Poemas de viagem

Os Poemas de Viagem são parte do Livro de viagem — Estratégias, dicas e vivências de um turista literário e cultural. Também podem ser lidos, abaixo, Galícia e Fisterra, mais recentes e parte da coletânea 21 Poemas.

Carrinho de mão vermelho

red wheel

 

Philip Roth dependurou as chuteiras,
Me contava The Herald Tribune
No hotelzinho do Marais,
Ao lado (não notara)
da libraire anglophone
The Red Wheel Barrow
(22 rue de Saint Paul),
Onde anos antes havia comprado (sem querer)
The Plot Against America (que me
Confundiu em Florença — e
Que acaba de fechar.

Inda há livros (perdidos) na vitrine
(E um computador semiabandonado),
E um aviso (50% OFF non fiction)
No cartazete sobreposto
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Disponible
AGT Bastile
01 42 78 10 20.

The Red Whellbarrow, por William Carlos Williams


Coragem aos 51

Até onde vai 2

 

A manhã dos meus 51 anos
Era um mar bonina e o seu
Espelho dava ao sol a velha cor
Malva que Marcel tanto amara.

Celebrei o dia nos confins
Da Villa Cimbrone (para o
Escritor americano Gore Vidal,
O mais belo sítio da Terra).

A buscar Odysseus e sirenas
Lá ao pé do Tirreno, encarei
O precipício que se punha:
Corajosamente o fotografei.



Trapiches pra lá de Lisboa


Trapiches de Lisboa

 

Do outro lado do Tejo, em Cacilhas,
quedam ruínas de trapiches,
onde penso em não pensar em nada,
mas não alcanço os pés do Caeiro.

Os trapiches sentem pejo
quando passam turistas bávaros
rumo à Boca do Vento para tirar
fotografias com seus I-Pads,

Olhar a linda vista de Lisboa,
tagarelar e tomar cappuccinos.
Não tenho nada a fazer ali.
A cidade acaba de nascer

De outra noite esquecida,
melhor que eu, a buscar
tanta coisa perdida
na algaravia do tempo.



Autorretrato com IHT [2o/01/2013]

O jornal mais elegante
E mais bem feito do mundo
(Ainda; então) não saiu de cena.
Recostado à Pont Marie,
Ao lado dum plátano outonal,
(Sena e Île enquadrados)
O poeta merencório se exibe
Ao exibir seu exemplar:
Ó mundo,
Vês o que estás a perder,
Vês a beleza moribunda,
Que te saúda?

DSC02266

(Atualizado em 26 e 28 de fevereiro de 2013)

‘NYT’ deixa de usar marca ‘Herald Tribune’

“Com o objetivo de transformar o jornal americano em um serviço global de notícias, grupo de mídia passará a concentrar forças na marca principal.”


Raia Jackson Pollock
(nota poético-gastronômica)

No rastro do Frank Bruni, provei tal obra de arte
No Largo de São Carlos, no Chiado e no Belcanto,
Depois da Cavala a escabeche, surpresas e tanto
Do mundo novo gastrô, desde a bola de bacalhau,

Qual trufa Ferrero Rocher, à pequena delgada nau,
Uva e oliva a um tempo a rebentar no céu da boca,
Tudo cortejado pelo Meruge 2008, minha senhora,
Tinto do Douro que renovou meu amor a  Bacchus.

Não é uma beleza essa dita “raia Jackson Pollock”?
Era fresca, cozida com maestria e algo crepitante.
Que o próprio Pollock se revirasse onde é sepulto,
Não me surpreenderia. Mas bem nesta hora, pense,

Quando estrelas de restaurantes para lá de caros —
Finórios ofuscam Louvres e Monalisas à margem,
E célebres artistas ricaços, digamos como o tolo
Damien Hirst,  que nunca valem a mera lavagem

Do Adria e, creio, inda menos, um dos inventos
Do Alvillez, a fazer história em Lisboa, na Alta,
Um prato assim até que pede um entendimento.

httpwww.nytimes.com20120527travel4-lisbon-restaurants-not-to-miss.html_r=0

Ir para João Pedro Marnoto for The New York Times  A dish called skate Jackson Pollock at Belcanto.


Galícia

Trago o sabor do Urujo,
O musgo cor de mostarda
Nas pedras a amparar as Rías,
E o teu sol impresso,
Tal como sonhara;

Trago o semblante da mulher
Que me vende um Godello,
E o sorriso do velho
De jaleco branco atrás do balcão,
Tal como sonhara;

Tudo a dizer que éramos,
O que morremos
No deserto da desmemória,
No paraíso amarelo do presente,
Tal como sonhara;

Trago o conviver entre tempos
Sem muros, a transigência
Entre ontens e hoje a iluminar
As lâminas que formam viagem
E viajante, tal como sonhara;

Trago no corpo a terna transição
Entre Portugal e Espanha,
Tenho na carne o canto galego
E a beleza do Parque Alameda
De Santiago, tal como sonhara;

Trago a piscadela de Rosalía de Castro,
Aonde me levam camélias em flor,
Gerânios e jacintos,
Aura a cingir o colo da poeta-mártir,
Tal como sonhara.

[Do “21 Poemas”antônio siúves – 2015]

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Pôr do sol em Rinlo, Lugo (Galícia), Espanha – Foto: José Fontan


Fisterra

[A menina dos olhos cega
A sedutora noiva onírica
Que me possui suicida.]

Além de Fisterra
Há o mar oceano,
Templo de tempos.

Gaivotas formam
Linhas de ataque
Ao rés dos barcos.

O musgo dourado
Recobre rochas
De puro amor.

Sob o farol de Fisterra;
Ao largo, a memória rói
Uma lojinha de souvenir.

Em Fisterra, mira o mar
Um cemitério inabitado:
Só a esperança da morte

Penetra janelões de concreto
E gavetas ocas; ali, entre o pinhal,
Impera o monumento recôndito.

A irmã morta me segue
Nesta espécie de sonho
Que me traz a Fisterra,

Sonho onde mergulho
No véu das ondas de sol
Que a nata do mar tece;

Náufrago, guiam-me amigos
Até o horto em Fisterra.
Salvo, nada guardo do fim

Premente cujo sopro alheio
Atravessa nossos corpos,
Tal ordem de partículas.

Nada se apreende do vigilante
Fim no templo oceano que
Ali se debruça, verdelânguido.

[Do “21 Poemas”, antonio siúves — 2015]

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