Oração ao pós-humano

Ó, Grandessíssimo Doutor,

Lâminas de massa grisada
expõem meu espírito plástico
refeito e afeito às curvas
dum Guggenheim de Bilbao

Do pós-tudo ao pós-humano,
da síntese ao biossintético,
decanto Teu tesouro nanométrico
a ansiar pela vinda do emplasto
que há de recauchutar telômeros,
reeducar proteínas e sinapses
sem o ranço da eugenia, afinal,

E,

Naturalmente,

Usaremos redes sociais para trocar
endereços de clínicas genômicas
como quem no arregaçado século 20
buscava cremes e águas sulfurosas,
naquela era de fabulosa inocência,
de pierrôs indóceis com pouco viver
e tanta utopia tóxica coada no tempo,

Tempo que agora alarga o caminho
da suprema fé no futuro tecido ponto
por ponto da descompostura do ser,
que constitui o poder e a glória
na hígida Substância do Teu reino,

Amém.

 

Antônio Siúves in "Moral das Horas" (Manduruvá, 2013), p. 83.

O decálogo do quem escreve nunca alcança

O decálogo do Quem Escreve Nunca Alcança (*)

I  Escrever é porejar.

II – Quem escreve nunca alcança. Procura e não acha; quando acha, passa. Quem escreve, escreve, é bem sabido, para preencher o oco do oco de entreinhas. Melhor era pescar no ribeirão ou cortar lenha para o jantar. Mas, veja-se, quando escrevo pescar no ribeirão e cortar lenha para o jantar, obrigo-me a refletir que não há mais ribeirão, não há mais peixe, não há mais fogão nem mata há. Logo, furo a batida metafórica pela saúde do artesanato – o bom fado de quem sabe confeccionar algo relevante, mesa, cadeira, carretilha.

III – Quem escreve nunca alcança. Não é a glória nem a posteridade nem o poder nem a fama.

IV – Quem escreve quer ser lido e quem não é lido não deixa de escrever, pois se deixa, alcança menos. Quem publica e não é lido e quem publica e é mais-vendido nunca alcançam.

V – Quem escreve menospreza os sentidos ou vive as sensações no sentido translato, em sua capa vicária.

VI – Quem escreve nunca alcança e se cansa, mas escreve; se não escreve, padece do não escrever, um padecer pior.

VII – Melhor que escrever é tirar leite, pastorear ou, como disse o Raduam, o cheiro do alho frito no azeite vale mais que qualquer romance. Tem razão esse autor; pena, não tem razão esse autor.

VIII – Quem escreve às vezes fosforesce.

IX – Quem escreve às vezes dança.

X – Quem escreve às vezes vê. Mas quem escreve nunca alcança.

 

(*)Poema do "Moral das Horas" (Manduruvá, 2013, Belo Horizonte), pág. 52.

 

 

Um brinde a Ana Akhmátova

Lendo “Pós-Guerra – Uma História da Europa desde 1945”, de Tony Judt (Objetiva, 2007), deparo este trecho (pág. 205) no final do capítulo sobre as desgraças perpetradas pelo stalinismo, entre as quais os expurgos e os célebres julgamentos fabricados: “Os principais inimigos [do “povo”] eram supostamente os camponeses e os burgueses. Mas, na prática, os intelectuais costumavam ser o alvo mais fácil, conforme tinham sido para os nazistas. O ataque venenoso desferido por Andrei Zdanov contra Anna Akhmatova – “freira ou meretriz, ou melhor, freira e meretriz”, capaz de combinar prostituição e oração. A poesia de Akhmatova está totalmente distante do povo” – (…)”. Lembrei-me de meu querido “Nova Antologia Poesia Russa Moderna” (5ª edição, Brasiliense, 1987), que reúne traduções dos irmãos Augusto e Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman.
Aproveito para erguer no blog um brinde à poeta, cujo nome os autores da antologia grafam Ana Akhmátova, e transcrever aqui seu “Dístico”:

Que outros me louvem – seu louvor é cinzas.
Que me reproves – teu rancor, alvíssaras.

DVUSTÍCHIE

Ot druguikh mnié khvalá – tchto Zolá,
Ot tiebiá i khulá – pokhvalá”.

1931

(Tradução de Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman)

Uma apresentação de Tião Nunes

Reprodução de O Tempo Online

Ao poeta, escritor e editor Sebastião Nunes (perfilado aqui pelo poeta Fabrício Marques) devo a generosa leitura dos originais do meu Quem Escreve nunca Alcança. Tião, cronista do jornal mineiro O Tempo, por duas vezes se referiu ao livro. Na primeira, em 4 de abril deste ano, ele trata de poesia, menciona as obras de Ana Martins Marques, Romério Rômulo e, audaciosamente, introduz um inédito titubeante e conta:

“Outro que me veio do nada, ou pelo menos de outras margens. Conheci Siúves quando ele era editor deste Magazine, e foi quem me convidou para escrever aqui, atividade que exerço com prazer e orgulho lá se vão mais de oito anos. Nunca suspeitei o poeta, e desconfio que ele mesmo não se sentia em terra firme, tal a modéstia com que me enviou, meses atrás, os originais de “Quem Escreve Nunca Alcança“, inédito.”

Não satisfeito em gastar  espaço e tempo com um desconhecido autor bissexto, poeta aventureiro, Tião me surpreendeu mais uma vez ao ocupar de cabo a rabo seu quinhão dominical em O Tempo (2/5/2010) com uma análise do Quem Escreve… O estilo agudo da grande crítica, a profundidade da avaliação lenta e elaborada dedicados ao meu livrinho!

Eis um passagem de “Antônio Siúves e o sentimento irônico do mundo”  

“O que diferencia a poesia de Antônio Siúves de boa parte dos poetas atuais é que ele parece seguir à risca (talvez sem conhecer) o recado de Eliot: ler, experimentar e viver. Como não conheço o autor pessoalmente, não sei como são sua vida e leituras. Mas basta folhear ao acaso “Quem Escreve Nunca Alcança” para saber que se está junto de um poeta que chegou lá pelo caminho do aprendizado, evoluindo ao longo das duas linhas mestras do gráfico imaginário”.

Por exemplo, em “Retrato“:

“Homem-carro acelera contra o dia/ e o sorvedouro da luz engolfa/ outra esperança tardia./ A cidade oca expulsa os mortos -/ os vivos – seres tortos -/ padecem dessa ausência.// A luz suave – carícia não havida -/ em cada ponto é defletida/ no fundo da esfera onde a cidade repousa -/ e para na fotografia”.

Que é o retrato da cidade moderna, qualquer cidade, com seus homens-carro, seus vivos tortos e seus mortos, parados em fotografia.

A história inicial do livro, logo, é a história do estímulo e do impulso oferecidos de coração aberto pelo Tião. Além dos links para as duas crônicas de O Tempo, vou reproduzir os textos aqui, para resguardá-los mais um pouco neste baú virtual. A poesia e, em termos absolutos, incompatível com este mundo. Exatamente por isso nunca foi tão essencial, tão necessária à humanidade.

Antônio Siúves e o sentimento irônico do mundo

Publicado originalmente em O Tempo, em 02/05/2010

Antônio Siúves e o sentimento irônico do mundo

SEBASTIÃO NUNES

Como é que alguém chega a se tornar um bom poeta? T. S. Eliot, um dos maiores escritores de língua inglesa do século XX, também crítico e editor (dominando assim um espectro bastante amplo da literatura), escreveu o seguinte: “A evolução do poeta se processa ao longo de duas linhas de um gráfico imaginário. Uma das linhas é o esforço constante e consciente em busca da excelência técnica, isto é, do desenvolvimento de seu meio de expressão para quando tiver realmente alguma coisa a dizer. A outra linha é apenas o curso normal de seu desenvolvimento existencial, o acúmulo de experiência, que deve ser a soma de leituras, reflexões, interesses de todos os tipos, contatos e conhecimentos, tanto quanto paixão e aventura. É quando as duas linhas convergem que nascem as obras de arte”. (Introdução do livro “Ezra Pound, Selected Poems“, 1928.) Acrescento que, além da tradução fajuta que fiz, também cortei e selecionei apenas os trechos que me interessavam.

DE CIMA E DE BAIXO
O que diferencia a poesia de Antônio Siúves de boa parte dos poetas atuais é que ele parece seguir à risca (talvez sem conhecer) o recado de Eliot: ler, experimentar e viver. Como não conheço o autor pessoalmente, não sei como são sua vida e leituras. Mas basta folhear ao acaso “Quem Escreve Nunca Alcança” para saber que se está junto de um poeta que chegou lá pelo caminho do aprendizado, evoluindo ao longo das duas linhas mestras do gráfico imaginário. Por exemplo, em “Retrato”:

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Uma senhora poeta e dois senhores poetas

Publicado originalmente em O Tempo, em 11/04/2010

Uma senhora poeta e dois senhores poetas

Reprodução O Tempo Online

SEBASTIÃO NUNES

Os desígnios de Deus são inescrutáveis, afirmam todas as religiões. Em algumas delas, seu nome é desconhecido ou impronunciável. Tenho uma música sufi, “Os noventa e nove nomes de Allah”, que não entendo, mas que ouço com devoção e respeito. Jorge Luis Borges era apaixonado pela ideia de que basta pronunciar o nome secreto de Deus para penetrar os mistérios do Universo. Os xamãs, mais do que nossos guias religiosos atuais, vivem tão próximos de Deus que, em seus transes, entram em comunhão com Ele, da mesma maneira que os profetas antigos. A poesia (oral, musicada, escrita) será talvez a linguagem comum entre Deus e os homens, e quem sabe por isso nos tenha sido entregue como dádiva, e não a todos, mas apenas aos iniciados. Costumo pensar que, por isso mesmo, a poesia seja tão recolhida em si mesma, os bons poetas sejam tão raros e a prática da melhor poesia exija concentração máxima, tanto para a escrita quanto para leitura e audição. Assim, se os poetas são raros, os bons leitores de poesia também, desde Hesíodo e Homero. Acredito, com humildade, que o ser humano só se torna completo quando se deixa atrair pelo misterioso chamado da poesia. Não vou dizer que o homem se tornou pior por abandoná-la, porque ela nunca foi abandonada. Os fiéis dessa religião sem dogmas sempre foram poucos e continuarão sendo poucos até a consumação dos tempos. Infelizmente.

ANA MARTINS MARQUES
Em 2007 julguei, com Eloésio Paulo e Nelson de Oliveira, o Prêmio Cidade de Belo Horizonte, promovido pela Fundação Municipal de Cultura, dirigida na época pela extraordinária e batalhadora Antonieta Cunha. Debruçado sobre caixas e mais caixas de originais, tentava descobrir a chama sagrada. A maioria, o que é comum, sequer merecia o título de poesia, e seus autores desconheciam o que fosse poema, ainda que medíocre. Eram no máximo prosadores, e prosadores ruins.

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