos a usar o peniquinho.

A vida não precisa ser Mito de Sísifo ou tragédia grega, como a pintam certos filósofos. Em um de seus aforismos, Emil Cioran chega a dizer que a vida é “esse mau gosto da matéria”. Isso não, né? Mas viver não é abobrinha.

E rir, claro, é decisivo. Mas rir para valer, com espírito, conforme o conselho de Tomás de Aquino em “ludus est necessarius ad conversationem humanae vitae”, que traduzo pobre e livremente como o humor é imprescindível para se levar (e suportar) a vida.

Distingui-se, como todo mundo sabe, o humor da ironia mas, Senhor, livrai-nos do humor rasteiro que move a vida ordinária nas redes sociais, da mixórdia de futebol, sexismo, escatologia e tatibitate pseudoafetuoso. Amém.

A onda hilária que se espraia no WhatsApp parece refletir, por caminhos tortos, o sentido original do humor na medicina na Grécia antiga. A palavra era associada aos quatro fluidos corporais (humores) e à saúde física e mental: sangue, fleuma, bílis amarela e bílis negra. Isso não deixa de ser irônico.

A ironia demanda compreensão, depende da inteligência e da cultura. É um riso estético, como alguém disse. Talvez por isso nada que seja irônico faça sentido a tanta gente em nossa era de consumismo vulgar e filistinismo arrogante.

O crítico literário Harold Bloom, grande estudioso do assunto, põe Machado de Assis na turma dos “ironistas trágicos”, entre Flaubert, Borges e Calvino. O Brás Cubas machadiano, por sinal, é uma das mais altas e belas lições de ironia que conheço.

Já o humor pode ser um guia existencial. Invejo amigos que possuem o dom do humor, a ponto de pautar suas vidas pelo riso. São, como os vejo, capazes de imitar o “Olimpo no coração”, como na ode de Ricardo Reis, de olhar obliquamente para a desdita, e de saber aproveitar cada momento livre perto de quem amam. Deixam “a dor nas aras como ex-votos aos deuses”; “veem de longe a vida” e “nunca a interrogam”, como nos versos de “Segue o Teu Destino”.

Acontece que essa inclinação, para o bem e para o mal, tem o efeito adverso de passar longe do siso do sublime. O Dicionário Oxford de Literatura Clássica diz que a sublimidade representa a elevação das ideias: “é o eco da grandeza do espírito”. Mas haverá lugar para o sublime neste mundo careta?

Trouxe de minha viagem mais recente à Espanha os três volumes dos Diários de Iñaki Uriarte. O cara é um tipo bon vivant, que se orgulha de jamais ter trabalhado na vida e de se manter com a renda de uma herança imobiliária. Li e releio seus livros sem parar. Em um apontamento reluzente, Uriarte registra a rejeição a um amigo que lhe diz incapaz de “admirar-se” com o que o quer que seja. Traduzo como ele conclui a nota:

(…) Tampouco suporto aquela outra quando me diz que tal romance, conto ou filme “é sublime”. Já não podemos empregar essa palavra, a não ser para dizermos “esta purrusalda [receita basca de bacalhau] está sublime”. É verdade que ela é uma pessoa com pouco sentido de humor e, como disse já não lembro quem, “o humor é o contrário do sublime”.

 Uma das coisas que mais me fizeram rir na vida foi ler o comentário muito solene de M. Prudhomme, o personagem de [Henry] Monnier, quando viu o mar pela primeira vez: “— Tal quantidade de água beira o ridículo”.

Então, ao reler o trecho uma dúzia de vezes, às gargalhadas, me ocorreu dizer no embalo, e diante de certos enunciados, digamos, da astrofísica, como seja o de que há mais estrelas no Universo que grãos de areia na Terra: — Tal quantidade de sóis beira o ridículo!

Mas, não, ainda não atingi tais píncaros da ironia (ou do cinismo). Ainda sou capaz de me deleitar com as “Canções Praieiras” de Caymmi e seu canto que parece se alinhar às altas esferas; “O mar/ quando quebra na praia/ é bonito/ é bonito…”. Aí está toda sublimidade de que preciso nesta quadra da vida.


Este texto foi publicado originalmente na revista cultural Inclusive.com.

Um upper de Lorca

Leio Federico García Lorca sem pressa. Sou um leitor de poesia erradio. Meu pretexto agora para voltar ao poeta é saber que era um dos ídolos de Leonard Cohen. Está no artigo de David Remnick sobre Cohen na The New Yorker que comentei neste jornal e a Piauí deste mês traduz.

Ao pescar nas águas do Spotify fisguei Poetas en Nueva York, álbum lançado há quase 31 anos em homenagem à coletânea de Lorca Poeta en Nueva York. É Cohen quem abre o disco com Take This Waltz, na própria versão em inglês de Huida de Nueva York / Dos valses hacia la civilización. Chico Buarque e Fagner aparecem no LP na faixa La Aurora, em tradução de Ferreira Gullar.

Então retomei  minha antologia, organizada por Ernesto Sábato.

Ao bispar o poema Ciudad sin sueño (Nocturno del Brooklyn Bridge), encontrei estes versos, potentes como o upper de Muhammad, que preencheram meu dia:

(…) y el niño que enterraron esta mañana lloraba tanto
que hubo necesidad de llamar a los perros para que callase.

Em português, algo assim:

(…) e o menino que enterraram esta manhã chorava tanto
que foi preciso chamar os cães para fazê-lo calar.

Em inglês, por Bem Bellit e música do inglês Donovan no disco Poetas en Nueva York:

(…) and that boy they buried this morning cried so much
it was necessary to call out the dogs to keep him quiet.

 

Réquiem para um mundo moribundo

[Texto originalmente publicado na revista cultural Inclusive.com nº1.]


Ninguém assistiu ao formidável enterro da minha última quimera. Minha última quimera foi tentar honrar um mundo que se partiu — e dá os suspiros finais. Com tal mundo morrem os livros e a literatura, o cinema e a música de certa extração. Morrem a arte como razão de viver e a ideia transcendente da beleza, herdeira da religião. Morre a imprensa e com a imprensa morre o papel de certo jornalismo na Democracia. Nasce a pós-verdade.

Nasce o mundo dos dispositivos digitais e das redes sociais. Eis o mundo da razão tecnológica, da hiper-higienização da vida e da expectativa de vida eterna por meio da inteligência artificial, como prega o profeta Raymond Kurzweil, engenheiro da Google. Se a um mundo correspondem uma cultura e uma moral — certas formas de viver —, entramos no milênio da satisfação individual e da cultura do narcisismo.

Imagino uma festa de finados à mexicana. Há música, bebida e foguetório. Desfilam na multidão as caveiras de Machado, de Thomas Mann, de Marcel Proust e todo um cânone ocidental. Ao lado delas dançam caveiras de Fellini, de Bergman, de Hitchcock e companhia. Esqueletos levam estandartes com reproduções de Bosch, Rafael, Velázques, a sumir de vista. Na tela celestial passam ao mesmo tempo Dançando na Chuva, La Dolce Vita e Terra em Transe. A trilha sonora tem Schubert, jazz e MPB defunta. Toda uma fantasmagoria pululante. Ainda que mortos, todos esses criadores viviam em suas obras, que ora também revertem todas ao pó.

Existe a sensação de que o romance do século 19 é hoje domínio da TV, diz Mario Vargas Llosa.  A nova literatura explora a própria literatura ou busca o modelo kafkiano e a autoficção, como o grande W. G. Sebald. O romance como gênero balzaquiano definitivamente foi para o brejo. Seja como for, o livro deixou de ser parte decisiva na conformação do eu. Perdeu a centralidade na educação dos sentidos. O Facebook e o Instagram definem melhor nossos elos espirituais nesta alvorada do mundo novo.

O que chamávamos cinema de autor finou-se. As séries e minisséries de TV, algumas de excelência como The Wire, Boardwalk Empire ou Wallander, são sucedâneas do grande cinema hollywoodiano e europeu.

A arte extrapolou a matriz do urinol de Duchamp para franquear um jardim de infância perene em feiura, obscurantismo e demagogia. A caveira cravejada de diamantes e o tubarão no formol do bilionário Damien Hirst são ícones supremos dessa nova ordem.  No legado já dilatado no tempo do “contemporâneo”, a linguagem cifrada dos curadores impõe às plateias de cinco a 90 anos a construção de narrativas próprias sobre o espaço povoado por jogos pueris e sandices imaginativas.

A nova música é utilitária e funcional, como disposta nos cardápios do Spotify. O negócio não é mais ouvir com reverência e compartir com amigos um disco de Coltrane. É acumular terabytes de música nas nuvens. Nas pilhas digitais, pouco importa quem canta, toca ou compõe. O negócio é o benefício, a “entrega”, por assim dizer, dos aplicativos de streaming. Entre nós, a MPB e seus antecessores foram destronados pelo chorume das ideologias do politicamente correto, onde qualquer “punqui” ou “funqui” (a bênção, Ariano Suassuna) vale tanto quanto o legado de Pixinguinha, Caymmi ou Chico Buarque.

Enquanto puder, vou reler Machado, ouvir Jobim e rever as salas de Goya no Prado, ainda que a vida siga e voe. Pois mesmo a experiência de alguém sentar-se num café e ler um jornal impresso torna-se essencialmente nostálgica, uma espécie literal de natureza-morta na forma de happening solitário. Hoje se compartem memes e vídeos como se compartiam leituras e discos numa roda de bar.  Fazer o quê?

Não queria chorar o leite derramado, apenas honrar um mundo moribundo. O mundo que nasce faz e anda para o mundo decrépito. E o réquiem já era.

Que o mundo novo possa dar à luz uma nova arte verdadeira, forjada na aridez do silício e acima ou abaixo da cacofonia tribal das redes sociais, para tornar a vida mais suportável aos que vão nascer.

Futuros historiadores da cultura, com as lentes distorcidas e frias do tempo, vão se encarregar dos funerais do mundo arruinado. Nada dirão na academia sobre minha última quimera. Pois meu réquiem que se dane. Ainda me resta ouvir João Gilberto, a esperar baixar o pano — ou descer um índio duma estrela brilhante.

O fim do mundo desde Bilbao

Ao doutor P.J., compadre e amigo viageiro, e a J.F.,
dileto guia de Espanhas, este relato de viagem

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Jornal, café, chapéu com óculos (natureza morta). Foto: Antônio Siúves

Parei este relato sentado em um bar da Alameda de Mazarredo, em Bilbao, diante de uma xícara de café com leite e um exemplar do El País. Nesta manhã de sexta-feira a temperatura não passa dos 7 ºC e estou imerso em meu ambiente.

Jornal impresso, café e o prazer da leitura. Há algo de dolorosamente nostálgico nesse consórcio, que não posso evitar. Sei que represento um hábito, uma cultura e um mundo nos estertores. O Dicionário Houaiss define estertor como “respiração ruidosa dos moribundos”.

Mas não é incomum a presença de leitores dos diários regionais, como El Correo de Bilbao, ou La Gaceta de Salamanca, nos bares e cafés onde estive nesta viagem.

Não faltam notícias nestes dias. A vitória de Donald Trump me despertou em Madri como o estrondo dum míssil na forma do WhatsUpp disparado por um amigo de BH. Respondi como um autômato, às 8h42: “Vou encher a cara!”. A introdução do conceito de “pós-verdade” no Dicionário Oxford ajuda alguém a interpretar o patético fenômeno Trump. Menos comentada, a consecução do experimento de edição genômica pela técnica CRISPR por cientistas chineses, aplicado a um cidadão com câncer pulmonar, me provoca calafrios ao imaginar a técnica, se bem-sucedida, nas mãos de futuros possíveis Trumps do planeta. Leio o noticiário como quem ouve um coro grego pressagiar o lúgrube realinhamento da História.

Seja como for, como disse, dou testemunho de um mundo terminal, enquanto tento me adaptar ao advento do mundo novo malnascido. Oxalá tudo se endireite e o futuro dê boas-vindas aos ainda jovens e aos que vão nascer. Tempo ao tempo.

Por ora, posso apenas esperar minha mulher neste bar de Bilbao, com a ilusória consciência da história a formigar no bestunto. Ora leio uma página do meu periódico, ora olho o tantalizante Guggenheim. Tantalizante é o que encanta, o que atrai fortemente nossa atenção —  informa novamente o Houaiss.

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Entrada do museu Guggenheim de Bilbao. Foto: Antônio Siúves


Quadros na parede da memória

Entrei ontem neste museu pela terceira vez, na terceira oportunidade de passar uns dias nesta cidade, que me é sempre excitante, como são excitantes ao intelecto os diários de Iñaki Uriarte que leio sem parar desde que comprei seus três volumes (Pepitas de Calabaza Ed.) em uma livraria daqui.

Agora pude rever “meu Rothko” — assim, intimamente, penso na tela que contrapõe fundos e faixas horizontais — vermelho, amarelo, ameixa — e pertence à coleção do museu; na vez anterior, “meu Rothko” não estava na exibição do acervo. Senti muito não ter podido deixar boiar a visão nas ondulações das cores essenciais de sua pintura essencial, como procuro fazer. A fruição dessa experiência pode ser ainda mais intensa à luz precisa que incide sobre os quadros monumentais do artista entesourados na Tate Modern, em Londres.

Também visitei a principal atração da temporada, a exposição Francis Bacon – De Picasso a Velázquez. O Guggenheim estava quase vazio, em contraste admirável com as multidões do Prado.

No Prado, na terceira visita, tive que me contorcer para disputar espaços com turistas aos magotes numa sexta-feira cedo. Tentava retomar meu namoro com Las Meninas, uma piscadela que fosse, e me envolver com as pinturas fantasiosas de El Bosco, que este ano ganhou uma sala exclusiva no museu, tal o sucesso da exposição dedicada ao quinto centenário do pintor flamenco, encerrada em setembro.

francis-baconAs figuras tirantes ao róseo-azul de Bacon, retorcidas, amputadas, sempre agônicas e acerbas, inclusive no sexo, se alinham no Guggenheim num esplêndido panorama da obra. Vi cada quadro isolado e seus trípticos com a reverência que pedem, pois, se obviamente são sacrílegas, o que já não diz a ninguém coisa alguma, essas pinturas também têm, como as vejo, algo de sacro, de piedoso aos olhos de quem viveu o auge da reorientação da alma pela ciência e a psicanálise. A proposta da mostra é assentar a influência de Velázquez e Picasso na arte do pintor irlandês, morto em Madri em 1992, o que me soa correto e admirável.

Mas, volúveis como costumam ser as sensações, ao deixar o museu trazia apenas um quadro dependurado nalguma parede da mente, certa marinha (Sem título – Sea, 1953) perdida no catálogo do Bacon. Na tela vê-se um plano de areia definido pelos cortes retos do azul da rebentação, azul que enegrece e mistura-se ao torvelinho noturno para reparecer azul, acima — rima pictória ou possível aurora?, me indago hesitante.

A propósito, trago desta passagem pelo Reina Sofia, ainda em Madrid, apenas duas obras. Carrego os faiscantes laranjas, amarelos, róseos, verdes e lilases que grudam nas íris de quem se ponha diante de Os Galos (Les Coqs rouges), um André Masson pintado em 1987. E carrego a sombra do Coyote, a escultura de Louise Bourgeois feita com duas simples seções de bronze sobrepostas verticalmente.

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Pérgola do Parque Doña Casilda, Bilbao. Foto: Antônio Siúves

Nova Bilbao: o que todo mundo sabe 

Daqui a pouco, assim que R. me encontre, vamos subir até o estúdio de nosso amigo arquiteto, no sétimo piso de um edifício vizinho, de cujas janelas amplas também se pode apreciar a obra de Frank Gehry.

O Guggenheim divide com a Torre Iberdrola o panorama de fundo da nova Bilbao. Esta cidade, como todo mundo sabe, renasceu nas últimas décadas como polo mundial do turismo cultural, depois de morrer como campeã da indústria siderúrgica e naval.

Ao museu, com sua cobertura de titânio em placas retorcidas sempre a luzir, creio que ninguém ainda vá tachar de “obra futurista”, tal a diligência com que a água régia do tempo rói nossas crenças nesta era — era que também se define, não obstante, pela mais larga expectativa de vida alcançada pela humanidade, quando inclusive se enseja a superação morte. Tal é o ruído de fundo que perpassa nossos sonhos.

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Vista de Bilbao com Torre Iberdrola. Foto: Antônio Siúves

Mas, penso, o Guggenheim daqui ainda é uma visão inigualável do espírito do tempo afeito à arte e à tecnologia construtiva. Como o mais caro dos vinhos, sorvo a visão de seus recantos, de seus recortes, como enormes refolhos pulsantes, que avisto ao descer a pé uma das vias do Centro que me levam até lá. Essas angulações são ainda mais bonitas ao cair da tarde.

Vejo o museu como um marco cultural em permanente tensão, a refletir o orgulho de uma civilização por seu trabalho, sua riqueza e humanidade.

O Guggenheim atrai milhares de turistas a Bilbao, que tomam o centro histórico do outro lado rio Nervión (casco antiguo) nos fins de semana e perturbam muita gente aqui.

Mas sua existência, creio, já está apaziguada e, quem sabe, plenamente incorporada à vida local em quase duas décadas de existência, a se completar em outubro de 2017.

Já esta onivisível Torre Iberdrola, do argentino César Pelli, é isto, outro arranha-céu moderno, inaugurado em 2012. Da altura de seus 165 metros e mesmo em sua fixidez, a obra me lembra um modelo esguio a desfilar initerruptamente na passarela da arrojada e bilionária nova arquitetura.

Um trago de Txakoli e um brinde às gaivotas

Hoje volta a chover em Bilbao, depois de milagrosos três dias de sol. Ontem, à luz plena, desfrutamos o ar puro e fresco da manhã no Parque Doña Casilda, ao lado do Museu de Belas Artes, mais conhecido pela gente local simplesmente como parque dos patos. Não revisitei o rico museu que exibe obras de referência e de criadores de País Basco, como os modernistas Jorge Oteiza e Eduardo Chillida  — este, autor do Peine de Viento, escultura ancorada em uma rocha marinha na vizinha San Sebastián.  Mas foi delicioso reencontrar redivivas as árvores do parque, ainda que no dúbio esplendor do outono — em contrate com a hibernação nua e o aguaceiro invernal que me receberam em 2015.

Dentro de hora e meia, tomaremos a estrada toda em curvas na direção da costa ocidental de Bizkaia, onde mais se fala a língua nacional de raiz desconhecida, o euskera.

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San Juan de Gaztelugatxe. Foto: Antônio Siúves

Nossa primeira parada, então, é o museu Txakolingunea, em Bakio, onde aprendo algo sobre o Txakoli, este vinho que tanto estimo e cuja existência ainda é pouco sabida além do País Basco e de terras da Cantábria e região de Burgos, ontem também é feito. Na Espanha, fica longe no ranking dos brancos secos mais consumidos.

A guia me surpreende quando diz que existe uma rara produção de Txakoli tinto. Mesmo o branco é produzido em pequena escala, com uma exportação diminuta para os Estados Unidos, depois da bênção conferida pelo papa Robert Parker. Pergunto-lhe se é certo escançar ou escancear este vinho, como se faz com a sidra nas Astúrias, e como me foi servido em um bar de Madri, para minha surpresa. Não, não se deve absolutamente dar tal serviço apenas por que há bobulhas no vinho, pela mesma razão, ela diz, que não se recomenda encancear champanha.

A baixa insolação nestas montanhas, o rigor do frio e as chuvas fazem do Txakoli um vinho da persistência de quem labuta com uvas autóctones e logra transmitir o sabor da terra a uma bebida tão singular.

Depois de uma prova (cata) de Txakoli, percorremos um pouco mais de estrada até o miradouro onde se avista o promontório de San Juan de Gaztelugatxe, ligado ao continente por uma ponte construída sobre rochas marinhas.

A chuva não nos permite descer e galgar os 241 degraus que levam à ermida dedicada ao santo, sítio de peregrinação de turistas e homens do mar, onde também se celebram muitos casórios por aqui, diz minha cunhada. Dias depois, no voo de volta, poderei rever o lugar em uma sequência do longa-metragem Gernika.

Prosa com homens do mar em Bermeo

De Bakio tocamos para Bermeo, distante uns cinco quilômetros. Ao descer do carro me dão boas vindas adoráveis gaivotas, a fazer a ronda do porto. Tenho vontade de propor um brinde de Txakoli a essas aves tão ousadas e marcantes. Penso que um dia frio e chuvoso de outono como este lhes é tão alegre e agradável quanto benéfico ao autor deste mal-batucado relato de viagem.

J.F., o amigo arquiteto, puxa papo com dois pescadores aposentados que caminham pelo molhe em nossa direção.  Invejo o vigor do aperto de mão de um deles, baixo e compacto. Há tempos, li não sei onde que o cumprimento do tipo quebra-mão é excelente sinal de longevidade. O homem nos conta saudoso que atracou em portos do Nordeste brasileiro, que ele enumera, e pescou lagostas na costa de Niterói. Também reclama, sem poupar impropérios, que hoje é obrigado a manter filha e netos em sua casa nesta vila. Seus planos de se mudar para Zamora ou Zaragoza, não entendo bem, e gozar uma aposentadoria mais folgada foram por água abaixo.

Sob uma garoinha, damos uma volta pelo Puerto Viejo e subimos à Torre Ercilla, construção do final do século XV que abriga o Museu do Pescador. No pequeno pátio em frente à torre nos detêm três estátuas de bronze em tamanho natural. Um homem da mais pura estirpe basca tem o braço direito e o indicador erguidos, a apontar o mar. Logo atrás dele postam-se para a eternidade uma mulher com bebê no colo e uma criança, desconsoladas.

Tiro algumas fotografias quando já anoitece. Hora de puxar o carro, o amigo bilbaíno tem aulas de violão daqui a pouco.

Amanhã, sábado, desceremos pela manhã as serras da cordilheira cantábrica antes de encontrar a planura deslizante e os céus anchos da meseta, rumo a Salamanca.

(Fim de relato.)

As outras partes deste relato de viagem são, em ordem cronológica:

 

 

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Museu do Txakoli, Bakio, Bizkaia. Foto: Antônio Siúves

Viagem em torno de pintxos e ‘copas’

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Ciudad Rodrigo (Salamanca, 2016). Foto: Antônio Siúves

 

Peço um pincho de foie fresco a la plancha (€ 2) e um copo de Tempranillo (€ 2,30) duma garrafa de Avan, o melhor Ribera del Duero que provo então. Segundo avalia minha mulher, uma Robert Parker no tema, bebemos um tinto raro, inócuo para enxaquecosos, estes seres sem-teto no planeta Baco.

Estamos tapeando na Taberna La Favorita, em Burgos, pela segunda vez, e voltaremos amanhã para jantar. Está é a cidade do indesviável El Cid Campeador. A capa do herói mercenário esvoaça na estátua gigantesca que o representa, espada em riste sobre o ginete num imaginário campo de batalha flutuante. O monumento cobra a visão total de quem vai à praça que o homenageia, à beira do rio Arlazón. Os ossos do herói descansam na tumba da imensa La Santa Iglesia Catedral Basílica Metropolitana de Santa María, mas seu fantasma parece vigiar a cidade inteira, inclusive o denso silêncio do nosso hotel, por acaso o Mesón del Cid.

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Retomo meu copo de Avan e o pincho de foie. Sinto que estou em uma das casas mais simpáticas que pude conhecer neste país. É ampla, arejada e a um tempo jovial —denomina-se “taberna urbana”— e reverente à tradição castelhana, com indefectíveis embutidos e provisões de jamón a pender do teto. Os pernis daqui são da marca Joselito, se a informação diz algo a alguém. Um barman parece dedicar-se full time à arte de fatiar finamente os quartos de jamón fixados numa bancada própria ao ofício. Os cortes são oferecidos deliciosamente no quadro negro como NUESTRAS CHACINAS. A freguesia alvoroçada se compõe duma mistura da gente local e turistas, que se alternam no balcão (barra), à porta, nos fins de semana, e nas mesas do restaurante (salón comedor).

Na La Favorita, domingo à noite, vamos nos sentar ao lado de um casal octogenário, ainda a desfrutar a vida de uma maneira impensável para um idoso na grande maioria das cidades brasileiras. Nossos vizinhos de ceia subiram uma vez mais de Madri, onde vivem perto do abençoado parque do Retiro. Ao saber que tenho apreço por poesia, o irresistível Don, homem tipicamente ibérico, forte e compacto, depois de me censurar por ter preferido vinho branco (por sinal um Bornos, € 13 a garrafa, feito com a uva Verdejo na Rueda, em Valladolid), me dirá uns versos do grande poeta sevilhano Antonio Machado, que o alarido da conversação me impedirá de escutar. Pelas tantas e um copo a mais, nos apresentará a um cidadão britânico com ares de quem escapou dum filme dos anos 1960, a envergar um terno classudo cor de mostarda, e à sua companheira holandesa, na mesa ao lado; em seguida, também à guia japonesa, da qual, antes de chegarmos, havia igualmente se tornado amigo de infância, e quem faz as honras a um pequeno grupo de seus compatriotas a duas mesas da nossa.

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No tapeo e na restauração das Espanhas destacam-se — em uma vivência que está longe de menosprezar Barcelona e outras cidades — os bares e restaurante do Norte, como os de Bilbao ou San Sebastián. Nessa cidade basca e em seu entorno está, como se diz, e não é de hoje, a maior concentração mundial de estrelas Michelin por metro quadrado. Mas isso agora pouco me diz. Nunca fui fervoroso em matéria de comida, e me enjoei quando percebi que a gastronomia começava a ocupar o espaço dos velhos cadernos especializados em livros e filmes. Mas perdi o encanto pelo “menu degustação” formulado em laboratórios.

As tapas em Madri — penso nos bares mais manjados, como os da calle Cava Baja e da região central de Los Austrias — raramente seduzem meu paladar. Nesta viagem, aliás, andei comendo mais mal que bem nos quatro dias que lá estivemos. Bastante bem, por certo, em companhia familiar, na Taberna Los Huevos de Lucio, na mesma Cava Baja, numa noite em que nos serviram ótimas raciones e o garçom gentilmente nos apresentou a um vinho da Estremadura, que eu ignorava como região vinícola, de nome e sabor memoráveis: Habla del Silencio, a € 18 no restaurante.

Mas pude constatar que casas tradicionais como El Mollete, que só agora conheci, ou a Taberna Bola, onde voltei, vizinhas de calle em Los Austrias, já não fazem justiça ao prestígio que desfrutam em guias como Lonely Planet. É certo que restaurantes contemporâneos, bem avaliados e cotados em vários cifrões abrem-se a toda hora na capital espanhola. Agora, se você quer gastar algo em torno de € 10 em um menu, num almoço genuíno e honesto, fará muito bem se levar recomendações como as que são feitas pelo jornal El País, e se dispuser a se deslocar para alcançá-los. A cidade é muito bem servida por extensa rede de metrô, sem falar das inúmeras calles fechadas a pedestres, peatonales, um convite que me incentiva a caminhar até músculos e tendões começarem a chiar.

Pois sobram arapucas para turistas desprevenidos e, nesse passo, Madri vai se romanizando cada vez mais ou se degradando em um dos piores traços de Paris. Por preguiça e cansaço, depois de duas horas percorrendo o museu Reina Sofia, deixei-me capturar e à minha querida companhia em uma dessas trampas, na Calle de Santa Isabel, já bem perto do mercado de Antón Martín, onde comi, ou tentei comer, o pior bife com fritas com que deparei numa existência que transborda o meio século.

Trago as melhores impressões, isto sim, das tapas ou, neste caso, dos pintxos que pude provar em Bilbao, San Sebastián ou Pamplona. Meu bocado preferido atende pelo lindo nome de Gilda, originária do País Basco. Cabe num palito composto por azeitona de qualidade descaroçada, guindillas (pimentas verdes finas de um tipo local), anchova do Cantábrico e eventuais acréscimos autorais. O efeito das notas picante, oleosa e marinha combinado com um copo de Txakoli é uma celebração que me aprisionou a essa terra.

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Salamanca (quadro, 2016). Foto: Antônio Siúves

Em bares de Córdoba, Granada, Salamanca e outras tantas cidades espanholas ainda são oferecidas tapas por conta da casa a quem peça um copo de vinho. O preço da copa está entre € 1,30 e € 2,50. Conforme essa tradição, desfrutei nesta viagem de um pequeno festim dessas porções servidas no El Bambú, a uns cinquenta passos da estonteante Plaza Mayor de Salamanca. Fomos convidados ao bar e restaurante por um amigo comum, que vive em Zamora e nessa manhã de domingo estava na cidade, coincidentemente, acompanhando a mulher em uma prova de concurso público. Como bom mineiro, reverenciei em primeiro lugar as jetas, espécie de torresmo assado preparado com nacos das bochechas do animal, que são típicas desta cidade, na qual a carne de porco constitui um império.

As áreas rurais da província são tomadas por fazendas de criação do porco preto ibérico (além de touros para as corridas) e fábricas que processam seus prodigiosos pertences. Os animais se alimentam das castanhas (bellotas) que caem das encinas, árvores gorduchas que dominam a paisagem que divisamos nas estradas da região.

Depois do lindo amarelo que vibra das pedra com a qual Salamanca se ergue e distingue a província entre as Espanhas, carregam-se na memória do visitante também os vermelhos marmóreos e os alaranjados graxos dos lombos defumados, das peças inteiras e dos cortes de jamón de toda classe e da incalculável variedade de embutidos a rebrilhar nas charcutarias espalhadas pelos quatro cantos desta cidade universitária, onde o viajante passa muito bem, sim senhor.

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Verde & Amarelo (Ciudad Rodrigo, Salamanca, 2016). Foto: Antônio Siúves

Pouco antes de tomarmos um ônibus para o aeroporto de Barajas nos despedimos com um almoço de uma espécie que, creio, dificilmente ainda se possa desfrutar fora da Espanha. No menu do El Bardo, a € 12, havia meia dúzia de opções para a escolha de quatro pratos, inclusos sobremesa, água mineral, vinho mais que razoável (uma garrafa para dois), tudo preparado e servido com profissionalismo e esmero. Escolhi sopa de alho, costeleta de porco, perca do mar grelhada com verduras e torta de tiramisu. E assim garanti minha sesta numa poltrona de ônibus para despertar já nas proximidades de Segóvia, com a música ambiente letal de um pop norte-americano que faz muito sucesso na mídia popular espanhola.

Engrosso as estatísticas dos turistas estrangeiros que em 2015 despejaram 15 bilhões de euros em restaurantes e bares de tapas em todo o país. Mas não pertenço aos 14% desse contingente para quem a gastronomias é a principal motivação de uma viagem à Espanha. Os principais destinos dos estrangeiros são Catalunha, Valência e Andaluzia. Sinto-me mais afeito à onda turística interna, que se move rumo ao Norte, ao País Basco e às Astúrias, principalmente.

Retiro esses números do El País, numa sexta-feira muito fria deste novembro, enquanto tomo um café com leite fumegante num bar com vistas para o Museu Guggenheim de Bilbao, de onde retomo este relato, no próximo post.

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Plaza Mayor (Salamanca, 2016). Foto: Antônio Siúves

Sei que nada sei de “Espanhas”

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Volta de Ciudad Rodrigo (Salamanca, 2016). Foto: Antônio Siúves

Margeei Cabezón de Pisuerga e, sem querer, dei um voltinha no carro de um amigo pela minúscula Aldehuela de la Bóveda, onde vivem pouco mais de 300 almas. Pegávamos a estrada para Salamanca, desde Bilbao, no primeiro caso, e para Ciudad Rodrigo, no último. Nesta viagem, passei uma manhã em Covarrubias e horas dessa tarde em Santo Domingo de Silos, vilarejos nas imediações de Burgos igualmente pequenos e despovoados.

Agora, quem sabe — sou levado a pensar —, com estes nomes de povoados e novas paisagens na mesma zona da memória onde se depositam certos traços dos nossos sonhos, no saldo da viagem, talvez eu possa afirmar: “Conheço algo deste país”. Mas não, não quero ser imodesto nem me perder na presunção.

Às goladas, em cada viagem, vou, isto sim, me resignando à sensação de que jamais poderei dizer que conheça ou compreenda bem o diverso, fabuloso e inumerável tesouro espanhol. Cheguei muito tarde a um mundo milenário.

Sei que é ingênuo atribuir ou delimitar este tesouro cultural à extensão de um “Estado espanhol”. Sapo de fora e educado em velhos costumes, não ouso questionar as crenças de quem vive neste território, com argumentos obtidos na História. A política “espanhola” já não era para amadores antes de o Brasil existir. E hoje não está para brincadeiras. Admiro os amigos que preferem a denominação “Espanhas” e querem mais autonomia para as regiões e províncias onde vivem, e respeito quem defenda o independentismo, ainda que este me pareça, quase sempre, uma ilusão, filha dos piores vícios do populismo. Simbolicamente, ao menos, convenho perfeitamente com “Las Españas” e tento aprender com aquelas que visito.

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Covarrubias (Burgos, 2016). Foto: Antônio Siúves

Sei, não obstante, que existe mais em comum entre bascos, catalães, galegos, murcianos, navarros, asturianos, andaluzes, castelhanos-leoneses e castelhanos-manchegos, aragoneses, valencianos, baleares, canários, estremenhos, riojanos, cantábricos e ceutas do que cada indivíduo de algumas dessas regiões autônomas costuma conceder. Se é um espírito, uma maneira de ser e viver ou ver o mundo, não me arrisco a dizer.

Adiantei o relato desta viagem neste e neste outro texto recentes. Amanhã pretendo continuá-lo, a (re)começar por algumas linhas sobre a comida e bares de tapas e restaurantes das tais Espanhas.

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Covarrubias (Burgos, 2016). Foto: Antônio Siúves